Putas e vinho verde

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A boutade de Dijsselbloem sobre os países do norte terem que pagar para os desmandos dos  países do sul, porque os últimos gastavam tudo “em mulheres e álcool” é desconfortavelmente reveladora do que se tornou a Europa. Também aqui a esquerda relapsa faz uma análise apresada e recorre aos mesmos tropos da austeridade e da traição à social-democracia. Mas eu gostava de pessoalizar a análise. Ou seja, perceber que a Europa é regida por homens e mulheres e que esses homens e mulheres fazem parte de uma elite que se coloca à parte dessa mesma Europa. Antes porém alguma reflexão sobre o trabalho de exegese que as declarações do presidente do eurogrupo têm sido objecto.

Por exemplo, o Expresso. No pressuposto de que a notícia salienta um aspecto das afirmações que quando lidas no original é mitigado, o jornal sublinha que Dijsselbloem estava a utilizar uma metáfora aplicada a ele próprio: “Eu não posso gastar o dinheiro todo em mulheres e aguardente e em seguida pedir a sua ajuda”. O título do artigo, o que disse realmente Dijsselbloem, implica que a frase tenha sido citada fora de contexto. E no entanto, embora me pareça excessivo o tom condenatório geral, e seja verdade que Dijsselbloem não disse directamente que os países do sul andaram nas putas e vinho verde, o que ele diz não deixa de ser uma variação do coelhismo “vivemos acima das nossas possibilidades”. A primeira, para sermos correctos, tem uns laivos da retórica dos pigs e a ser verdade o que dizia Freud sobre actos falhados, o homem desejaria ardentendemente que a sua vida fosse mulheres e bebida. O regresso do recalcado na frase de Dijsselbloem poderia apenas significar o desejo inconsciente de mandar a sua vida chata no eurogrupo para o caraças e abraçar uma vida de dissolução de viagens diárias ao red light de Amesterdão. Ou podia ser que apenas estivesse lixado com o péssimo resultado do seu partido nas últimas eleições holandesas e que o facto de o seu lugar se ter tornado periclitante lhe causasse ansiedade. De tal forma que precipitou as coisas e parece que de periclitante o seu lugar passou mesmo a estar em causa mediante tão extemporâneas afirmações.

Mas vejamos isto pelo lugar das elites na actual conjuntura europeia. É preciso regressar ao “vivemos acima das nossas possibilidades” do coelhismo de má memória para percebermos um ethos partilhado por estes meninos. Um ethos que fala a linguagem do castigo e da recompensa. Aqui podemos perceber que enquanto há um total laxismo relativamente às grandes fortunas, como foi o caso português e o seu agente de liaison Paulo Núncio; há, pelo contrário, uma extrema severidade – moralista obviamente – em relação aos de menos posses. A Holanda é um caso paradigmático de larguezas em matéria de fuga aos impostos, de falta de controlo, de assobiar para o lado, e até de criações propícias a que se afirme como paraíso fiscal europeu. Não espanta por isso que de um holandês como Dijsselbloem pudesse vir o mesmo olhar severamente moralista enquanto pisca o olho aos possidentes. A analogia dos copos e vinho, entendamo-nos, é prenhe de duplos significados e não é necessário recorrer a Freud, como ainda agora fiz, para perceber que o raciocínio é sempre o mesmo: quem anda a calaceirar – na perspectiva desta retórica, obviamente – merece sofrer.

Todo uma axiomática leviana ajustada ao neoliberalismo conservador que assiste as instituições actuais e as pessoas que as dominam se esparrama nestes dichotes. A justiça do ganho do rico e do sofrimento do pobre, como se da ordem natural das coisas se tratasse; a culpa sobre o pobre que não soube aproveitar para ser rico por demérito próprio; o comportamento perdulário que leva à pobreza por oposição à contenção racional que leva à riqueza. Este considerando é, claro está, de uma falsidade atroz. Os comportamentos perdulários, dissipadores e irresponsáveis são marcas dos ricos e não dos pobres – pela simples razão que os últimos mesmo que os quisessem ter não podiam.

