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Putas e vinho verde

Março 22, 2017

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A boutade de Dijsselbloem sobre os países do norte terem que pagar para os desmandos dos  países do sul, porque os últimos gastavam tudo “em mulheres e álcool” é desconfortavelmente reveladora do que se tornou a Europa. Também aqui a esquerda relapsa faz uma análise apresada e recorre aos mesmos tropos da austeridade e da traição à social-democracia. Mas eu gostava de pessoalizar a análise. Ou seja, perceber que a Europa é regida por homens e mulheres e que esses homens e mulheres fazem parte de uma elite que se coloca à parte dessa mesma Europa. Antes porém alguma reflexão sobre o trabalho de exegese que as declarações do presidente do eurogrupo têm sido objecto.

Por exemplo, o Expresso. No pressuposto de que a notícia salienta um aspecto das afirmações que quando lidas no original é mitigado, o jornal sublinha que Dijsselbloem estava a utilizar uma metáfora aplicada a ele próprio: “Eu não posso gastar o dinheiro todo em mulheres e aguardente e em seguida pedir a sua ajuda”. O título do artigo, o que disse realmente Dijsselbloem, implica que a frase tenha sido citada fora de contexto. E no entanto, embora me pareça excessivo o tom condenatório geral, e seja verdade que Dijsselbloem não disse directamente que os países do sul andaram nas putas e vinho verde, o que ele diz não deixa de ser uma variação do coelhismo “vivemos acima das nossas possibilidades”. A primeira, para sermos correctos, tem uns laivos da retórica dos pigs e a ser verdade o que dizia Freud sobre actos falhados, o homem desejaria ardentendemente que a sua vida fosse mulheres e bebida. O regresso do recalcado na frase de Dijsselbloem poderia apenas significar o desejo inconsciente de mandar a sua vida chata no eurogrupo para o caraças e abraçar uma vida de dissolução de viagens diárias ao red light de Amesterdão. Ou podia ser que apenas estivesse lixado com o péssimo resultado do seu partido nas últimas eleições holandesas e que o facto de o seu lugar se ter tornado periclitante lhe causasse ansiedade. De tal forma que precipitou as coisas e parece que de periclitante o seu lugar passou mesmo a estar em causa mediante tão extemporâneas afirmações.

Mas vejamos isto pelo lugar das elites na actual conjuntura europeia. É preciso regressar ao “vivemos acima das nossas possibilidades” do coelhismo de má memória para percebermos um ethos partilhado por estes meninos. Um ethos que fala a linguagem do castigo e da recompensa. Aqui podemos perceber que enquanto há um total laxismo relativamente às grandes fortunas, como foi o caso português e o seu agente de liaison Paulo Núncio; há, pelo contrário, uma extrema severidade – moralista obviamente – em relação aos de menos posses. A Holanda é um caso paradigmático de larguezas em matéria de fuga aos impostos, de falta de controlo, de assobiar para o lado, e até de criações propícias a que se afirme como paraíso fiscal europeu. Não espanta por isso que de um holandês como Dijsselbloem pudesse vir o mesmo olhar severamente moralista enquanto pisca o olho aos possidentes. A analogia dos copos e vinho, entendamo-nos, é prenhe de duplos significados e não é necessário recorrer a Freud, como ainda agora fiz, para perceber que o raciocínio é sempre o mesmo: quem anda a calaceirar – na perspectiva desta retórica, obviamente – merece sofrer.

Todo uma axiomática leviana ajustada ao neoliberalismo conservador que assiste as instituições actuais e as pessoas que as dominam se esparrama nestes dichotes. A justiça do ganho do rico e do sofrimento do pobre, como se da ordem natural das coisas se tratasse; a culpa sobre o pobre que não soube aproveitar para ser rico por demérito próprio; o comportamento perdulário que leva à pobreza por oposição à contenção racional que leva à riqueza. Este considerando é, claro está, de uma falsidade atroz. Os comportamentos perdulários, dissipadores e irresponsáveis são marcas dos ricos e não dos pobres – pela simples razão que os últimos mesmo que os quisessem ter não podiam.

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