É um pouco mais complexo do que isso…

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O texto de José Manuel Fernandes no Observador sobre a nossa mesquinhez invejosa, altera a tese de José Gil – o mobil da inveja como necessidade de sobrevivência – para uma noção, em tudo conservadora, de a crítica social como inveja. Ao referir-se aos críticos da gentrificação como cevados pela inveja dos que têm sucesso nos revolucionários processos de reconversão de Lisboa como capital europeia do turismo, retira-lhes, sem muita discussão, a legitimidade do diálogo. E isto porque o caso é bem mais complexo do que uma simples birra de quem não se vê a enriquecer com um tal processo de reconversão. A metáfora da fronteira é particularmente ajustada. Por isso é que um dos principais patronos da teoria da gentrificação, Neil Smith, a designou por “nova fronteira urbana”. O discurso da nova fronteira é, como Smith explica, o simétrico da retórica do pioneirismo dos seus novos habitantes. O regresso dos ricos dos subúrbios aos centros renovados da capital como conquista moderna, e renaissance – o termo dado pelos técnicos envolvidos – dos territórios abandonados. Notemos que a retórica de José Manuel Fernandes ao dizer que bairros outrora desvitalizados e degradados estão a ser recuperados e o centro ocupado, ressoa a esta toada pioneira de homens e mulheres que abraçam o duro trabalho de reconquistar a fronteira. Neste caso a fronteira é a das zonas centrais degradadas e ocupadas, e daí a sua degradação, pelas classes mais baixas. O fenómeno tem pergaminhos. E assim como os seus processos são modularmente reiterados, também a sua crítica se inscreve nas mesmas premissas. Quais são elas? Primeiro, que estes territórios não são desocupados. Têm pessoas, têm habitantes, porventura não são o tipo de habitantes que se pretende nos centros embelezados das cidades, mas esse desconforto é também ele produto directo das lógicas gentrificadoras. Segundo, que nenhum destes processos resiste, ou sequer tem início, sem uma intensa intervenção do Estado, em investimento monetário e técnico: através de obras de renovação, de planeamento urbanístico segundo as modas mais atraentes da arquitectura e das fórmulas mais ousadas em matéria de organização do espaço. Ou seja, é um processo que não resiste sem o dinheiro de ricos e pobres em simultâneo. Todavia, são os ricos que dele beneficiam em larga maioria. Nesta substituição, os outrora habitantes dos subúrbios – ricos, não os subúrbios das classes trabalhadoras e dormitórios onde as pessoas são encaixotadas – regressam ao centro e, num movimento inverso, os anteriores habitantes do centro são paulatinamente deslocados para os subúrbios, pobres. Terceiro aspecto, o movimento inevitável que é desencadeado gera um aumento do valor imobiliário discrepante quer com as posses dos habitantes dos anteriormente degradados centros quer em relação à maioria das zonas da restante cidade. Gera, em consequência, uma bolha territorial especulativa, facilmente constatável quando se compara o preço de 50 m2 em alfama com a mesma volumetria em Queluz. Não é imaginação: enquanto o primeiro se situa entre os 200.000 e os 250.00 euros, o segundo cifra-se entre 60 a 90.000 euros.  O que uma tal discrepância evidencia é o começo da inacessibilidade do centro para a maioria das famílias. A discrepância entre centros e subúrbios desqualificados consegue ser reproduzida e aumentada várias vezes em capitais como Londres, Nova Iorque ou Paris. O fenómeno lisboeta é recente mas tudo leva a crer que seguirá o mesmo caminho.

