Jogo de espelhos

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MUSE no Meo arena

Estas celebrações são meritórias. Podemos afirmá-lo sem rebuço. O país une-se; a alma lusa chora lágrimas de sangue; a solidariedade encanta as almas mais empedernidas. E faz-se muito dinheiro… expectavelmente a ser distribuído pelas vítimas que forneceram a razão principal para a efeméride.

Há uma coisa antiga nas ciências sociais que é a preocupação com o que se encontra latente nas acções e eventos manifestos. E não é apenas com Merton que essa preocupação surge. Ela pode ser retraçada ao problema da ilusão religiosa em Marx, aos resíduos de Pareto, e eventualmente à ilusão da transparência durkheimiana. Seja como for, em termos muito prosaicos, nem sempre o que parece para os actores implicados, na realidade é. No caso vertente, uma análise desta natureza tem cabimento.

Um acontecimento destes tem uma outra virtude: a de podermos separar o trigo do joio. Ou seja, como nos são dados cantores tão diferentes em sequência podemos de facto distinguir os que cantam alguma coisa dos que são mera produção de estúdio. Assim, Carminho canta para caraças; enquanto Áurea arranha uns agudos. Camané faz o que quer da voz;  enquanto o Agir não canta puto. E assim sucessivamente. O que nos leva à questão essencial: o que é genuíno e o que é produzido no sentido mais ilusório do termo? Quero dizer que todo o talento é produzido na medida em que envolve trabalho e acção sobre o mundo material. Mas há talento e há ilusão de talento. Para percebermos melhor onde reside a diferença recorramos ao exemplo de Luciana Abreu. Não é uma grande atriz – para além dos esganiçados impropérios com sotaque do norte pouco mais se aproveita. E lançou-se recentemente no mundo da canção, onde também não é melhor. Contudo, a atriz parece não duvidar do seu talento e dizer em entrevista que foi fruto de muito trabalho e dedicação, um sonho cumprido, na realidade ultrapassou mesmo o sonho, etc. A questão fundamental a que deveria ser obrigada a responder é, por que cumprir um sonho para o qual não está obviamente talhada? A resposta é, porque pode. Mas não porque tem talento como cantora, mas sim porque tem recursos – que em nada são vocais – que lhe permitem fazê-lo. Os recursos são gerados pela fama e retroalimentam-se no mundo da fama. Estamos perante um caso – mas que é equivalente a tantos outros – em que a fama é o motor e não o talento. Ou seja, uma pessoa com o mesmo nível de talento de Luciana – medíocre – mas sem fama, nunca poderia movimentar-se pelo mundo do espectáculo sem ser necessário mostrar nenhum talento em especial. Agora é preciso entrar na cabeça destas pessoas para perceber onde é que o seu gigantesco ego lhes dita a necessidade de serem espectaculares. Porque é disso que se trata. Não há nenhum chamamento para a música para além daquele de se quererem ver a cantar. Contudo, a sua prestação não acrescenta nada nem ao mundo da música nem ao do espectáculo que não seja retroalimentar o mundo da fama. Variadíssimas pessoas agitam-se para dar suporte às acções que se executam dentro deste mundo; e não são necessariamente aquelas mais directamente ligadas à actividade. Órgãos de comunicação, com os seus comunicadores, ventilam a informação necessária que lhes empresta a publicidade. Como num jogo de caixas chinesas, uns tornam-se o eco dos outros. O que é mais interessante é que em nenhuma etapa desta troca o jogo se parte ou mostra a sua verdadeira natureza. Todos contribuem, solidariamente, para a manutenção da ilusão. Por exemplo, Luciana Abreu não se lança na canção sem antes ter diversas pessoas, igualmente do mundo da fama, a confirmar o seu valor como cantora. Nem uma só vez alguém o coloca em dúvida questionando a sua real necessidade, perguntando a Luciana se aquilo não traz nada de novo, nem sequer tem qualidade, para quê fazê-lo?

