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Os planetas alinham-se

Novembro 14, 2016

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Fazem mal aqueles que tomam o Trump como um fenómeno de ruptura com o cinismo do centro liberal, um reequilibrador dos termos da discussão política, na medida em que diria as verdades sem os artifícios dos compromissos políticos. Destes o leque é tão alargado que junta cabeças tão diferentes quanto Zizek e Bill Burr no mesmo equívoco. Para Zizek, o novo presidente americano é a forma de radicalização que obrigaria a desencadear uma radicalização de sentido contrário. Por isso preferiu Trump a Hillary. O equívoco reside no facto de Trump não vir só. Os mesmos mecanismos do populismo que criam a ilusão do isolamento do líder que tudo pode, são utilizados na análise que se faz do potencial de ruptura que dele advém. Como seria expectável, Trump trouxe o que de pior existe no GOP; e isso sim é o que constitui verdadeiramente a ameaça.

Mais preocupante do que saber se Trump irá fazer um muro na fronteira com o México, é este ter trazido consigo um ministro da educação criacionista que pode causar real dano no sistema educativo. Mais preocupante do que Trump poder expulsar os ilegais, é o novo presidente recuperar John Bolton, o homem que ludibriou as Nações Unidas para fazer guerra contra o Iraque. Trump bem pode dizer, para encanto e regozijo dos intelectuais de esquerda, que vai devolver a indústria à América criando postos de trabalho, mas o ter ido buscar um bilionário do petróleo e do gás para ocupar a pasta da economia não augura nada de bom.

Um empresário multimilionário argentino, velho amigo de Trump, disse após a vitória do novo presidente a seguinte frase: “os planetas voltaram de novo a alinhar-se”. Parece-me que é importante ler estas afirmações como a consecução de um programa. É óbvio que o milionário argentino não se referia à astronomia, mas antes a uma constelação de ocorrências que levam os grandes senhores do dinheiro a estar muito esperançados. Por um lado, a vitória de Trump legitimará um conjunto de manobras tais como maior flexibilidade laboral, mais horas de trabalho, menos direitos sociais. Temer, o presidente golpista brasileiro já fez passar no congresso uma lei para aumentar para 48 horas o tempo de trabalho semanal e prepara-se para privatizar o pré-sal, a reserva petrolífera que serviu os governos do PT como sustentáculo da política social. Macri, na Argentina, retirou os impostos aos mais ricos e prepara-se para um programa extensivo de privatização da saúde e educação. Percebemos assim que os planetas que se alinham não respeitam apenas ao novo governo republicano norte-americano, mas sim a uma conjugação mais vasta de transformações em regimes que se encontram enredados pelas redes de negócios transnacionais. No passado,  tais transformações tenderam invariavelmente a prejudicar os mais desmunidos social e economicamente e a beneficiar os mais ricos. Há pouca margem para acreditar que com Trump será diferente.

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