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Marine Le Pen – A mãe de todas as bombas

Abril 18, 2017

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Marine é a moab da Europa assim como a conhecemos. Tem o poder de fazer implodir o projecto Europeu infiltrando-se na terra e deflagrando a partir do seu interior: tal qual a moab. As ondas produzidas por uma tal deflagração arrasariam tudo à sua volta. Não é uma pequena mina terrestre como Strache na Áustria, tão-pouco um míssel de curto alcance como Wilders na Holanda. É a mãe de todas as bombas e o fim do projecto europeu. A entente que segurava a Europa entre França, Alemanha e Inglaterra, ver-se-ia reduzida à Alemanha; e esta por sua vez não tem interesse no projecto europeu para além dessa mesma entente. Sem França, ou tendo esta como inimigo juramentado do projecto europeu, a união desune-se, porque o cimento que a unia deixa de existir.

Le Pen tem aliás um discurso assaz curioso. Mas com o cinismo de Theresa May do outro lado da Mancha, quem a pode censurar? Os conservadores – e Le Pen é apenas uma conservadora de visões mais extremadas – nadam num mar de cinismo e hipocrisia. Os reptos de Le Pen anti-imigração, por exemplo, que coisas estranhas emitem quando não existe imigração para a França desde a década de 90! Porquanto desde essa época que a França, como tantos outros países europeus, encarreirou pelas chamadas políticas de imigração 0, que como o nome indica fecharam as fronteiras à imigração legal. Bem entendido, quando Le Pen fala refere-se aos refugiados. Eventualmente aos ciganos, aos roma do leste europeu que Sarkozy queria enviar num comboio para os seus países de origem. Mas a França tem as fronteiras fechadas desde o atentado do Bataclan e nada de extremamente novo aconteceu desde aí. Os empregos não regressaram, a França não se des-islamizou, os banlieus das grandes cidades não se transformaram em verdejantes quintas onde a paz reina. Porquê? Porque o problema não é a imigração. E mesmo que Le Pen assimile – como na realidade faz retoricamente – imigrantes e segundas e terceiras gerações, não poderá nunca expulsar cidadãos franceses.

O que significa então fechar fronteiras na acepção lepeniana? Não é com certeza fechar os caminhos aos estudantes chineses que acorrem em vagas cada vez maiores às universidades parisienses; tão-pouco aos jovens recém-formados italianos e luxemburgueses que tantas vezes estendem o seu campo de prospecção de emprego ao mercado de trabalho francês; também não será ao capital alemão que continua a circular quer em recursos humanos quer em negócios entre os dois países; menos ainda ao investimento russo que compra Paris aos talhões. O que quer dizer então com fechar fronteiras? Impedir os programas de aceitação de refugiados? Mas estes já foram reduzidos de tal forma que nem se consegue perceber donde viria o perigo por essa via…

Le Pen, tal como o seu pai, quer uma França pacificada com a sua história. Uma frança sem complexos ou dilemas morais com o seu passado colonial. E quer uma França branca, de comedores de queixo e de jogadores de Pétanque. Mas existe onde essa França? Não em Paris, onde o metropolitano oferece uma imagem saída dos piores pesadelos de John Difool e da cité-puits [ver o incal de Moebius para perceber alusão]. A França do dinheiro, a frança da moda, do turismo não existe sem esta, a da cidade-poço. Piores pesadelos no bom sentido, se tal se admite. Até porque essa Paris da confusão de culturas e origens é uma Paris que não se distingue daquela que nela é anualmente descarregada vinda de fora, de paragens tão longínquas como o Japão ou o Chile. Como fechar uma sem sacrificar a outra?

Le Pen é nacionalista. E isso está longe de contradizer a maior parte dos países com actual representação no parlamento europeu. Também aqui a mentira é dita e redita. Não existe qualquer contradição entre europa e nacionalismo. Senão como seria possível a sobrevivência no seu desta de nacionalismos aguerridos como o húngaro, ou o checo, ou o polaco? Não seria. E ninguém nas elites desses países se preocupa em fazer parte de um corpo chamado união europeia. O facto é que o federalismo é uma quimera na actual europa e só aparece para assustar criancinhas, como o papão. O papão do federalismo não tem qualquer consistência. E cuidado, o que Le Pen promete, o resgatar os empregos dos estrangeiros para os franceses, não anda longe das promessas de Trump. Ambas são falsas e subsistem apenas porque há muita mente ignorante que se entretém com a perversa equação.

Para que serve então Le Pen? A nível interno francês, para nada. Não vai fazer uma política doméstica muito afastada dos seus homólogos da UDP; não vai contrariar a neoliberalização das políticas públicas; não vai redistribuir rendimentos. Ou seja, com mais ou menos papão da imigração, as políticas vão ser fundamentalmente as mesmas dos seus congéneres neoliberais conservadores. Contudo, externamente, Le Pen pode ser muito mais preocupante. A sua eleição gerará, é quase certo, uma reacção em cadeia pela Europa fora que alastrará como fogo numa savana. A Europa de Leste ficará entalada entre uma Rússia putinista e uma França de extrema-direita, com a Alemanha, por enquanto, a servir de Estado-tampão. E não se desse o caso das simpatias de Putin por Le Pen, e vice-versa, serem muitas, e ainda poderíamos pensar que muita margem de manobra haveria para os entalados da Mittle Europa. Mas não. A tenaz será poderosa. E uma Alemanha sozinha no concerto europeu só pode tocar mais alto até a um certo ponto. A partir desse ponto deixará de existir a Europa que herdámos dos anos sessenta.

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