It was always never ment to be

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Os dois filmes que foram campeões dos óscares podem declinar-se da seguinte maneira: it was never ment to be/it was always ment to be. O primeiro corresponde a La La Land; o segundo a Moonlight. Duas histórias de amor, ambas com um rasto de melodramatismo de outros tempos; ambas com referências a um outro cinema, um cinema com traços clássicos que dificilmente já se encontra na central de produção de Hollywood. La La Land é a história de um desencontro amoroso, um enredo que estava fadado a acabar mal – um descaso que dificilmente resultaria. Ou melhor, que tinha tudo para acontecer, e fosse há cinquenta anos atrás, com certeza que aconteceria, mas que numa certa visão oblíqua faz lembrar o Some come running de Minnelli: um par que não era ment to be, e acaba por nunca vir a ser. Talvez o mais interessante do filme seja o seu namoro com um cinema clássico norte-americano, injectando-o sempre de formas novas e actuais, tal como a cena no planetário reencenando o par James Dean e Natalie Wood, mas desta feita com cores de Fred Astaire e Ginger Rogers. E convenhamos, Gosling e Stone não são grande bailarinos, bem longe dos pares clássicos dos musicais, como Astaire ou Kelly, e no entanto essa versão meio tosca dos passos de dança dos dois protagonistas cai bem na era dos facebooks, da vida tal como ela é, da naturalidade do corpo e da exposição.

São, num certo sentido, dois filmes puros. Moonlight, o grande vencedor da noite, é um exercício de contenção estilística. Poder-se-ia imaginar tantas maneiras de modificar o filme, estragando-o, que o mérito do realizador está praticamente na depuração do seu estilo cinemático. Desde a contenção na violência, passando pelo apenas sugerido do sexo, qualquer outro filme sobre negros e bairros degradados norte-americanos resvalaria facilmente para os clichés e obrigatoriedades que a necessidade pictográfica deste tipo de filmes costuma exigir. Em nenhum destes exageros cai Barry Jenkins. Por isso o filme é extremamente humano, apetece dizer. E se bem que se possam elevar as vozes do inconformismo estético ou do pós-modernismo estilístico contra a própria ideia de filme humano – com arrepios na espinha e esgares de horror e rejeição – não deixa por isso de o ser justificadamente e sem pedir perdão: muitíssimo humano. E é também nesse sentido que ele recupera os grandes planos, lentos e evocativos de um cinema mais demorado, onde as cenas não se sucediam com a vertigem da espectacularidade. Há também, para ser justo, uma certa contenção em La La Land. Da mesma forma poderíamos imaginar mil maneiras de infundir uma espectacularidade desenfreada no filme. Mas ele recusa-a. Também porque o seu fulcro é uma história de amor, onde os dois protagonistas se tornam o mais importante, e onde são eles que ocupam o ecran. Não tem nenhuma cena que fique na retina, nenhuma cena que se torne um clássico. Porque não pretende ter. Filmes sobre pessoas para pessoas – perdoe-se a frase feita -, mas há algo de um novo humanismo que espreita neste cinema.

E bem, it was never ment to be/ it was always ment to be, duas versões da vida e das relações humanas, ambas tingidas com a inevitabilidade das coisas certas. Em Moonlight o amor vence, em La La Land o amor perde. Quase que apetece dizer com Stendhal: o amor é o milagre da civilização.

Marcelo – o improvável coveiro da direita

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Uma das coisas mais fascinantes da política nacional actual é observar como o Presidente da Repúblico Marcelo Rebelo de Sousa baralhou o equilíbrio tradicional de forças que dava conteúdo a expressões popularuchas tais como “não pôr os ovos todos no mesmo cesto” e quejandas. Se por distribuir ovos por cestos diferentes entendíamos pôr um dos lados do espectro político no governo deixando sempre o presidente como contrapeso das larguezas a que o executivo se poderia dar – forma irracional de gerir a res publica e cinicamente modelar do poder do povo – Marcelo veio baralhar as contas. Posto que Marcelo, um presidente eleito maioritariamente pela direita, se transformou no presidente deste governo. Muitas foram as apostas, como nas corridas de cavalos, que colocavam avultadas quantias na eleição de um presidente da direita para fazer empenar a geringonça. Mas, para surpresa de todos, não somente não a faz empenar, como lhe tem dado o alento necessário em períodos de avaria iminente. Marcelo tem sido justo, em minha opinião. Mas para além disso inaugura uma forma de política directamente personalizável que não apenas assenta na sua capacidade muito particular de gerar afectos com os seus constituintes, como em laços directos de preferência amical com o membro máximo do governo. E isto tem resultado.

