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O melhor do mundo são as crianças

Abril 11, 2017

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Os Amish têm um ritual que designam por Rumspringa, corruptela da palavra alemã rumspringen, ou seja, saltar por aí, e que consiste em libertar temporariamente os seus adolescentes das rigorosas imposições de que serão objecto toda a vida. Assim a um jovem Amish é-lhe permitido durante um período da sua adolescência, que pode variar de dois a quatro anos, fazer o que lhe dá na gana; o que inclui beber, fumar, sexo, drogas e o que mais lhe aprouver. Este período, como qualquer ritual de passagem, contém um teste: o do regresso à sua comunidade e a aceitação da severidade do seu modo de vida. Parece que a taxa de retenção destas comunidades é grande. Mesmo depois dos jovens Amish serem tentados com todas as primícias da moderna civilização, decidem regressar e integrarem-se na cultura de origem.

Os nossos jovens vivem um rumspringen permanente. No entanto parece que necessitam de exteriorizar a tensão em saídas em manada onde vale tudo. Importaram o ritual dos states, onde em filmes diversos de gente bonita e muito doida se vêem representados como prometeicos entes a quem nada é proibido. A importação cultural é de tal ordem que até os polícias se inspiraram nesse hábito e deram à operação de controlo da saída primaveril dos adolescentes o nome de “Spring break”. O mítico Spring break não existia em Portugal. Era uma coisa que a gente via nos filmes marados de jovens bêbedos e drogados a fazerem sexo como doninhas nas praias de Acapulco. Nada poderia estar mais afastado das nossas vidinhas. Helas!, as modas viajam. E fazem-no de tal forma, que quando se transmudam noutro contexto têm que atingir uma intensidade ainda maior. Foi assim que os jovens portugueses, não contentes com o delírio fílmico que lhes servia de inspiração, decidiram levar o ritual ao seu paroxismo. Em vez de Acapulco, saem em revoadas devidamente planeadas por grandes operadores turísticos, em direcção ao sul de Espanha. É o nosso Acapulco. À falta do James Franco e do fascínio da “vida loca” do sex, drugs and rock roll dos Spring breakers californianos, marcham todos para Torremolinos e aí preparam o seu estendal de liberdade. Só fazem merda!

Depois vem sempre uma pedopsiquiatra dizer que os meninos sofrem uma grande tensão, que precisam de extravasar, coitados, aquela tensão toda acumulada do 12 ano, aquele ano horribilis dos jovens de 17/18 anos assoberbados pelas agruras da vida, pela tremenda responsabilidade que é fazer o 12º ano, vejam lá, que nada se compara a isto, não senhor. Desta converseta, a pintar paredes e atirar colchões pela janela vai um pulinho que é como quem diz vai uma rumspringen!

Não acredito nos jovens. Tão-pouco no senhor que organiza estas viagens que com uma cara de rato comprometido apareceu ontem na televisão a dizer que o seu rebanho de 800 era incapaz daquelas malfeitorias. Afinal ver uma oportunidade destas para fazer dinheiro é caso para ser benzido de admiração! Quem se lembraria de sacar guito importando os Spring breaks norte-americanos aqui para a costa ocidental? E se bem que os nossos jovens não fazem merda nas ocidentais costas lusitanas, vão promovê-la para terras de nossos irmanos, e tudo com patrocínio de um jovem empreendedor que empreendeu com a ideia certa para o novo milénio!

Agora a questão do racismo. Os jovens queixam-se de terem sido vítimas de comportamentos e atitudes racistas. É preciso perceber que a ideia do Spring break é ela própria racista. Não pelo conteúdo da mesma, mas pelas formas práticas que ela assume. Que os jovens americanos que vão para o México divertirem-se a vomitar tudo, partir os quartos, estragar e inutilizar o que apanham decorre de haver sempre um qualquer mexicano que há de limpar a trampa logo a seguir. Por isso é que o Spring break se desloca para sul, para a colónia mexicana, e assume um aspecto de vendaval sem limites. É um exercício de poder. Ninguém os expulsa por uma imposição de dependência hierárquica económica. Há qualquer coisa desta subjugação nas afirmações de Trump sobre os mexicanos terem de pagar o muro. Mas os espanhóis não precisam de Portugal para nada, e por isso por que razão aturariam os Spring breakers do seu parente mais pobre? O mesmo não acontece com os britânicos. Aí a reverência em relação aos seus jovens é grande. De tal forma que nunca ouvimos queixas, e não será com certeza por estes se comportarem como verdadeiros lords, porque não o fazem. Mas a estrutura colonial funciona na perfeição. O país mais “afluent”, na parlance dos brits, atira com a sua explosão neurótica para os vizinhos pobrezinhos e estes só têm que estender a passadeira vermelha a todos os desmandos e javardice.

O que não justifica de maneira nenhuma o comportamento dos portugueses. Apenas indica que nesta coisa de jovens em manada há que perceber a estrutura que permite estes movimentos. Quando ela colide com um contexto que não lhe é particularmente subserviente, dá-se a contradição. No fundo é tudo muito marxista, hegeliano mesmo, entre senhor e escravo, embora os jovens actuais tenham absorvido a certeza de que a relação é imutável e onde quer que seja lhes devemos prestar vassalagem. É assim nas universidades; e tem vindo a ganhar expressão nos liceus. Nestes últimos onde dantes se pensava que a juventude não fazia mais do que a sua obrigação, que era marrar nos livros, tudo se faz para os manter entretidos. É preciso entretenimento. E aí podia mesmo entrar o Cobain e o seu repto para o entertainment – rock is stupid, entertain us! Lá se comportam os nossos jovens como uns selvagens, a pintar paredes, a despejar extintores, e pasme-se, revoltadíssimos porque não lhes vendiam cerveja no hotel! Que mais violências sofreram estes rapazes e raparigas, deus meu? Porque não organizar estas viagens ao México onde a estrutura da porcalhisse irresponsável já se encontra montada e pronta a recebê-los?

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