Este longo excurso serviu apenas para  situar o facto de que as espectaculares efemérides em torno de acontecimentos ou tragédias são apenas motivos para retroalimentar a fama. Ariana Grande mostra uma grande solidariedade com as vítimas do terrorismo em Manchester ao repetir o seu concerto na mesma arena? Em que sentido? Certo, o concerto na Meo arena recolheu dinheiro. Há uma aproximação que devemos fazer entre estes eventos e aquelas teletonas inventadas pelos norte-americanos onde se vai acumulando dinheiro comprando produtos publicitados na televisão. A lógica não difere muito. Podemos dizer que aqui os artistas entram com o seu trabalho gratuitamente. Mas sério? Gratuitamente? E os proventos da retroalimentação do mundo da fama? Não apenas o seu nome fica associado a uma iniciativa que é admirada por todos, como ao fazê-lo estão a acrescentar fama à sua carreira. Não são portanto inocentes estas participações; e só muito tangencialmente podem ser avaliadas como altruístas. A verdade é que o mundo da fama tem proventos simbólicos gigantes. E dado que a sua moeda – uma espécie de bitcoin da espectacularidade – é a visibilidade, acrescentar visibilidade é já lucro mais do que suficiente. Perguntemo-nos por que diabo contribuímos todos para chegar ao milhão de euros e não se juntaram estas celebridades, em média bem mais ricas do que qualquer um de nós, e contribuíram com um montante equivalente? A resposta é simples: porque no fundo estão a trabalhar para eles próprios. Lembram-se do live aid? A fome em África esteve longe de acabar, mas algumas daquelas músicas foram ouvidas até à exaustão, com os reflexos inerentes à retroalimentação no registo da fama.

É porque a fama não é um mundo como os outros. A sua multiplicação é exponencial. Os seus efeitos concentram-se numa só pessoa (ou num grupo, mas tomado como entidade singular) e intensificam o sentido moral de toda e qualquer das suas acções. Ter um filho não é aquilo que acontece a milhões de mulheres por esse mundo fora – é aquele filho daquela pessoa, emprestando-lhe uma aura que lhe acrescenta humanidade. Porque a bitcoin da fama – a visibilidade – produz um excesso de presença, um excesso que inere em termos de valorização de alguns em detrimento do anonimato de todos os outros. Sim, porque a fama comporta-se num sistema de diferenças; ela é por definição diferencial. A visibilidade de uns só tem poder mediante a invisibilidade de todos os outros. Aqueles que contribuem através das chamadas telefónicas ou no anonimato da audiência.

Dito isto, espero que o dinheiro angariado ajude as pessoas de Pedrogão; e espero que vá parar às mãos dos verdadeiramente necessitados porque o rótulo de vítima não apaga as assimetrias realmente existentes.

De homens e ratos

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Provedor da misericórdia de Pedrogão Grande e candidato do PSD à Câmara de Pedrogão Grande

Em mais uma crónica de uma beleza sofística incomparável, Rui Ramos vem fazer aquilo que começa a ser gizado como estratégia da oposição PSD-CDS para as autárquicas: bater no Estado e por via indirecta no governo PS responsabilizando ambos pela tragédia de Pedrogão Grande. Segundo Rui Ramos devemos alimentar uma desconfiança permanente relativamente à possibilidade de o Estado zelar pelo nosso conforto social. Diga-se logo de início que o princípio deve ser aplicado em abstracto na medida em que Rui Ramos desconfia do Estado para tudo, excepto para o seu próprio bem-estar social, visto que é o Estado que lhe paga o ordenado. George Steiner avisava há pouco tempo sobre o asco que lhe infundiam radicais esquerdistas a viverem como nababos burgueses. Acho que o raciocínio pode ser utilizado mutatis mutandis a conservadores anti-Estado a viverem às suas custas. Os exemplos são legião.