O Véu, esse objecto incómodo.

Composite image of Muslim women wearing headscarves

Da esquerda para a direita: o hijab, a burqa e o niqab

Surgiu com grande aparato a decisão do Tribunal Europeu de Justiça de conceder margem de liberdade às empresas que desejem proibir o véu ou outros símbolos religiosos. Num dos telejornais nacionais a notícia até vinha enunciada como “proibição do véu” em grandes parragonas na caixa inferior. A história das sucessivas limitações do uso do véu e dos tipos deste é ampla na Europa; por isso dificilmente se justifica o espalhafato pela recente decisão do TEU. Tem exemplos emblemáticos no affaire foulard em França, em 1989, com a proibição de símbolos religiosos em escolas públicas. Na Alemanha com a proibição dos professores usarem símbolos religiosos – com isenção para os católicos – em certos Lander, em 2004 e 2005. Na Holanda, em 2015, com a proibição do uso do véu nos espaços e transportes públicos. Na Inglaterra com as controvérsias em torno do niqab e as limitações ao seu uso em instituições públicas. E mais recentemente, na Áustria com a proibição da burqa e niqab em escolas e tribunais, e em França com a proibição do burkini. Um historial significativo, portanto.

Não devemos ver por conseguinte a decisão do TEU como uma ruptura numa tendência (que nunca existiu) mais permissiva, mas antes como a continuidade de um processo que se tornou irreversível.

Hoje é evidente que quando se fala de problemas com o multiculturalismo está-se a referir os muçulmanos. O Islão é o problema identitário europeu, havendo ou não razão para o considerar como tal. Luckmann e Berger afirmaram em tempos que certos grupos legitimavam os universos simbólicos dos quais se tornavam zeladores, e se neles acreditavam ou não, era irrelevante. O mesmo pode ser dito de todas as tentativas de provar que o islão não constitui ameaça à identidade europeia: se é ou não verdade tornou-se irrelevante.

Sou daqueles que considera que a proibição de modalidades do véu como o niqab e a burqa são não apenas inevitáveis, como indispensáveis. A discussão sobre a imposição das crenças e culturas da maioria sobre a minoria não resiste, a meu ver, ao julgamento sereno relativo ao lugar da mulher no islão. Esse lugar deve sofrer transformações, e se tais mudanças só ocorrerem através das limitações de alguns dos seus usos e costumes então que seja. Não se pode defender a paridade feminina e depois continuar a olhar placidamente para mulheres islâmicas de cara tapada argumentando a relatividade dos padrões culturais. Mas também é preciso dizer que a medida deve ela própria ser paritária, ou seja, abranger todas as confissões religiosas. A proibição francesa de todo e qualquer símbolo religioso na sala de aulas faz sentido, e foi apoiada pelo tribunal europeu dos direito do homem. O problema é que nunca ninguém definiu se levar uma cruz pendurada ao pescoço colide com esta norma. O problema é que proibir crucifixos na sala de aula não é equivalente a proibir o véu ou a quipa judaica. Com efeito, o equivalente seria proibir crucifixos ao pescoço dos alunos. Não consta que a medida alguma vez tenha assumida estas proporções. Contudo, num exercício de relativismo social não é complicado concluir que é justamente esse o sentimento que uma tal medida implica na comunidade islâmica: o mesmo que se proibissem as pessoas de usar aqueles fios piedosos com o crucifixo pendurado. São formas de visibilizar a crença religiosa que em substância possuem a mesma natureza. Podemos sempre dizer que um artefacto atenta contra a liberdade feminina e a outra não. No que eu estaria fundamentalmente de acordo, não se desse o caso dessa raramente ser a justificação. A justificação tem sido quase sempre alicerçada no pressuposto de uma colisão entre o secularismo das instituições e os hábitos religiosos privados. Nas suas diversas formulações – seja porque coloca em risco a segurança pública seja porque desafia a laicidade das organizações – é esta a equação que se encontra em causa. Não se afigura o terreno certo para debater o assunto.

