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O que aí vem

Janeiro 26, 2017

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Em entrevista à SICNotícias, Miguel Monjardim, o comentador de relações internacionais da estação, repetia a estafada versão segundo a qual os democratas não perceberam a razão da vitória de Trump, e que essa incompreensão traria certamente dificuldades para o programa político democrático. É mais do mesmo: a crítica do elitismo democrático e etc… A pergunta que lhe fizeram fora: – Que tipo de presidente será Trump? Pese embora a futurologia implicada no arriscar de uma resposta, a questão é objectiva e não admite diatribes inconsequentes.

Que tipo de presidente será Trump? Considero que já existem dados suficientes para responder com alguma assertividade à questão. Podemos começar por examinar que tipo de homem é Trump. É, para começar, um ignorante. Aqui não se encontra implicado nenhum elitismo, na medida em que um presidente tem que ser um conhecedor de coisas, digamos assim para não especificar um saber técnico ou humanista. Trump não tem nenhum. Os seus discursos são pateticamente infantis, e nisso aproxima-se das pop stars mais inconsequentes e ignorantes. É preciso temer o pior, porque o pior vem aí. Nigel Farage exulta com a subida de Trump ao poder chegando mesmo a usar a palavra revolução. Bem pode António Louçã escalpelizar as diferenças entre o tempo histórico de Hitler e a América de Trump – talvez para nos tranquilizar, talvez para enunciar a afinação do olhar de historiador – não é isso que torna Trump menos fascista. À pergunta, será Trump um novo Hitler?, devemos responder que ela não é a correcta. Trump é um fascista dos tempos de alta aceleração comunicacional. Ao invés de grandes manifestações de massas, arregimenta ideologicamente as suas hostes através do twitter, da televisão e das redes sociais. Em vez de longos e inflamados discursos, despeja o seu ódio em interjeições e curtas formulações. Em vez de organizações de massas – como os grandes partidos fascistas – Trump move-se nas autocracias internacionais do dinheiro.

As medidas que já promulgou fazem prever o pior para o que ainda aí vem. Tortura, indústrias poluidoras, corte unilateral com convénios internacionais, apoio incondicional a Israel e ao seu papel de potência hegemónica (militar) no médio-oriente, alienação e até hostilização da Europa, muros com o México, medidas radicais anti-imigração… Toda uma agenda que diversos presidentes republicanos norte-americanos gostariam de ter assumido, mas que por taticismo ou diplomacia, se foram contendo. Trump é a extrema-direita no poder, perfeitamente legitimada, a entrar-nos pelas janelas adentro. O corte com o TPP (Trans Pacific Partnership), dizem alguns iluminados – como o comentador de política internacional da antena 1 – é paradoxal, na medida em que este estava feito para retirar poder económico à China. Não há nada de paradoxal. O que Trump pretende é desbloquear as regras do emprego e contratação para níveis idênticos aos da China, algo a que o TPP colocava alguns freios. A administração Trump pretende a desregulação total do mercado laboral, à maneira da China, para com esta poder competir no dumping social e económico que é a sua prática: inexistência de sindicatos, total desprotecção laboral dos trabalhadores, salários de miséria. Bem pode Bernie Sanders congratular-se com a exigência de Trump “fabricar” mais empregos – a que custo serão estes fabricados?

O atropelo directo e sem vergonha dos direitos humanos evidenciado pelo endossar da tortura e pela rejeição do acolhimento de refugiados é apenas o princípio. Seguir-se-ão cortes severos no que resta do Estado-providência, nos apoios sociais aos mais desmunidos, numa política sem qualquer tipo de misericórdia perante a exclusão e dificuldades de inserção social de certos grupos. O cristianismo de Trump é de tal forma contaminado pelo seu neoliberalismo sem concessões que nem sequer a réstia de humanidade subjacente às práticas caritativas da extrema-direita conservadora subsiste.

Há pelo menos um paralelo com Hitler que pode ser traçado sem nos enredarmos em diferenças conjunturais históricas. O discurso da catástrofe, do inimigo within, de uma América esventrada por gangues e crime, da associação sistemática desse estado a grupos específicos, tais como imigrantes e muçulmanos, possui parecenças reconhecíveis.

Pode não ser Hitler, mas há que perceber porque recebe tanto apoio dos grupos neo-nazis deste e do outro lado do Atlântico.

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