Contudo Rui Ramos não faz mais do que seguir a partitura com que os próceres da direita foram instruídos ultimamente. Veja-se a monumental patada política (como em espanhol meter la pata) que Passos Coelho cometeu. Há muito que considero a imagem de seriedade incorrupta de Passos um verniz fácil de quebrar e cair. Ontem tivemos mais uma demonstração de revanchismo político do líder da oposição. A pressa não é boa conselheira, diz o povo. Mas a ocorrência mostra bastante do banditismo político que nos foi servido durante os quatro anos da coligação páf. O nojo dos segredinhos de comadres que podem ser auscultados nas conversetas entre o candidato PSD à Câmara de Pedrogão e o líder do seu partido. Esta politiquice rasteira caracterizou muito do período da coligação páf, e evidencia bem como a máquina política da coligação se pauta por processos pouco transparentes. Obviamente que o putativo futuro líder da Câmara de Pedrogão levou um puxão de orelhas da hierarquia partidária por ter levado Passos ao engano. A sua retratação pública exemplifica como estas estratégias de urinol têm pernas curtas. Outra coisa é o texto do El Mundo a pedir a cabeça de Costa por causa do incêndio. Como diz Bruno Nogueira, de forma muito oportuna, o nome até poderia ser Catherine Deneuve – numa alusão a Paulo Portas, para quem não estiver recordado – mas escondendo-se por detrás de um confortável pseudónimo o elemento da máquina procura fazer a nível internacional os estragos que não tem conseguido internamente. Lamento dizer mas isto é o comportamento de bichos desesperados.

Quem vê árvores não vê a floresta

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Tem-se falado muito de ordenamento do território e de gestão da floresta. Não sendo um especialista em qualquer uma das áreas, tenho no entanto  – como bom português – algumas ideias sobre o assunto. Primeiro, há um tique, que dificilmente se pode imputar com exclusividade ao homem e mulher português, que é o de atirar tudo para as costas do Estado. Porque o Estado não acautelou; porque o Estado não interveio; porque o Estado não previu, etc, etc. No entanto o Estado não é uma entidade suprema que omnipotente pairasse sobre nós. O Estado tem os limites que lhe deixamos ter; e para além disso compete, ou mesmo conflitua, com outros interesses. Por exemplo, a ideia sistematicamente aventada por ecologistas e outros com afinidades ao tema segundo a qual o Estado devia gerir a reserva florestal obedecendo a critérios não produtivos ou económicos, mas antes a orientações de salvaguarda quer da floresta quer das populações, parte do princípio que o Estado possui de facto esse poder. Ora, o grande problema da floresta portuguesa é pertencer a uma miríade de privados que fazem dela o que bem lhes apetece. Aliás, a história da ruralidade em Portugal pode ser contada através dos conflitos de cajado e caçadeira por quinhões de terra. Muitos desses quinhões têm floresta, onde a propriedade é de minifúndio e o proprietário é seu dono e senhor não obedecendo a mais nada senão a sua vontade. E esta última tantas vezes troca o seu quinhão por um anexo na vivenda, ou por um carro melhorzinho, ou por comprar uma vivenda maior. Quantas estórias não ouvimos todos nós sobre o ti Manel que vendeu os terrenos a uma celulose e que encaixou o dinheirinho para fazer uma casinha maior? O longo braço do Estado, tal como o da lei, não chega a tanto.

Nesta condição como gerir comummente uma floresta que faz parte dos desígnios e interesses de tantos privados? Como alinhavar uma orientação, que se traduza em prática posteriormente, colectiva quando os quinhões de terra são utilizados para estratégias meramente individuais?

Lembram-se da litania do grande eucaliptal em que gradualmente se tornava Portugal? Pois é, mas tal não seria possível caso os milhares de proprietários privados não o tivessem permitido. Quer isto dizer que a extracção de valor económico da floresta por parte do Estado não existe? Certamente que não. O Estado tem sido para todos os efeitos um dos principais interessados neste negócio. A indústria do papel dá muito dinheiro ao país. Mas o Estado não constitui – longe disso – o principal motor que levou a este estado de coisas. Foi a fragmentação do minifúndio que impediu o gizar de uma orientação centralizada para a floresta.  Não o laxismo do Estado ou dos sucessivos governos. Do Estado tudo o que é orientação será, por definição, centralizada. Mas tirando os regimes totalitários  (e mesmo esses possuem as suas brechas) a centralização não pode ser forçada. Uma responsabilidade comunitária deverá igualmente ser assacada. Porque culpar o Estado tornou-se algo fácil, mesmo preguiçoso e retira os indivíduos de uma responsabilidade colectiva que é necessariamente deles.