O problema é que terreno deixa à direita para gerir a sua estratégia? Neste momento, a direita deixou de ter candidato presidencial. Qualquer um que apresente contra Marcelo perde certamente. Porém, a estratégia de terra queimada que tanto PSD como CDS têm vindo a colocar em prática não permite endossar a enfatuation de Marcelo pela geringonça. É um dilema tramado. E nele reside o desespero suicida em que a direita se alavancou para mostrar a sua presença na sociedade portuguesa. As sondagens mostram que quanto mais Passos espalha os seus maus fígados por aí, menos aceitação tem. Por exemplo, as pessoas não percebem com que outra intenção, para além da de instrumentalizar o poder a seu favor, persegue a direita um ministro das finanças que atingiu o menor défice de sempre em democracia e deu juros negativos nos empréstimos estatais. Querer derrubar um ministro assim, é o mesmo que querer derrubar o papa actual só porque ele coçou os testículos na missa. Mesmo que a direita quisesse recorrer para o presidente, este estaria indisposto. Alguém duvida que se lá tivesse Cavaco outro galo cantaria?

O que torna a direita de Passos – sobretudo esta – antagonista de Marcelo. Isso é uma posição insustentável para o PSD pelas próprias leis de disseminação do carisma. Como ficar contra o representante mais amado da república portuguesa sem concitar a raiva dos seus seguidores? E como tentar partilhar parte do carisma que este vai aspergindo por aí sem ceder a dar apoio a Costa e à sua geringonça? É cruel para uma direita que governou com um seu cacique durante quatro anos perder agora a sua vantagem com alguém saído do seu seio. É cruel e é um jogo que esta direita não estava habituada a jogar. Por isso passou a jogar sujo. Não há no actual panorama político nenhum acto da direita portuguesa que não esteja encharcado de rancor e revanchismo. Tornaram-se um bando de rancorosos sem ideias nem soluções – um bando de ressentidos. Cuidado, no entanto, porque Marcelo, que é justo, afastar-se-á tanto mais quanto vir que da sua direita só ressentimento é oferecido. E tanto mais ficará esta sem presidente nem possibilidade de fazer novamente o pleno.

Vergonha

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Terá um historiador maior obrigação ética de ser fiel aos factos? É longa a discussão de natureza epistemológica que questiona a realidade dos factos – haverá factos, ou serão construções? Haverá alguma objectividade no trabalho do historiador que não seja imediatamente contaminada pela sua relação – subjectiva – com os pressupostos factos? E qual a influência do exercício de selecção que qualquer história obriga a fazer? Mesmo aquela que é relatada nas circunstâncias mais quotidianas; ou seja, o contar de histórias, ou de estórias, sem a pulsão para a a atenção correctiva ou para a vigilância linguística dentro das imposições, mais ou menos rígidas, do discurso científico? Mesmo essas são resultados de selecções. Mas este texto não é sobre questões epistemológicas que, mal ou bem, têm atormentado historiadores e afins ao longo dos tempos.

É sobre um historiador em particular e sobre a sua duvidosa ética de historiador. Rui Ramos, num acesso de má-fé pouco admissível num historiador com o seu reconhecimento, ensaiou comparar a actuação de Trump a Tsipras e mais largamente ao Syriza. Postulava na sua crónica semanal que ambos seriam exemplos de populismo e que ambos foram (ou seriam, no caso de Trump) vergados pelo ambiente institucional e a colecção de direitos e grupos de pressão que envolvem o exercício da governação. Esta comparação a todos os títulos cínica e despudorada encobre duas coisas.