Como há muito viu a associação francesa Ni Pute ni Submisse, o terreno certo para esgrimir argumentos é o da liberdade da mulher. E aqui terão que ser chamados à colação todos os grupos religiosos. Porventura é porque uma tal ordem de ideias teria uma repercussão bem maior do que o acantonamento no islão a que geralmente a discussão se sujeita que esta tem sempre sido atirada para o campo da segurança ou da laicidade. Desde logo, os judeus teriam que ser confrontados com as suas práticas em matéria de divisão sexual, os hindus igualmente, e porque não os católicos, cujo papel da mulher, embora o mais emancipado (não vale a pena tapar o sol com a peneira), continua a ser objecto de manipulações grosseiras de cariz teológico. Eva nas três religiões do Livro é ainda assim o receptáculo da perversa ideologia masculina de culpabilização da mulher. Por isso quando a questão do lugar da mulher no Islão é levantada tendo por pano de fundo uma ideia de fanatismo ali colada, é bom lembrar que a subjugação da mulher está muitíssimo presente no judaísmo ortodoxo com marcadas implicações quanto ao papel desta na ordem sexual e laboral. Tal, como é evidente, não desculpabiliza o uso da burqa e do niqab; mas relativiza o foco de atenção sobre as práticas do islão.

Os bárbaros no interior das muralhas

(imagem retirada do The Economist)

E a Europa lá respirou de alívio uma vez mais. Primeiro foi o imenso susto pregado pela Áustria. Esse lá passou sem maiores estragos. Agora a tremideira política causado pela Holanda e a ascensão de Geert Wilders. Podemos ficar contentes porque os liberais conservadores se aguentaram no poder. Mas Wilders tem um aumento notável – salta de 9 para 19 lugares no Parlamento – e ganha Roterdão por uma margem confortável, a segunda maior cidade holandesa, consolidando o reinado do PVV que detinha desde 2010. Por conseguinte não há motivo para respirar de alívio. Trata-se de uma tendência inexorável que mais cedo trará os seus azedos resultados.

Ainda ontem um renomado sociólogo português repetia na televisão a tese do esboroamento do centro ser decorrente do seu apoio às políticas de austeridade. A tese é falsa como por diversas vezes mostrei neste blog. Mas a contumácia com que a esquerda recita este mantra é exasperante. A revolução patriótica, como lhe chamou Wilders, parece ser um motivo mais consequente do que o imaginário da esquerda de gente vergada pela austeridade em voto de protesto. Até porque, como por aqui também já assinalei, não são os prejudicados pela austeridade que estão a votar massivamente na extrema-direita. É uma média e pequena burguesia, sobretudo rural ou de agregados urbanos menores, contra uma população cosmopolita habitante das “capitais” que resiste estoicamente a esta maré. Assim Amesterdão contra Roterdão na Holanda, ou Viena contra Graz na Áustria. Até ao momento afiguram-se ser as “capitais” a segurar as pontas deste frágil equilíbrio.

Todavia, parecemos condenados a vaticinar o fim dos tempos cada vez que há eleições na Europa civilizada. E digo civilizada, porque o lado leste há muito que foi perdido para os bárbaros. De tal forma que o desassossego provocado pelas radicais incursões da extrema-direita no jogo parlamentar rotineiro não tem equivalente quando se trata da extrema-direita que se encontra no poder e que domina o jogo. Esse é para todos os efeitos o caso da Hungria, da Polónia e numa certa medida da República Checa. Que a extrema-direita tenha acampado nas instituições nesses países apoderando-se da governança mostra bem como as hipóteses mais terríficas que possam ser fabricadas para este lado da Europa podem de facto realizar-se. Wilders ficou em segundo lugar na Holanda e por mais que os outros meninos não queiram brincar com ele, não vão poder ignorar um partido que arrecadou 19 lugares parlamentares. Quando o grande vencedor conseguiu 32 desses lugares percebemos que a extrema-direita já se encontra no poder e que não há qualquer motivo para respirarmos de alívio.