O fogo combate-se com o fogo?

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Não pretendo ironizar com a dor das pessoas. Não pretendo minorar a tragédia que se abateu sobre a região de Pedrogão e Figueiró. A eles todas as homenagens são devidas e as mais sentidas penas endereçadas. Todavia, escalpelizar os resultados de tão grande tragédia passa inevitavelmente por sondar as suas causas. Essa é uma necessidade que tem sido representada pelos mais diversos sectores da sociedade portuguesa em formas diversas, por vezes desencontradas. Há, para ser justo, uma procura de resolução da catástrofe na mente das pessoas. É o equivalente ao mecanismo emocional do luto – é preciso alguma espécie de fechamento simbólico que permita a assimilação cognitiva e emocional dos acontecimentos. Um mecanismo é recorrente nas sociedades e podemo-lo encontrar em todos os tempos históricos: o bode expiatório. A procura do bode expiatório prende-se com o carácter sacrificial dos colectivos, a ideia de que é necessário sacrificar um elemento (ou vários) para que o colectivo prospere. Já não queimamos judeus nas fogueiras, nem cristão nas arenas, mas exigimos a cabeça dos ministros e fazemos autos-de-fé públicos com as palavras dos políticos. Por isso um tempo de escrutínio absoluto da palavra e dos gestos assemelha-se estranhamente a uma caça às bruxas. Ontem a entrevista de Judite e Pedro Pinto ao primeiro-ministro foi tingida dessas cores. Estaríamos nós a assistir a dois abutres a depenicar sedentos de sangue a carcaça recentemente aberta que se lhes apresentava? Pois assim parecia. Como em tudo na vida, e apesar da emocionalidade reiterada do nosso presidente, as coisas possuem uma dimensão estratégica. Não tardou por isso que os infelizes e trágicos acontecimentos pudessem servir de armas de arremesso na convulsionada arena da política. Com alguma cautela, diga-se. Mas também com gradual persistência, e a espera para que os jornalistas cumpram o seu papel favorito de caçadores de bruxas vai preparando o terreno para desfechar ataques futuros – e certamente mais seguros porque menos acossados pela emotividade do momento. E neste mesmo sentido a tragédia assim vivida nos últimos dias é péssima para o PS das eleições autárquicas. De repente, e como numa manifestação sádica da consabida expressão no melhor pano cai a nódoa, a pintura borrou-se por completo. Os tons róseos que coloriam os nossos dias tornaram-se de repente negros. Numa folha de serviço imaculada caem abruptamente 64 mortos (e eventualmente a contagem ainda não terminou). Desapareceu de cena o fim do défice excessivo, o crescimento da economia, o melhor ano de sempre para o turismo. Tudo limpo com um pano peçonhento de vidas ceifadas e floresta ardida. Tudo a eito. Mau para o governo? Sem dúvida. Mas tenho para mim que a exacerbação de certos tiques deve ser debelada a bem do bom senso. Por paradoxal que seja os tempos actuais trazem a conjugação entre a imprevisibilidade máxima e o desejo (e representação) da previsão e controlo totais. Ou talvez nada tenha de paradoxal. É quando se multiplicam as situações sociais de imprevisibilidade que aumenta exponencialmente a ansiedade de as controlar. Seja como for, este é um fenómeno que se pode comprovar facilmente pela histeria da exigência de previsibilidade absoluta.

Astuto como é, o primeiro-ministro assumiu imediatamente o tratar-se da maior tragédia humana causada por um fogo. Não caiu na esparrela de minorar o incidente, ou de tentar disfarçar a magnitude das suas consequências. Com isso retirou poder de fogo à oposição e aos jornalistas. Contudo, a estratégia só tem o alcance possível dentro da histeria da previsibilidade absoluta. Chegando aqui esbarra com a inflexibilidade de uma esfera pública, não apenas sedenta por apontar culpados, como fascinada pelo dever do controlo das coisas da natureza, do social, do espírito.