Gentrificação não é um palavrão conveniente a uma crítica ociosa. É um termo analítico bem específico que permite aferir as dinâmicas de reescalonamento da cidade associada a estratégias distintivas de classe. Não basta dizer que o centro está mais bonitinho e que atrai turistas e que isso é bom. A gentrificação transforma os centros de acordo com uma estratégia de ganhos económicos alicerçada em ganhos de capital cultural estético. Se a proliferação de bares, barzinhos e cafés trendis é factor de esteticização e embelezamento dos bairros, ela é acompanhada por um aumento da propriedade. A valorização dos espaços atrai compradores com grande capacidade económica e a procura pelo carácter exclusivo da sua localização faz com que o preço suba especulativamente. A substituição das classes faz-se então através de uma oferta cada vez mais apostada nos segmentos mais elevados do mercado, sejam os multimilionários chineses dos vistos gold, sejam os ricos nacionais dos sectores profissionais liberais.  O consumo dos centros torna-se distintivo. Sem dúvida que tal tendência põe em marcha um melhoramento dos centros, mas torna-os exclusivos de um segmento com capacidade económica elevada. Apesar de existir uma “fruição do centro”, desde logo porque o espaço da cidade é ainda assim aberto, o “habitar o centro” está reservado apenas para alguns. Podemos achar que sempre assim foi, e sempre assim será. Mas as dinâmicas invasivas não têm que ser também destruidoras. No centro de Lisboa não há um edifício clássico que não tenha sido transformado em hotel. O que diz igualmente da dinâmica económica em que a cidade se especializou. Não são empresas nem escritórios, mas investimentos para turistas. Sendo certo que esta turistificação apresenta as suas vantagens, como por exemplo o povoar de zonas anteriormente votadas ao abandono humano, também possui perigos e imprevistos. Um dos perigos é tornar o centro como espaço de consumo das classes superiores. Um dos efeitos não intencionados é uniformizar os centros das capitais de tal forma que encontramos os mesmos padrões estéticos e simbólicos em todo o lado. Esta facilidade com que se lida com ambientes geradores de familiaridade pode ser reconfortante, mas é sem dúvida descaracterizadora dos espaços urbanos na sua originalidade histórica e cultural.

Em suma, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Nem aceitar tudo com despreocupação acrítica de que as coisas são como são; nem bloquear num ludismo teórico que rejeita qualquer modificação. Ter no entanto presente que aquilo que é visível no espaço urbano representa sempre dinâmicas mais profundas que marcam esse mesmo espaço numa temporalidade superior às evidências momentâneas. Processos de sucessão classista definidores de novas segmentações espaciais é um deles a ter em conta quando se entende a cidade como uma cidade idealmente justa.

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Berlim, Breitscheidplatz

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Dê-se as voltas que quisermos, a suspeita vai sempre pairar sobre os requerentes de asilo. Se a primeira suspeita que recaiu sobre um paquistanês asilado se desfez em fumo permitindo muita gente respirar de alívio, o segundo suspeito ao ser identificado como requerente de asilo em vias de deportação adensa o clima. O estrago está feito. A Alemanha não vai olhar mais para os requerentes de asilo da forma benevolente com que o fez no início da crise dos refugiados. A confiança foi quebrada e por mais que se tente explicar a injustiça das generalizações (ou que uma maçã podre não caracteriza o cesto, como diriam os americanos) o seu efeito psicológico é irredutível.

Para além disso, o ataque desfechado num mercado de natal de Berlim encerra uma deliberada punção no âmago da solidariedade germânica. Não se trata apenas de uma confiança traída nessa solidariedade como a expressão usada por Merkel de “enojada” perante essa possibilidade indiciou. Trata-se de os mercados de natal alemães serem lugares de ressurgimento comunitário, de encontro e de efervescência de um espírito urbano, no sentido de vida citadina comungada, que ali se concentra. O seu simbolismo ultrapassa por isso o simples espectáculo da comercialização natalícia. Há algo de emotivo, de proximidade, da natureza da reunião, se quisermos de isotópico (no sentido que Lefebvre lhe empresta) nestas ocasiões. Por isso é um ataque ao âmago da sociabilidade alemã. São espaços de recrudescência de algo de aldeão que as cidades ainda possam resguardar na miríade dos seus corredores urbanizados. É duplamente grave: pelo seu carácter religioso – um ataque durante uma festividade cristã – e pela sua natureza de corte num espaço de sociabilidade, de reduto da confiança e da descontracção. Quem foi alguma vez a um destes mercados beber gluewine e comer batatas percebe o que eu estou a dizer. Quem não foi apenas imagina um ajuntamento de gente a comer em barracas, como num centro comercial se come naquelas manjedouras gigantes que dão pelo nome de espaços da restauração. Não é a mesma coisa. Sem querer idealizar os mercados germânicos, nem recriar uma imagem de tal forma bucólica que esquecesse que estes são também espaços de comércio. Certo, são-no. E no entanto possuem um carácter convivencial de natureza diferente. O espírito comunitário que ali se desenvolve não pode ser negligenciado e deve ser comparado com outros espaços que se organizam pela lógica do não –espaço (Augé). É nesse sentido que os mercados de natal germânicos são sui generis (os austríacos também, menos os franceses, em minha opinião).