Pós-verdade

PictureNick Dong, Retirado de ICA San Jose Institute of Contemporary Art

Não tenho a certeza donde surgiu a expressão pós-verdade, mas o que parece plausível concluir é que ela implica um determinado grau de transparência anterior. Esta pressuposta transparência é em si mesmo um efeito da dita pós-verdade na medida em que esta é falsa. Um regime pós qualquer coisa – tal como pós-modernidade – estabelece uma relação de superação com o substantivo. A superação da modernidade contida na ideia de pós-modernidade, do comunismo na noção de pós-comunismo, e assim sucessivamente. Pós-verdade assume a superação de uma época em que a verdade fosse o seu elemento estruturante. Essa época nunca aconteceu. Por isso de onde retira a sua autoridade a expressão pós-verdade?

A pós-verdade começou com o advento da publicidade. Melhor, intensificou-se, visto que sempre houve formações ideológicas devedoras dessa mesma lógica. Mas a publicidade é o ápice da pós-verdade. A publicidade transforma o exercício da verdade e do contraditório numa mascarada. Nada na publicidade é verdade, e no entanto tudo deve ser assumido como sendo. Se alguma coisa, a linguagem política foi aprofundando a mesma mecânica da publicidade. Foi-lhe copiando os meios e os tiques. E assim se chega a Trump, por exemplo. Mas este não é o advento da pós-verdade, nem sequer a sua expressão mais acabada. É apenas uma das suas instâncias mais perigosas.

Agora bem, vivemos imersos na linguagem publicitária. De tal forma que dificilmente distinguimos o que é afectividade gerada pela publicidade do que é afectividade real, ou seja, afectividade que não seja mediada por imagens carregadas de estímulos hedonistas. A forma como nos ligamos aos objectos não pode mais ser pensada sem a constante presença da publicidade, e os quadros cognitivos que a formatam têm vindo gradualmente a ser aplicados nas pessoas.  Viveríamos, por conseguinte, imersos em pós-verdade, caso tivéssemos alguns vez vivido imersos em verdade. Dos tempos do cristianismo onde o Verbo era a verdade, passou-se rapidamente para a imposição do verbo como verdade. E nesse sentido a nossa relação com a verdade sempre foi traumática, ou seja, revivida entre o desejo e o pesadelo.

Em suma, a expressão pós-verdade é inconsequente. Não apenas a verdade nunca surgiu na sua inteireza como sempre teve sujeita a regimes determinados (pace Foucault). Coisas como a identidade entre objectividade e neutralidade, cara à ciência moderna, são já elas próprias emanações da pós-verdade, porque pressupõem a impossibilidade da descoincidência entre protocolos e objectos – a subjectivação dos argumentos e conclusões.

Na realidade, a actual retórica da pós-verdade tem por implicação a perniciosa noção de que há uma forma objectiva de a ela chegar. É precisamente neste sentido que ela é um exercício retórico, assente na capacidade de nos persuadirem que a comunicação pode ser um meio sem filtros, de objectividade inatacável, basta para isso seguir os protocolos comportamentais adequados. Portanto, é uma defesa da classe jornalística, de comunicadores, que na senda da sua própria unção pretendem convencer-nos que através dela a verdade é-nos devolvida pura, cristalina, inatacável. Os defeitos passam a ser extraídos de uma avaliação, de uma qualificação, do trabalho de comunicação: o mau trabalho distorce a verdade. Como se esta estivesse ali, pronta a ser contemplada, na medida necessária do bom uso dos instrumentos que a captam. Termo conveniente, a pós-verdade. Conveniente porque abafa a terrível constatação de que a verdade é construída. E nunca é demais gritá-lo: se a mentira é assumidamente construída, sublinhe-se que a verdade também o é!