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Vergonha

Fevereiro 1, 2017

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Terá um historiador maior obrigação ética de ser fiel aos factos? É longa a discussão de natureza epistemológica que questiona a realidade dos factos – haverá factos, ou serão construções? Haverá alguma objectividade no trabalho do historiador que não seja imediatamente contaminada pela sua relação – subjectiva – com os pressupostos factos? E qual a influência do exercício de selecção que qualquer história obriga a fazer? Mesmo aquela que é relatada nas circunstâncias mais quotidianas; ou seja, o contar de histórias, ou de estórias, sem a pulsão para a a atenção correctiva ou para a vigilância linguística dentro das imposições, mais ou menos rígidas, do discurso científico? Mesmo essas são resultados de selecções. Mas este texto não é sobre questões epistemológicas que, mal ou bem, têm atormentado historiadores e afins ao longo dos tempos.

É sobre um historiador em particular e sobre a sua duvidosa ética de historiador. Rui Ramos, num acesso de má-fé pouco admissível num historiador com o seu reconhecimento, ensaiou comparar a actuação de Trump a Tsipras e mais largamente ao Syriza. Postulava na sua crónica semanal que ambos seriam exemplos de populismo e que ambos foram (ou seriam, no caso de Trump) vergados pelo ambiente institucional e a colecção de direitos e grupos de pressão que envolvem o exercício da governação. Esta comparação a todos os títulos cínica e despudorada encobre duas coisas.

Primeiro, a direita mais conservadora adquiriu um hábito recente de taxar Trump de populista. Note-se a cautela em assentar certas premissas num descomprometimento que evite uma identificação demasiado directa com “aquilo”. A dificuldade em nomear objectivamente o fascismo ou acto ditatorial decorre de um desconforto identificatório. Afinal “aquilo” é o que muitos destes opinadores e teóricos sustentam em segredo, mas que no actual estado das coisas éticas têm dificuldade em assumir publicamente. Rui Ramos necessita da comparação disparatada com Tsipras não para nos esclarecer, mas para esclarecer a sua posição: um comprometimento que tem que aparecer como descomprometido. O raciocínio instala-se numa casuística escorreita e tem um pendor maniqueísta que cai mal a um historiador. A casuística? Formula-se assim: se eu mostrar que ambos os extremos do espectro político partilham de convicções e actos semelhantes – sobretudo em substância – então a minha identificação com um dos extremos fica resguardada da crítica. A direita conservadora donde Rui Ramos é proveniente não quer admitir abertamente que entre Trump e Hillary (e já agora Obama) escolheriam Trump. É facto que os tiques abrutalhados de pato bravo de Trump colocam a elite bem-pensante, mesmo de direita, a uma certa distância. Mas o espírito é comungado, na medida em que certas reservas sobre a “cultura da esquerda” ainda assim predominam.

Segundo aspecto, Tsipras pode ser muita coisa, mas não retirou liberdades e garantias a ninguém, nem fez selecções perversas com base em categorias sociais determinadas. Os atributos e acções ditatoriais de Trump não têm comparação nas técnicas de arregimentação do Syriza. Para mais tendo em conta que este, pela voz de Tsipras ousou afrontar os poderosos – a europa e as suas instituições – enquanto Trump, como todos os ditadores, serve os poderosos contra os mais fracos. Os populismos não se equivalem para além de qualquer substância: essa é uma armadilha da intelectualidade de direita. Assim como o populismo de Obama não se encontra sequer no mesmo registo ético do de Trump. Porque se poderia dizer que Obama soube gerir eficazmente formas novas de populismo, naquilo que poderíamos designar como um populismo de esquerda. Se se quiserem critérios de destrinça no que ao primeiro assiste como um populismo agregador, integrador, redistributivo de bens económicos e simbólicos, persiste no segundo como um populismo culpabilizador, fracturante, violento e desagregador. Por aqui nos poderia igualmente servir a comparação entre Tsipras e Trump.

Terceiro aspecto, há uma convicção que dir-se-ia ingénua no poder do sistema de checks and balances dos USA. Esta convicção não é nunca cotejada com a história, e os exemplos contrários à sua eficácia abundam. Na realidade, o panorama político actual norte-americano é efectivamente expressão da possibilidade de sabotagem desse mesmo sistema; sobretudo quando aqueles a quem incumbe por ele zelarem – congresso, senado e presidência – estão apostados em o imobilizar, ou melhor, manipular. A força da sociedade civil foi frequentes vezes esmagada sob o poder dos estados autoritários – é a história da América Latina. Achar que os USA possuem uma espécie de excepcionalismo nesta matéria é boa conversa para consumo interno – para alimentar fascínios avulsos com o que significa ser americano – mas colide contra avaliações serenas dos acontecimentos. O tão elogiado sistema de checks and balances foi o que viu nascer no seu seio uma comissão de actividades anti-americanas, o patriot act, a defesa da tortura (agora de regresso), a congeminação de uma guerra (entre outras) à revelia desses mesmos poderes de checks and balances.

Vale a pena regressar ao Plot against America de Philip Roth. Através do contrafactual Roth mostra como poderíamos ter tido uma América diferente apenas e só graças a um resultado eleitoral: se Lindbergh, o conservador republicano com simpatias nazis tivesse ganho as eleições a Roosevelt. Os paralelos não são desprovidos de sentido. Também temos um conservador republicano com simpatias czaristas por Putin. E não me parece que o despedimento imediato da procuradora geral norte-americana apenas porque esta levantou dúvidas sobre as proibições das nacionalidades imigrantes que Trump decretou evidencie muita boa saúde do sistema de checks and balances.

Em suma, Rui Ramos faria bem em não manipular os acontecimentos históricos e não enveredar por comparações absurdas e implausíveis entre Trump e Tsipras. Não o mostra a uma boa luz. Qualquer dia temos Rui Ramos a justificar Marine Le Pen com o populismo de Lula da Silva.

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