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Financial Times

Janeiro 9, 2017

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Os elogios a António Costa pelo Financial Times fizeram furor na comunicação social portuguesa. Mereceram o tempo de uma notícia nos principais noticiários televisivos. E porventura mais interessante, mereceram um afluxo razoável de comentários nas caixas de comments do Financial Times.

O teor da notícia é ele próprio matéria de estudo. O elogio é feito mas porque as expectativas eram exactamente as contrárias; ou seja, o elogio é feito against all odds! O velho Keynes ensinou-nos a importância das expectativas nos ciclos económicos. No jogo de negociar expectativas há pessoas que se tornaram profissionais. Por isso é que contrariar expectativas tornou-se questão de guerrilha comunicacional. É evidente que se tem sempre expectativas em função de qualquer coisa. Mas esse algo nem sempre é muito real ou sequer objectivável. Com efeito as expectativas estão, para o pior ou para o melhor, dependentes da informação que se possui. E isto para qualquer situação social que envolva um qualquer grau de incerteza. No campo político – e este compreende actualmente bem mais do que o parlamento e os partidos – gerir expectativas tornou-se a “fatia de leão” da linguagem política. O aspecto depressivo e punitivo do discurso de Passos, o seu falso moralismo económico, a sua arrogância pretensamente técnica (assim como tantos dos seus ministros) acabou por ser mau para o inflar de expectativas mesmo against all odds. É curioso que seja uma pseudocoligação de esquerda que melhor jogue o jogo das expectativas, aqueles que eram tidos pelos pessimistas carrancudos que pretendem arrancar pela base qualquer sinal de iniciativa individual. Daí o espanto do Financial Times. Como opera com preconceitos (não existe tal coisa como objectividade jornalística porque o jornalismo é feito por jornalistas) caldeados em muitos anos de formação ideológica, a “gerigonça” só poderia resultar against all odds! Mesmo que por princípio racionalmente conduzido qualquer outra alternativa dadas as circunstâncias em que o país se encontra mergulhado só poderia resultar, na mesma forma, against all odds! O facto é que os odds eram os mesmos para a esquerda e para a direita, a forma como são geridas as expectativas é que se distinguem.

Uma horda de profissionais prepara os seus textos, com bons correctores automáticos, ou mesmo especialistas em tradução, para os vomitar nas páginas dos comentários e assim tentar influenciar o jogo das expectativas. É impressionante como os ditos comentários – naquilo que se atribui à sua natureza espontânea – são na realidade burilados, formulados e reformulados. Só assim se pode compreender a consistência lógica, a estruturação cuidada de muitos deles – ao que nada devem à espontaneidade de desabafos ou extemporâneas opiniões. Há portanto uma máquina de fazedores de comentários, porventura pagos, para influenciar o jogo das expectativas. No caso vertente, o inglês de alguns é tão perfeito que diríamos escrito por nativos na língua; todavia o conhecimento dos assuntos internos à nossa res publica é de tal forma aprofundado que seria paradoxal termos nativos britânicos a expressarem a sua indignação perante os elogios tecidos a Costa. As máquinas partidárias não brincam em serviço. Sobretudo quando se trata de uma máquina revanchista e rancorosa como a do psd e do cds-pp. Não quer isto dizer que as outras máquinas não invistam nas mesmas estratégias e que para elas não seja igualmente importante o jogo das expectativas. Quer apenas dizer que actualmente é a máquina do psd e cds-pp que se encontram no lugar do rancor e da vingança. Seja como for, aqueles que têm meios para o fazer investem em profissionais das caixas de comentários. A opinião pública e publicada confundem-se e por isso na impossibilidade de separar o trigo do joio sem um aturado trabalho de selecção os nossos sistemas comunicacionais encontram-se sobrecarregados. Por isso Trump não é o labrego convencido que os apresentadores nova-iorquinos de talk shows dizem que ele é quando este envia twitters a toda a hora. Ele percebeu que a política se joga praticamente toda ali; o resto é burocracia e expansão de deliberações com base legal. O efeito de imediatismo que a linguagem política necessita ter convém da mesma forma para contraditar a opinião publicada. Ou seja, está montado um jogo de equivalências que  notícias a opiniões. Isto acontece porque no plano comunicacional a informação passou a igualizaser qualquer coisa desde que veiculada pelo meio de comunicação certo. Ou seja, se eu for perorar para o Rossio, em cima de uma banca e com um altifalante na mão, o mais provável é ser tido por maluco, mas se despejar ódio nas caixas de comentários ou no twitter, estou apenas a expressar a minha opinião – a fazer uso da minha liberdade de expressão.  Na verdade a comunicação funciona de tal forma como uma gigantesca caixa-de-ressonância que são as opiniões que passam a ter o estatuto de notícia. No futebol como na política.

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