Primeiro, a direita mais conservadora adquiriu um hábito recente de taxar Trump de populista. Note-se a cautela em assentar certas premissas num descomprometimento que evite uma identificação demasiado directa com “aquilo”. A dificuldade em nomear objectivamente o fascismo ou acto ditatorial decorre de um desconforto identificatório. Afinal “aquilo” é o que muitos destes opinadores e teóricos sustentam em segredo, mas que no actual estado das coisas éticas têm dificuldade em assumir publicamente. Rui Ramos necessita da comparação disparatada com Tsipras não para nos esclarecer, mas para esclarecer a sua posição: um comprometimento que tem que aparecer como descomprometido. O raciocínio instala-se numa casuística escorreita e tem um pendor maniqueísta que cai mal a um historiador. A casuística? Formula-se assim: se eu mostrar que ambos os extremos do espectro político partilham de convicções e actos semelhantes – sobretudo em substância – então a minha identificação com um dos extremos fica resguardada da crítica. A direita conservadora donde Rui Ramos é proveniente não quer admitir abertamente que entre Trump e Hillary (e já agora Obama) escolheriam Trump. É facto que os tiques abrutalhados de pato bravo de Trump colocam a elite bem-pensante, mesmo de direita, a uma certa distância. Mas o espírito é comungado, na medida em que certas reservas sobre a “cultura da esquerda” ainda assim predominam.

Segundo aspecto, Tsipras pode ser muita coisa, mas não retirou liberdades e garantias a ninguém, nem fez selecções perversas com base em categorias sociais determinadas. Os atributos e acções ditatoriais de Trump não têm comparação nas técnicas de arregimentação do Syriza. Para mais tendo em conta que este, pela voz de Tsipras ousou afrontar os poderosos – a europa e as suas instituições – enquanto Trump, como todos os ditadores, serve os poderosos contra os mais fracos. Os populismos não se equivalem para além de qualquer substância: essa é uma armadilha da intelectualidade de direita. Assim como o populismo de Obama não se encontra sequer no mesmo registo ético do de Trump. Porque se poderia dizer que Obama soube gerir eficazmente formas novas de populismo, naquilo que poderíamos designar como um populismo de esquerda. Se se quiserem critérios de destrinça no que ao primeiro assiste como um populismo agregador, integrador, redistributivo de bens económicos e simbólicos, persiste no segundo como um populismo culpabilizador, fracturante, violento e desagregador. Por aqui nos poderia igualmente servir a comparação entre Tsipras e Trump.

Terceiro aspecto, há uma convicção que dir-se-ia ingénua no poder do sistema de checks and balances dos USA. Esta convicção não é nunca cotejada com a história, e os exemplos contrários à sua eficácia abundam. Na realidade, o panorama político actual norte-americano é efectivamente expressão da possibilidade de sabotagem desse mesmo sistema; sobretudo quando aqueles a quem incumbe por ele zelarem – congresso, senado e presidência – estão apostados em o imobilizar, ou melhor, manipular. A força da sociedade civil foi frequentes vezes esmagada sob o poder dos estados autoritários – é a história da América Latina. Achar que os USA possuem uma espécie de excepcionalismo nesta matéria é boa conversa para consumo interno – para alimentar fascínios avulsos com o que significa ser americano – mas colide contra avaliações serenas dos acontecimentos. O tão elogiado sistema de checks and balances foi o que viu nascer no seu seio uma comissão de actividades anti-americanas, o patriot act, a defesa da tortura (agora de regresso), a congeminação de uma guerra (entre outras) à revelia desses mesmos poderes de checks and balances.

Vale a pena regressar ao Plot against America de Philip Roth. Através do contrafactual Roth mostra como poderíamos ter tido uma América diferente apenas e só graças a um resultado eleitoral: se Lindbergh, o conservador republicano com simpatias nazis tivesse ganho as eleições a Roosevelt. Os paralelos não são desprovidos de sentido. Também temos um conservador republicano com simpatias czaristas por Putin. E não me parece que o despedimento imediato da procuradora geral norte-americana apenas porque esta levantou dúvidas sobre as proibições das nacionalidades imigrantes que Trump decretou evidencie muita boa saúde do sistema de checks and balances.

Em suma, Rui Ramos faria bem em não manipular os acontecimentos históricos e não enveredar por comparações absurdas e implausíveis entre Trump e Tsipras. Não o mostra a uma boa luz. Qualquer dia temos Rui Ramos a justificar Marine Le Pen com o populismo de Lula da Silva.