As tragédias acontecem. Não fosse pela sua imprevisibilidade e não seriam tragédias. Encontrar culpados para sossegar os espíritos é uma forma esquizofrénica de negar a imprevisibilidade também nas coisas humanas. Não é apenas a natureza que por vezes nos surpreende; os humanos são máquinas de imprevisibilidade. É claro que o erro é um mecanismo óptimo que nos dá possibilidade de correcção. Mas a ideia segundo a qual se a comunicação tivesse funcionado, isto não se passaria; se a gnr se tivesse coordenado, isto teria sido evitado; se a ministra tivesse autoridade centralizada, isto não teria estas consequências, se… é uma larga cadeia de “ses” sem conclusão à vista. É nestes “ses” que as coisas acontecem. Devemos lamentá-las, procurar melhorar? Claro que sim. Mas não viver na ficção de um mundo sob absoluto controlo do melhor juízo humano. Até porque este último não existe sem o mundo o desafiar e tantas vezes negá-lo.

O mundo according to Breitbart

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A noção de que o autoritarismo é uma coisa que acontece em países como a Coreia do Norte ou a Venezuela sustenta-se em dois pressupostos errados. Primeiro, que as chamadas democracias consolidadas não podem ter mecanismos autoritários. Segundo, que a relação de poderes dos sistemas democráticos é autocontida. A primeira é facilmente negada por países como os Estados Unidos ou o Brasil. Com efeito, o que se verifica é que apesar de um sistema de checks and balances consolidado, o espaço para mecanismos autoritários é gigantesco. A segunda, é um cancro da própria democracia, que ao pensar-se como sistema auto-suficiente não se expande para o exterior da esfera da política, considerada esta no seu sentido mais estrito.

Os mecanismos autoritários emergem, por vezes de forma abrupta – como é o caso actual dos Estados Unidos –, através de formas enviesadas, dentro do próprio sistema de justiça ou através de conexões de natureza mafiosa – parece-me a palavra adequada – entre o mundo dos negócios e a política. Uma vez mais o caso norte-americano e brasileiro são emblemáticos. Mas estaríamos enganados se considerássemos que os casos mais gritantes seriam os únicos. Por cada democracia aparentemente saudável há um núcleo podre de compadrios, negócios e transacções que estão fora da alçada dos supostos mecanismos de controlo. Um dos aspectos que permitiu este estado de coisas foi a secundarização da política em relação à economia. Muito tem sido escrito sobre a influência das desigualdades sociais na eleição de magnatas populistas como Trump ou Macri na Argentina. Esta linha de pensamento quando interpelada responde altissonante: – É a economia estúpido! Talvez seja, mas apenas parcialmente. Uma grande parte, porventura a maior, cabe à cultura. O que leva as pessoas a votarem em massa nestas figuras é o facto de eles se apresentarem como homens de sucesso. O escorreito raciocínio segundo o qual “se ele conseguiu o que conseguiu nos negócios imaginem o que faria na política!”, tem levado milhões de pessoas atrás do canto da sereia dos gestores de emoções. Apenas a total infiltração das coisas da economia nos assuntos da política permite esta representação, esta mundividência, por grande parte do eleitorado. A uma menor escala a “tecnocratice” aguda do governo de Passos, com o seu batalhão de economistas encartados a repetirem o mantra de “deixem funcionar o mercado” encobria na realidade formas subterrâneas de funcionamento do mercado em benefício de redes clientelares. O laxismo do governo em relação à fraude fiscal dos muito ricos (mas a mão de ferro a esmagar os muito pobres!) mostra que a instrumentalização do poder do Estado em favor do dinheiro não é passível de ser controlada pelos tradicionais procedimentos democráticos.  Pelo contrário, estes servem frequentemente para ocultar essa instrumentalização. É aqui que o grande paradoxo da democracia actual reside. Como exercer os seus efeitos, desejavelmente benéficos, através dos seus instrumentos – de natureza política – quando ela própria gera as condições da sua plutocratização?

