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Bad math?

Novembro 11, 2016

Image result for trump supporters rejoicing with victory

Uma curiosa análise ganhou espaço na comunicação social depois da vitória de Trump. Esta análise parece ter algo de equivocado, sobretudo em dois pontos. O primeiro é a ideia de que os democratas não mediram o pulso da América profunda e que por isso foram apanhados desprevenidos. Uma tal análise reitera os termos do discurso republicano e serve fundamentalmente os interesses destes. O que se lhe encontra subjacente é a fantasiosa divisão entre as elites de Washington e Nova York e a rust belt norte-americana. O out of touch dos liberais bem-pensantes com a América trabalhadora. Esta análise parece pressupor que não existiria tal coisa como as primárias norte-americanas, onde milhões de pessoas são mobilizadas em cada estado e onde ambos os grandes partidos tentam arregimentar o máximo número de pessoas em processos que vão desde os grandes comícios ao porta à porta dos caucuses. Num tal contexto de arregimentação política é difícil imaginar uma máquina partidária out of touch com a realidade da rust belt.

O segundo ponto prende-se com a ideia de que foi Obama ao não solucionar os urgentes problemas dessa mesma rust belt que levou ao deplorável resultado. Esta posição é falaciosa na medida em que esses mesmos problemas foram herdados de governos bush que tinham justamente a mesma agenda que agora vai ser aplicada por Trump. Se os eleitores fossem racionais saberiam que grande parte do make america great again é mais do mesmo da era bush. Ou como dizia alguém, Trump ganhou porque tinha uma mensagem: tinha um chapéu! Se não,veja-se como Daniel Henniger do Wall street journal no artigo Trump Opportunity explica o que o novo presidente deve fazer. Ali está a agenda para a nova governação republicana: taxes, health care, energy and financial regulation. Leia-se tirar os impostos aos ricos para que estes enriqueçam ainda mais, privatizar ainda mais a saúde, destruir os limites à produção energética, e dar rédea livre aos mercados financeiros. No fundo, a receita que levou à devastação da rust belt em primeiro lugar. Se os eleitores fossem minimamente racionais saberiam fazer estas contas simples.

É claro que os moguls das sondagens, como Nate Silver, apresaram-se a dizer que sempre souberam que Hilary tinha poucas hipóteses. É óbvio que receiam perder as encomendas de milhões com as quais vivem. A verdade é que por mais geniais que sejam a manipular números há uma dimensão que não controlam: as pessoas mentem. Isso é algo que nenhuma sondagem por mais sofisticada que seja consegue controlar. Idealmente gostariam de colocar um chip na cabeça de cada cidadão que permitisse ler as suas opções em tempo real. O problema, e isso doravante vai acontecer com mais frequência, é que as pessoas aprenderam a jogar elas próprias com as sondagens. Houve um efeito, que julgo terá resultado também com o brexit, que não é contemplado (e haverá forma de o fazer?) no processo da sondagem. Refiro-me, ao que podemos chamar por falta de melhor termo, ao efeito de estigmatização opinitativa. Se é verdade que as modas, os tiques, as vontades são ditadas pela comunicação social (e a publicidade é o exemplo claro de que assim é) então quanto mais estigmatizada por essa mesma comunicação for a moda, ou a tendência, maior será a propensão para a pessoa negar publicamente que a aprova. Funciona como com o racismo, em que as pessoas nunca se dizem racistas porque existe uma norma social de desaprovação, não se compreendendo depois como emerge tanto sentimento xenófobo e anti-imigração corporizado em partidos de extrema-direita em crescimento. O mesmo para Trump. Profundamente estigmatizado pela comunicação social, as pessoas tenderam a esconder a sua aprovação: afinal seria difícil dizer que se aprova alguém que quebra os preceitos morais que a sua base defende, em relação ao sexo, à família, etc. Tomadas por uma contradição moral insanável as pessoas fizeram o que séculos de cristianismo as ensinaram a fazer: mentiram. Esta capacidade não é, nem pode ser, controlada por métodos estatísticos por mais afinados que eles sejam. É o segredo de polichinelo dos fazedores de sondagens; aquilo que eles não vão nunca admitir. Quando as sondagens passam a ser vistas como elementos reguladores externos, as pessoas reagem da mesma maneira que reagem com o estado ou com as instituições administrativas, procuram manipulá-las.  O mesmo para o brexit, as pessoas mentiram por a opção não era bem vista pelos fazedores de opinião, embora acalentassem secretamente o desejo que se veio a revelar de facto.

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