Segundo, Berlim. A capital conhecida pela sua abertura à diversidade, celebradora da Vielfalt, das muitas cores que coloram a paleta das diferenças – de género, étnicas, culturais, linguísticas. O ataque não podia ter sido melhor assestado. E no entanto o seu efeito será devastador. Se Berlim ainda respirava o ar de cidade aberta, por certo se irá contrair. Numa Alemanha onde a extrema-direita recrudesce, ter um bastião de esquerda e logo por sinal na capital era um emblema suficiente. Mas depois disto o que acontecerá à crença na solidariedade humana que fez de Berlim uma cidade de reunião? União das duas berlins separadas durante décadas e reconhecimento de aproximações em vez de distâncias ideológicas – o que lhe acontecerá? Fechar-se-á, sinalizando para a restante Alemanha o caminho a seguir?

Humor-Horror, Horror-Humor

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O Mata Bicho de Bruno Nogueira do dia 21 foi sobre os limites do horror vs os limites do humor. Segundo o humorista estamos particularmente preocupados com o humor e os seus limites e menos, bem menos, com a profusão de horror, sobretudo o veiculado pela televisão. Segundo esta linha de raciocínio, o horror dos atentados terroristas que diariamente convive connosco em situações domésticas, torna-se familiar; enquanto ultrapassar os limites do bom gosto no humor preocupa-nos sobremaneira.

Embora o objecto da crítica seja acertado, a sua forma está errada.  E mostra um imenso desconhecimento da história, seja ela qual for (da pátria, do mundo, dos impérios, etc). Quando sobre esta nos detemos o que encontramos? A evidência tonitruante que o humor sempre foi mais corrosivo do que o horror. O humor foi sempre o inimigo juramentado dos poderes instituídos, enquanto o horror foi a sua linguagem e prática. A violência não é derrisória, mas o humor lança as estruturas na derrisão. Por isso as sociedades sempre se protegeram mais contra o humor do que contra o horror. Simples constatação: o horror era exibido com pompa e circunstância, o humor perseguido sem piedade.

Não somos por isso vítimas passivas de excessiva exposição ao horror. Mesmo que admitamos que os focos de horror são múltiplos e intensivamente difundidos, este é um horror gráfico, que nunca se concretiza materialmente. Por isso a nossa familiaridade é com o grafismo do horror, mas não com a sua vivência. E é aqui que o mundo se divide, como talvez nunca tenha acontecido noutro tempo histórico. Enquanto para alguns o horror não passa de indefinição imagética através dos meios de comunicação, para outros o horror é experiência. Por isso, o que nos caracteriza actualmente é o facto de parte da humanidade não conviver com o horror real, com cheiros e sons, e apenas a ele aceder através da sua representação comunicada. O que significa uma distância assinalável com tempos de antanho. O mesmo para a convivência com a morte, tornada estranha nas nossas vidas pelo aparatus legal e medicinal que se interpôs entre as nossas relações humanas quotidianas e a finitude. Esta relação já foi bem mais carnal, bem mais próxima no sentido da quotidianidade. Da mesma forma a morte violenta teve os seus palcos directos, sem mediação tecnológica. Expor a tortura do corpo como actividade comunitária e mesmo lúdica era normal, mas gozar com os poderes fáticos, tais como o poder secular ou religioso exortava a maior censura geralmente desferida em actos de extrema violência.

Por isso a relação entre horror e humor nunca foi muito diferente da actual. Os limites do humor foram sempre mais importantes do que os do horror. Com efeito, o que foi distendido foi os limites do primeiro. É numa sociedade de entretenimento como a actual que o humor pode reinar como ente supremo sem perigo de fragilizar a dupla natureza do poder: o seu exercício efectivo, e o campo de possibilidades que este define como matriz para o seu exercício.