O que se passa nos Estados Unidos com Trump é o resultado de se guindar, por via eleitoral perfeitamente legitimada, a extrema-direita ao poder. Qualquer analista saberá dizer que não existem paralelos com o fascismo do período entre-guerras, que as distâncias são abissais entre um acontecimento e o outro. Desde logo os fascismos sustentaram-se na mobilização de massas em torno de um único partido que advogava um estado total que penetrasse as esferas sociais por inteiro: família, economia, religião, comunidade. Ora, esta unificação política não acontece nos Estados Unidos de Trump; pelo contrário, a extrema-direita encontra-se no poder, mas dentro do jogo democrático. Esta situação, contudo, foi também aquela que precedeu a totalitarização dos regimes alemão e italiano, e não é líquido que as contingências históricas não possam subalternizar as tipologias e modelos analíticos. Mas uma coisa emerge como um facto: o enquadrar da mensagem política tem as suas similitudes quer com experiências fascistas de antanho quer com um recorrente posicionamento estratégico de partidos de extrema-direita, sobretudo europeus.

Pensar Trump como um bomba relógio imprevisível é falhar o essencial. E isso tem que ver com o caldo ideológico onde devemos inserir Trump. Há uma linha visível que traça uma matriz onde se insere Trump e a sua entourage. Apesar dos esforços iniciais de Henrique Raposo para nos convencer que Trump era um inocente jacksoniano, retórica retirada ipsis verbis da insistente leitura dos ideólogos conservadores com que esse mesmo Raposo se deleita, o presidente norte-americano insere-se num leque diferente de propostas ideológicas. Passada a época da propaganda, até o próprio Raposo deixou de ser tão condescendente com Trump e o discurso do inocente jacksoniano passou de moda.

A alt-right, nome pomposo para baptizar a velha “Nova Ordem” e a junção entre supremacismo branco e os fundamentalistas cristãos do movimento Pro-life, é o que rodeia Trump. E digo rodeia porque Trump parece ser demasiado estúpido para liderar um tal projecto. Contudo a sua ligação a Banon é mais do que ocasional; e o fascínio que ambos partilham pela Rússia inscreve-se num programa cuja ideia é central para o supremacismo branco. Esse fascínio contrasta vivamente com o desprezo que nutrem pela Europa. Se quisermos perceber a orientação de Trump e Banon é ler a Breitbart. Toda a gente devia ser obrigada a ler a Breitbart para percebermos finalmente que é real, que não é apenas uma fantasia esquerdista – a extrema-direita está no poder! Quando nos preocupávamos com a possibilidade Le Pen ou Strache, eis que a extrema-direita chega ao poder na maior economia do mundo: the good old USA. É quase uma paráfrase do erro de análise marxista: quando todos achavam que a revolução aconteceria na Inglaterra industrialmente desenvolvida, ela acontece na Rússia agrícola, industrialmente atrasada. A contingência histórica tem destas surpresas.

Ler as caixas de comentários da Breitbart é também instrutivo. Permite perceber que aquilo não é gente afectada pela “grande depressão”; são fanáticos culturais, anti-feministas, com um ódio à esquerda apenas comparável aos regimes fascistas de Franco e Mussolini; com um ódio ao establishment político, e portanto com um discurso profundamente anti-político, e sobretudo com a reiteração acéfala dos tropos do autoritarismo ignorante: o descalabro climático é uma invenção!, o feminismo é destruidor das famílias, a pobreza é uma “mentalidade” (mindset no original). Este caldo ideológico onde fervilham punição e processos de intenção em substituição de revolta e emancipação tem servido de respaldo para encobrir o essencial da governação Trump: a extrema promiscuidade entre dinheiro e poder “democrático”. Neste sentido segue de perto o guião putiniano de um czarismo para os tempos dos piratas informáticos. O esmagamento da Europa entre as duas tenazes agora aliadas – os USA e o urso Russo – é o seu projecto mais consequente. A Europa consiste ainda no pequeno espaço onde as tendências cezaristas são combatidas. A América de Trump não precisa da Europa para nada; e tenho dúvidas em relação àqueles que se põem a adivinhar novas centralidades, colocando a Alemanha num pedestal. A verdade é que a Alemanha manda dentro da Europa, mas não tem expressão no concerto internacional, sobretudo quando apertada no torniquete das duas maiores potências militares.