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Humor-Horror, Horror-Humor

Dezembro 21, 2016

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O Mata Bicho de Bruno Nogueira do dia 21 foi sobre os limites do horror vs os limites do humor. Segundo o humorista estamos particularmente preocupados com o humor e os seus limites e menos, bem menos, com a profusão de horror, sobretudo o veiculado pela televisão. Segundo esta linha de raciocínio, o horror dos atentados terroristas que diariamente convive connosco em situações domésticas, torna-se familiar; enquanto ultrapassar os limites do bom gosto no humor preocupa-nos sobremaneira.

Embora o objecto da crítica seja acertado, a sua forma está errada.  E mostra um imenso desconhecimento da história, seja ela qual for (da pátria, do mundo, dos impérios, etc). Quando sobre esta nos detemos o que encontramos? A evidência tonitruante que o humor sempre foi mais corrosivo do que o horror. O humor foi sempre o inimigo juramentado dos poderes instituídos, enquanto o horror foi a sua linguagem e prática. A violência não é derrisória, mas o humor lança as estruturas na derrisão. Por isso as sociedades sempre se protegeram mais contra o humor do que contra o horror. Simples constatação: o horror era exibido com pompa e circunstância, o humor perseguido sem piedade.

Não somos por isso vítimas passivas de excessiva exposição ao horror. Mesmo que admitamos que os focos de horror são múltiplos e intensivamente difundidos, este é um horror gráfico, que nunca se concretiza materialmente. Por isso a nossa familiaridade é com o grafismo do horror, mas não com a sua vivência. E é aqui que o mundo se divide, como talvez nunca tenha acontecido noutro tempo histórico. Enquanto para alguns o horror não passa de indefinição imagética através dos meios de comunicação, para outros o horror é experiência. Por isso, o que nos caracteriza actualmente é o facto de parte da humanidade não conviver com o horror real, com cheiros e sons, e apenas a ele aceder através da sua representação comunicada. O que significa uma distância assinalável com tempos de antanho. O mesmo para a convivência com a morte, tornada estranha nas nossas vidas pelo aparatus legal e medicinal que se interpôs entre as nossas relações humanas quotidianas e a finitude. Esta relação já foi bem mais carnal, bem mais próxima no sentido da quotidianidade. Da mesma forma a morte violenta teve os seus palcos directos, sem mediação tecnológica. Expor a tortura do corpo como actividade comunitária e mesmo lúdica era normal, mas gozar com os poderes fáticos, tais como o poder secular ou religioso exortava a maior censura geralmente desferida em actos de extrema violência.

Por isso a relação entre horror e humor nunca foi muito diferente da actual. Os limites do humor foram sempre mais importantes do que os do horror. Com efeito, o que foi distendido foi os limites do primeiro. É numa sociedade de entretenimento como a actual que o humor pode reinar como ente supremo sem perigo de fragilizar a dupla natureza do poder: o seu exercício efectivo, e o campo de possibilidades que este define como matriz para o seu exercício.

Quando, como na crónica de Bruno Nogueira, nos preocupamos com a exposição das nossas crianças a imagens televisivas de violência e morte, significa que a redoma psicológica que nos protege dessas duas constantes da vida está completamente armada. A premissa é sempre a do perigo da banalização da violência. Mas a violência banaliza-se através de outras formas porventura mais insidiosas. A tentativa por parte de progenitores e outros educadores de impermiabilizar as crianças à violência visual, não as prepara para múltiplas outras violências que nos acompanham no nosso viver social. Não as prepara para a violência do desemprego, da privação relativa, da segregação. Essa preocupação é muito típica de uma geração que vê nas suas crianças seres singulares, que individualiza de tal forma a relação parental que aquelas crianças são o centro do universo parental. Ou seja, promovem uma deificação das crianças, em que as suas crianças são tratadas como pequenas divindades.

A violência sempre foi banalizada. O exercício da violência, ao contrário da crítica que assume a sua máxima exposição, foi sanitizado.  A tese é antiga e devemo-lo a Foucault. Que a violência foi controlada em sociedades organizadas fora de tempos de guerra parece ser óbvio. Por isso quando ela irrompe em sítios onde seria expectável a sua domesticação causa tanto espanto e consternação. Estamos, com efeito, a desabituarmo-nos da violência física e a cedermos a inúmeras violências psicológicas. Os horrores de Allepo tornam-se familiares não porque nos habituamos por excesso, mas porque não os vivemos directamente. As mediações que os recortam e servem higienizados à mesa do jantar não nos tornam seres habituados; pelo contrário, tornam-nos entes protegidos. A sensação de redoma que elas nos transmitem é que deve ser interrogada, a ideia de que estamos sãos e salvos no conforto da nossa sala de jantar é que é a verdadeira vitória da sociedade da comunicação. E o humor? Embora existam focos tradicionalistas, tantas vezes conservadores, de preocupação com os seus alvos, em geral a sua força derrisória é mais encantatória do que factual. Pode bem um candidato a presidente ser enxovalhado quase diariamente como foi Donald Trump durante a campanha que isso não o impediu de vencer a contenda. Podem inúmeros humoristas gozar diariamente com Cavaco Silva que isso não o impediu de ganhar dois mandatos presidenciais. Os centros morais fragmentaram-se, e assim fazendo-o perderam a sua força. A força que o humor tinha de tornar a coisa gozada irrisória perdeu-se com a multiplicação, e mais ainda com a flexibilização, do centro moral. O perigo que o riso significava para as coisas sagradas e que tanto atormentava o catolicismo medieval, não conhece mais paralelo. Pelo contrário, temos um papa que faz piadas e que cativa pelo seu sentido de humor uma multidão de fiéis que espera mais que este brinque com o mundo do que o encerre num espartilho moral.

Conclusão, nem a violência se banalizou – pelo menos não mais do que sempre esteve – nem o humor é tão perigoso como as investidas persecutórias aos seus limites parecem fazer crer. Nas mediações informativas e tecnológicas joga-se algo de ilusionismo que é difícil de captar. O atributo dessacralizante do humor deixou de ser efectivo porque o sagrado deixou de ter centro. O islão vive dias de pânico por causa dessa perda. As suas reacções são extremadas porque a tendência é inexorável. A forma como o humor se torna invasivo – ao ponto dos gurus das apresentações em público exortarem a fazer piadas para agarrar a audiência – implica que a fórmula da exposição seja invertida: o humor tem mais espaço do que a violência. Ou caminham os dois lado a lado, higienizados e salutarmente servidos num quotidiano que tudo absorve e igualiza. Humor e horror são imagens que nos deixam bem-dispostos, por razões inversas. O primeiro porque brincar com as coisas quebra a modorra do quotidiano e das rotinas; o segundo porque ao vê-lo sempre longe e protegido pelo cordão de segurança dos media cria uma sensação irreal de participante que não se envolve, que apenas sofre aquilo que se permite sofrer – o quinhão de investimento no sofrimento a que o espectador se voluntariza e controla.

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