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Mata bicho

Abril 7, 2017

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O espaço de comentário humorístico mais inteligente no panorama nacional cabe a Bruno Nogueira e ao seu Mata Bicho. É caso para dizer que, não obstante a suprema inteligência de Ricardo A. Pereira, este ficou encalhado numa mescla de humor queque infantilóide e teatralização do absurdo. Talvez porque a própria estação onde ele decidiu trabalhar cultiva a inconsequência e a mediocridade repetitiva, quer em termos musicais – com a pior selecção de música das ondas hertzianas nacionais – quer dos diversos protagonismos que por lá assentam arraiais. Esta combinação fez com que Araújo Pereira se sentasse confortavelmente no imenso sucesso que granjeou e vegetasse no registo imposto pela Comercial sem arriscar para além disso. Por isso é Bruno Nogueira que está a ganhar a competição. E se é verdade que há espaço para vários estilos – tantos quanto a máquina de produção de cultura consiga inventar públicos – também é certo que o humor de risco, sem contemplações com os censores da palavra, e empurrando o que faz rir para os limites, está do lado de Bruno Nogueira. Este não se limita a fazer trocadilhos com mais ou menos piada: faz uma verdadeira crítica social, com denúncia, escárnio dos poderes vigentes – nas suas facetas morais e políticas – e é instigador de paixões, que podem ir do ódio à admiração abnegada. Com Ricardo Araújo Pereira nós sentimo-nos divertidos, mas a colagem repetitiva aos mesmos tropos humorísticos limita, em muito, o alcance deste humor. Bruno Nogueira tem ensinamentos: há uma qualidade nas suas crónicas que ajuda a ler o mundo. Descaracterizando-o , é certo; tanto quanto se pede ao humor que o faça, desde logo porque a sua função deve ser desestabilizadora de certezas, crenças absolutas, profissões de fé violentas. É para isto que necessitamos do humor.

O talento da dupla – Quadros, Nogueira – está bem expresso na gama de assuntos que abordam. Na perspicácia com que analisam diariamente os acontecimentos mais “in” espetando-lhes simultaneamente um ferrete de derrisão. E se por alguma razão o choninhas recriado até à exaustão por Ricardo Araújo Pereira atinge os seus limites por falta de substância é porque o mimetismo que nele se encontra implicado fica depressa sem assunto quando o único assunto é ele próprio. É de uma falta de intervenção política que estou a falar. Veja-se, ao invés, como o desafio político espreita constantemente os textos de Quadros e Nogueira; como a sua rubrica está instilada de capacidade subversiva pelo gozo despudorado das coisas sérias. Ou representadas como sérias. Fátima a preços do além!, quantos cristãos apostólicos romanos terá esta rábula chocado? O tempo encarregou-se de provar que a elasticidade da censura social não se encontra determinada à partida. Compare-se com o escândalo suscitado pela rábula que Herman José dedicou à rainha Santa Isabel. Quanto caminhámos! E ao fazê-lo quebrámos barreiras que pareciam inamovíveis? Talvez. Sinceramente, julgo que foi o mercado que todas as elasticidades dita, que ditou mais esta. Nunca como antes se ganhou tanto dinheiro com o humor como se ganha actualmente. O comic relieve dos norte-americanos passou a ser uma espécie de necessidade social paga a peso de ouro. Um equilibrador de humor à maneira dos melhores psicotrópicos. E se em RAP pressentimos o dedo desequilibrador do Quixote e do Tristram Shandy – ou não fosse ele um leitor insaciável – do outro lado, no Quadros, não sabemos que referências intuir para além do bom e selvático vale tudo para chocar. O humor, como Goffman ele próprio intuiu, sustenta-se no medo do ridículo. Ridicularizar é a palavra. Podemos então dizer que se um, o RAP, ridiculariza em abstracto, o outro, o Quadros, ridiculariza o concreto. Actualmente, com todas as efabulações do concreto, as espirais ilusórias que sobre ele se abatem – sobretudo fabricadas pelos media – é bom atacá-lo no seu âmago: o senso comum de que se revestem as múltiplas ilusões.

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