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Berlim, Breitscheidplatz

Dezembro 21, 2016

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Dê-se as voltas que quisermos, a suspeita vai sempre pairar sobre os requerentes de asilo. Se a primeira suspeita que recaiu sobre um paquistanês asilado se desfez em fumo permitindo muita gente respirar de alívio, o segundo suspeito ao ser identificado como requerente de asilo em vias de deportação adensa o clima. O estrago está feito. A Alemanha não vai olhar mais para os requerentes de asilo da forma benevolente com que o fez no início da crise dos refugiados. A confiança foi quebrada e por mais que se tente explicar a injustiça das generalizações (ou que uma maçã podre não caracteriza o cesto, como diriam os americanos) o seu efeito psicológico é irredutível.

Para além disso, o ataque desfechado num mercado de natal de Berlim encerra uma deliberada punção no âmago da solidariedade germânica. Não se trata apenas de uma confiança traída nessa solidariedade como a expressão usada por Merkel de “enojada” perante essa possibilidade indiciou. Trata-se de os mercados de natal alemães serem lugares de ressurgimento comunitário, de encontro e de efervescência de um espírito urbano, no sentido de vida citadina comungada, que ali se concentra. O seu simbolismo ultrapassa por isso o simples espectáculo da comercialização natalícia. Há algo de emotivo, de proximidade, da natureza da reunião, se quisermos de isotópico (no sentido que Lefebvre lhe empresta) nestas ocasiões. Por isso é um ataque ao âmago da sociabilidade alemã. São espaços de recrudescência de algo de aldeão que as cidades ainda possam resguardar na miríade dos seus corredores urbanizados. É duplamente grave: pelo seu carácter religioso – um ataque durante uma festividade cristã – e pela sua natureza de corte num espaço de sociabilidade, de reduto da confiança e da descontracção. Quem foi alguma vez a um destes mercados beber gluewine e comer batatas percebe o que eu estou a dizer. Quem não foi apenas imagina um ajuntamento de gente a comer em barracas, como num centro comercial se come naquelas manjedouras gigantes que dão pelo nome de espaços da restauração. Não é a mesma coisa. Sem querer idealizar os mercados germânicos, nem recriar uma imagem de tal forma bucólica que esquecesse que estes são também espaços de comércio. Certo, são-no. E no entanto possuem um carácter convivencial de natureza diferente. O espírito comunitário que ali se desenvolve não pode ser negligenciado e deve ser comparado com outros espaços que se organizam pela lógica do não –espaço (Augé). É nesse sentido que os mercados de natal germânicos são sui generis (os austríacos também, menos os franceses, em minha opinião).

Segundo, Berlim. A capital conhecida pela sua abertura à diversidade, celebradora da Vielfalt, das muitas cores que coloram a paleta das diferenças – de género, étnicas, culturais, linguísticas. O ataque não podia ter sido melhor assestado. E no entanto o seu efeito será devastador. Se Berlim ainda respirava o ar de cidade aberta, por certo se irá contrair. Numa Alemanha onde a extrema-direita recrudesce, ter um bastião de esquerda e logo por sinal na capital era um emblema suficiente. Mas depois disto o que acontecerá à crença na solidariedade humana que fez de Berlim uma cidade de reunião? União das duas berlins separadas durante décadas e reconhecimento de aproximações em vez de distâncias ideológicas – o que lhe acontecerá? Fechar-se-á, sinalizando para a restante Alemanha o caminho a seguir?

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