Quando, como na crónica de Bruno Nogueira, nos preocupamos com a exposição das nossas crianças a imagens televisivas de violência e morte, significa que a redoma psicológica que nos protege dessas duas constantes da vida está completamente armada. A premissa é sempre a do perigo da banalização da violência. Mas a violência banaliza-se através de outras formas porventura mais insidiosas. A tentativa por parte de progenitores e outros educadores de impermiabilizar as crianças à violência visual, não as prepara para múltiplas outras violências que nos acompanham no nosso viver social. Não as prepara para a violência do desemprego, da privação relativa, da segregação. Essa preocupação é muito típica de uma geração que vê nas suas crianças seres singulares, que individualiza de tal forma a relação parental que aquelas crianças são o centro do universo parental. Ou seja, promovem uma deificação das crianças, em que as suas crianças são tratadas como pequenas divindades.

A violência sempre foi banalizada. O exercício da violência, ao contrário da crítica que assume a sua máxima exposição, foi sanitizado.  A tese é antiga e devemo-lo a Foucault. Que a violência foi controlada em sociedades organizadas fora de tempos de guerra parece ser óbvio. Por isso quando ela irrompe em sítios onde seria expectável a sua domesticação causa tanto espanto e consternação. Estamos, com efeito, a desabituarmo-nos da violência física e a cedermos a inúmeras violências psicológicas. Os horrores de Allepo tornam-se familiares não porque nos habituamos por excesso, mas porque não os vivemos directamente. As mediações que os recortam e servem higienizados à mesa do jantar não nos tornam seres habituados; pelo contrário, tornam-nos entes protegidos. A sensação de redoma que elas nos transmitem é que deve ser interrogada, a ideia de que estamos sãos e salvos no conforto da nossa sala de jantar é que é a verdadeira vitória da sociedade da comunicação. E o humor? Embora existam focos tradicionalistas, tantas vezes conservadores, de preocupação com os seus alvos, em geral a sua força derrisória é mais encantatória do que factual. Pode bem um candidato a presidente ser enxovalhado quase diariamente como foi Donald Trump durante a campanha que isso não o impediu de vencer a contenda. Podem inúmeros humoristas gozar diariamente com Cavaco Silva que isso não o impediu de ganhar dois mandatos presidenciais. Os centros morais fragmentaram-se, e assim fazendo-o perderam a sua força. A força que o humor tinha de tornar a coisa gozada irrisória perdeu-se com a multiplicação, e mais ainda com a flexibilização, do centro moral. O perigo que o riso significava para as coisas sagradas e que tanto atormentava o catolicismo medieval, não conhece mais paralelo. Pelo contrário, temos um papa que faz piadas e que cativa pelo seu sentido de humor uma multidão de fiéis que espera mais que este brinque com o mundo do que o encerre num espartilho moral.

Conclusão, nem a violência se banalizou – pelo menos não mais do que sempre esteve – nem o humor é tão perigoso como as investidas persecutórias aos seus limites parecem fazer crer. Nas mediações informativas e tecnológicas joga-se algo de ilusionismo que é difícil de captar. O atributo dessacralizante do humor deixou de ser efectivo porque o sagrado deixou de ter centro. O islão vive dias de pânico por causa dessa perda. As suas reacções são extremadas porque a tendência é inexorável. A forma como o humor se torna invasivo – ao ponto dos gurus das apresentações em público exortarem a fazer piadas para agarrar a audiência – implica que a fórmula da exposição seja invertida: o humor tem mais espaço do que a violência. Ou caminham os dois lado a lado, higienizados e salutarmente servidos num quotidiano que tudo absorve e igualiza. Humor e horror são imagens que nos deixam bem-dispostos, por razões inversas. O primeiro porque brincar com as coisas quebra a modorra do quotidiano e das rotinas; o segundo porque ao vê-lo sempre longe e protegido pelo cordão de segurança dos media cria uma sensação irreal de participante que não se envolve, que apenas sofre aquilo que se permite sofrer – o quinhão de investimento no sofrimento a que o espectador se voluntariza e controla.