Skip to content

It was always never ment to be

Fevereiro 27, 2017

Image result for moonlight

Os dois filmes que foram campeões dos óscares podem declinar-se da seguinte maneira: it was never ment to be/it was always ment to be. O primeiro corresponde a La La Land; o segundo a Moonlight. Duas histórias de amor, ambas com um rasto de melodramatismo de outros tempos; ambas com referências a um outro cinema, um cinema com traços clássicos que dificilmente já se encontra na central de produção de Hollywood. La La Land é a história de um desencontro amoroso, um enredo que estava fadado a acabar mal – um descaso que dificilmente resultaria. Ou melhor, que tinha tudo para acontecer, e fosse há cinquenta anos atrás, com certeza que aconteceria, mas que numa certa visão oblíqua faz lembrar o Some come running de Minnelli: um par que não era ment to be, e acaba por nunca vir a ser. Talvez o mais interessante do filme seja o seu namoro com um cinema clássico norte-americano, injectando-o sempre de formas novas e actuais, tal como a cena no planetário reencenando o par James Dean e Natalie Wood, mas desta feita com cores de Fred Astaire e Ginger Rogers. E convenhamos, Gosling e Stone não são grande bailarinos, bem longe dos pares clássicos dos musicais, como Astaire ou Kelly, e no entanto essa versão meio tosca dos passos de dança dos dois protagonistas cai bem na era dos facebooks, da vida tal como ela é, da naturalidade do corpo e da exposição.

São, num certo sentido, dois filmes puros. Moonlight, o grande vencedor da noite, é um exercício de contenção estilística. Poder-se-ia imaginar tantas maneiras de modificar o filme, estragando-o, que o mérito do realizador está praticamente na depuração do seu estilo cinemático. Desde a contenção na violência, passando pelo apenas sugerido do sexo, qualquer outro filme sobre negros e bairros degradados norte-americanos resvalaria facilmente para os clichés e obrigatoriedades que a necessidade pictográfica deste tipo de filmes costuma exigir. Em nenhum destes exageros cai Barry Jenkins. Por isso o filme é extremamente humano, apetece dizer. E se bem que se possam elevar as vozes do inconformismo estético ou do pós-modernismo estilístico contra a própria ideia de filme humano – com arrepios na espinha e esgares de horror e rejeição – não deixa por isso de o ser justificadamente e sem pedir perdão: muitíssimo humano. E é também nesse sentido que ele recupera os grandes planos, lentos e evocativos de um cinema mais demorado, onde as cenas não se sucediam com a vertigem da espectacularidade. Há também, para ser justo, uma certa contenção em La La Land. Da mesma forma poderíamos imaginar mil maneiras de infundir uma espectacularidade desenfreada no filme. Mas ele recusa-a. Também porque o seu fulcro é uma história de amor, onde os dois protagonistas se tornam o mais importante, e onde são eles que ocupam o ecran. Não tem nenhuma cena que fique na retina, nenhuma cena que se torne um clássico. Porque não pretende ter. Filmes sobre pessoas para pessoas – perdoe-se a frase feita -, mas há algo de um novo humanismo que espreita neste cinema.

E bem, it was never ment to be/ it was always ment to be, duas versões da vida e das relações humanas, ambas tingidas com a inevitabilidade das coisas certas. Em Moonlight o amor vence, em La La Land o amor perde. Quase que apetece dizer com Stendhal: o amor é o milagre da civilização.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: