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Ainda as nossas crianças

Abril 18, 2017

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Uma das justificações mais ouvidas por estes dias foi a de inexorabilidade do choque de gerações. Os comportamentos dos mais novos, disseram diversas vozes, sempre foram criticados pelos mais velhos, pelos seus excessos e desvarios.

Num texto muito interessante intitulado La jeunese n’est  qu un mot,  Bourdieu assinala algo que depois de lido se torna retrospectivamente de uma evidência cristalina: a juventude é uma categoria social e historicamente construída. Mais, os limites daquilo que lhe é permitido variam consoante as relações de defesa do status quo daqueles que, numa determinada conjuntura, possuem o poder, geralmente os mais velhos, eles próprios estabelecedores da possibilidade de divisão cultural entre categorias de idade. Ou seja, as atribuições da juventude enquanto grupo não apenas têm variado ao longo da história como são pretexto para lutas ideológicas sobre a questão donde situar a fronteira entre a juventude e a velhice. E estas são mutáveis. De tal forma que ao longo da história a juventude de uns ameaçou a estabilidade de outros, mas foi também incentivada quando a isso correspondiam interesses específicos, como por exemplo formar uma juventude violenta e apta para guerrear. Por isso não basta dizer que o choque de gerações é inerente à vida social, é preciso questionar a natureza desse mesmo choque. Isso sim é que parece ter interesse.

Aos nossos jovens fomenta-se a liberdade. Há, concretamente, uma ideologia de deificação da juventude – onde tudo é belo, vicejante e criador – que leva a que a velhice seja considerada um peso. Nisso a nossa época apresenta diferenças quando comparada com épocas anteriores. Por exemplo, se o viço da juventude foi em geral homenageado, já a racionalidade da velhice, a sua sagesse, era o complementar da senescência física. O que numa se perdia, ganhava-se na outra.

Outras épocas houve onde o controlo sobre os ímpetos da juventude era o ideal da organização social, da imposição da ordem. Assim, o choque geracional da época vitoriana, admitindo que existia, nada tem a ver com o actual. Leia-se Dickens para perceber que a estratificação das práticas juvenis era o que mais separava os grupos, i.e., as condutas rigorosas da burguesia, contra o desarvoramento dos filhos dos operários e, em geral, do povo. A juventude do Vermelho e o Negro de Stendhal, se pretendia ascender socialmente, colocava-se perante duas opções: a de seguir o caminho religioso ou o militar. Ambas, como mostra Stendhal, exigiam uma intensa disciplina.

Por isso, a indisciplina dos jovens não é efeito do choque de gerações – é a marca do nosso choque de gerações! Com a proliferação de linguagens de autocentramento, como as que nos chegam dos livros de auto-ajuda, dos discursos dos psicólogos, das sistemáticas estimulações publicitárias – o ego ganha uma dimensão inaudita. Os jovens, apesar das inúmeras maleitas psis, estão apaixonados por eles próprios. Nem poderia ser de outra forma. Incitados a contribuir constantemente para uma publicitação do seu eu, a construção desse mesmo eu não é nunca autónoma dessa compulsão para a sua publicitação. Eis o facebook! Na época da extrema autonomia, paradoxalmente confrontamo-nos com a escravatura à nossa exposição.

Dizia no outro dia Nuno Lopes que gostava “de ter sucesso, mas não gostava de ser famoso”. Frase eticamente admirável, mas que esconde o alfa e o ómega da sociedade actual: os dois termos são indistinguíveis. Resta mesmo saber qual precede qual – se ser famoso leva ao sucesso ou vice-versa. O que parece ser evidente é que, nas condições actuais, um não existe sem o outro. E as nossas crianças estão preparadas para navegar com presteza nos dois lados deste oceano.

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