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Os bárbaros no interior das muralhas

Março 16, 2017

(imagem retirada do The Economist)

E a Europa lá respirou de alívio uma vez mais. Primeiro foi o imenso susto pregado pela Áustria. Esse lá passou sem maiores estragos. Agora a tremideira política causado pela Holanda e a ascensão de Geert Wilders. Podemos ficar contentes porque os liberais conservadores se aguentaram no poder. Mas Wilders tem um aumento notável – salta de 9 para 19 lugares no Parlamento – e ganha Roterdão por uma margem confortável, a segunda maior cidade holandesa, consolidando o reinado do PVV que detinha desde 2010. Por conseguinte não há motivo para respirar de alívio. Trata-se de uma tendência inexorável que mais cedo trará os seus azedos resultados.

Ainda ontem um renomado sociólogo português repetia na televisão a tese do esboroamento do centro ser decorrente do seu apoio às políticas de austeridade. A tese é falsa como por diversas vezes mostrei neste blog. Mas a contumácia com que a esquerda recita este mantra é exasperante. A revolução patriótica, como lhe chamou Wilders, parece ser um motivo mais consequente do que o imaginário da esquerda de gente vergada pela austeridade em voto de protesto. Até porque, como por aqui também já assinalei, não são os prejudicados pela austeridade que estão a votar massivamente na extrema-direita. É uma média e pequena burguesia, sobretudo rural ou de agregados urbanos menores, contra uma população cosmopolita habitante das “capitais” que resiste estoicamente a esta maré. Assim Amesterdão contra Roterdão na Holanda, ou Viena contra Graz na Áustria. Até ao momento afiguram-se ser as “capitais” a segurar as pontas deste frágil equilíbrio.

Todavia, parecemos condenados a vaticinar o fim dos tempos cada vez que há eleições na Europa civilizada. E digo civilizada, porque o lado leste há muito que foi perdido para os bárbaros. De tal forma que o desassossego provocado pelas radicais incursões da extrema-direita no jogo parlamentar rotineiro não tem equivalente quando se trata da extrema-direita que se encontra no poder e que domina o jogo. Esse é para todos os efeitos o caso da Hungria, da Polónia e numa certa medida da República Checa. Que a extrema-direita tenha acampado nas instituições nesses países apoderando-se da governança mostra bem como as hipóteses mais terríficas que possam ser fabricadas para este lado da Europa podem de facto realizar-se. Wilders ficou em segundo lugar na Holanda e por mais que os outros meninos não queiram brincar com ele, não vão poder ignorar um partido que arrecadou 19 lugares parlamentares. Quando o grande vencedor conseguiu 32 desses lugares percebemos que a extrema-direita já se encontra no poder e que não há qualquer motivo para respirarmos de alívio.

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