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Trumpland

Novembro 10, 2016

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A frase mais ouvida pelos opinion makers, comunicadores e intelectuais norte-americanos nas últimas semanas foi, como é que chegámos aqui? E ainda não tinham chegado. Agora que chegaram, convém dizer que a interrogação labora num erro simplista. Um erro de apreciação do mundo em que vivemos, das suas contradições e aparências.

Parece evidente, pelos dados, que a américa branca de classe trabalhadora deu a vitória a Trump. Mas os dados também mostram que Trump ganha a Hilary nas cohortes mais jovens e nas de maiores rendimentos. O que significa que a ideia de uma população desafecta da política, de classe baixa que é puxada pelo populismo não corresponde totalmente aos factos. Esta é uma justificação fácil e tem sido um erro corrente nas análises de tanto estatísticos como de comentadores de políticas. Não foi só a América red neck que deu uma vitória estrondosa a Trump – foram também os licenciados brancos, com bons rendimentos, jovens e velhos.

Quem votou em Trump foi o pequeno comerciante que foge aos impostos e que mostra orgulho por isso. Trump não vem de fora do sistema – Trump é o sistema! É claro que toda uma máquina de produzir opinião que vive do sistema e no sistema gosta de dizer que Trump não é do “establishment”. Não é a raiva ao politicamente correcto, como diz o descerebrado Henrique Raposo (sempre que se reabilita com algo minimamente inteligente logo se segue uma atoarda) que causou o apoio a Trump. Essa é uma estratégia dos republicanos mais conservadores, do Tea Party, dizer que o politicamente correcto está na origem de todos os males. É no fundo a anti-política do populismo trumpista a funcionar enquanto máquina de cobrir a realidade. Já ninguém sabe o que seja o politicamente correcto, que há muito deixou de existir. O politicamente correcto não despede pessoas, nem as arruma na prateleira porque são velhas, nem terraplana tudo por amor ao dinheiro. Mas o trumpismo sim. Há quem, como Nicolau Santos, queira ver na eleição de Trump, uma luz ao fundo do túnel – o homem se calhar não será assim tão mau, parece pensar. É a esperança que resta depois da incredulidade.

O homem é verdadeiramente mau. E não é por apalpar as gajas na pussy, é porque ele é um produto (e produtor) do neoliberalismo full throtle. Não nos enganemos, o que ganhou ontem foi o neoliberalismo mais desabrido. É por isso que não há contradição nenhuma entre a web summit e Trump, como pretende Raposo. São ambos o sistema: os valores que regem Trump são fazer dinheiro, assim como os dos neerds das apps e da economia geek. Um, pode usar o fatinho composto da moral puritana republicana (caso em que o rei ia nu da forma mais descarada possível) e os outros podem andar de havaianas e surfar em Peniche. Estão unidos por um princípio comum: enriquecerem.

Perceber Trump não é utilizar as categorias comuns do populismo. É mudá-las para o quadro de reality show que o mundo, e a experiência dele, tem vindo a assumir. Achar, por exemplo, que algo mudou fundamentalmente com o Brexit ou com a eleição de Trump que tem a ver com um eleitorado enraivecido contra a globalização e o exterior, é esquecer que os eleitorados por diversas vezes se revoltaram contra a internacionalização e o exterior: chamava-se fascismo e os discursos iniciais não eram qualitativamente diferentes do trumpismo. No entanto julgo que há diferenças que não podem ser escamoteadas.

O voto trump não é um voto contra a globalização: o homem tem negócios que vão do Japão à Argentina! O voto trump é algo que estava a fermentar – e por isso podemos falar de um fenómeno designado trumpismo – desde Sarah Palin. A esquerda gosta de dizer que as pessoas não são estúpidas. Depende do que se entende por estúpido. O que se pode concluir do não ao tratado de paz com as farc no referendo colombiano? As pessoas não são totalmente inconscientes, isso julgo que não, mas tantas vezes estúpidas e más, não vejo razão para duvidar. Vejam-se as reacções dos apoiantes de Trump quando receberam a notícia da vitória: urros, pulos, demonstrações de força. Se aquilo não é gente estúpida, não sei o que será.

É certamente gente cheia de raiva aos mais fracos. Mas num mundo que nos inunda diariamente com os exemplos de gente extraordinária – extraordinariamente bela, extraordinariamente rica, extraordinariamente talentosa – como podemos não nos querer distanciar dos mais fracos? É gente sem uma ideia de justiça. Mas num mundo que coloca os interesses individuais à frente de qualquer noção de equidade, quem pode reclamar uma ideia de justiça? É gente que precisa desesperadamente de ser grande. Mas num mundo asfixiado pelas histórias individuais vomitadas copiosamente nas páginas da net, quem duvida do narcisismo mais infantil?

Trump é a combinação desses factores. Não é a rust belt que de repente se ergueu contra as elites de Filadélfia; tão-pouco os red necks contra os snobs das universidades de Nova York! Nem sequer a negação do sonho americano, como alguns democratas gostavam de dizer. Trump é o sonho americano. O mais acabado exemplo do que quer dizer o sonho americano. Porque o sonho americano nunca foi a igualdade e justiça. O sonho americano está bem representado pelo homem que tem uma torre com o seu nome. O sonho americano constrói-se em torno à homenagem histérica à bandeira e ao hino, que vai dos democratas aos republicanos, e que faz com que os americanos nunca consigam sair dum centro de gravitação ultra-nacionalista que só precisa do combustível certo para fazer combustão.

Há uma parte certa na análise que vê esta vitória esmagadora como uma vingança contra um presidente negro. Porventura, não tanto pela questão racial, mas porque o presidente negro foi conciliador com as minorias, procurou ajudar os mais fracos, os desprotegidos. Sem grandes resultados é certo. Mas numa América que endeusa o sucesso, cuja pior coisa que se pode ser é um looser, isso é mais que suficiente para gerar um caldo cultural onde fermente a vingança. Foi um voto de vingança, mas não de uma população penalizada pela desindustrialização. Foi um voto de vingança de uma América que aspira a viver como as estrelas que lhe são enfiadas pelos olhos adentro diariamente. Há que perceber o que existe em comum entre as gigantescas audiências das Kardashians e a eleição de Trump. Ambos são actos profundamente voyeuristas, no preciso sentido em que as pessoas retiram gozo de ver o bulying, a má-criação, a histeria dos poderosos. Trump foi esse símbolo feito carne. Perceber que as pessoas são atraídas pelo macho alfa, pelo buly dos reality shows, é perceber como Trump pôde exercer um tal fascínio. Este é um território diferente. Não é o território dos grandes movimentos de massa dos desempregados ou dos operários. Achar que a extrema-direita e o seu nacionalismo exacerbado possui a fórmula para fechar o descontentamento dos despossuídos da sociedade, é esquecer que esses mesmos despossuídos – bem mais na realidade – sustentam governos pró-esquerdistas na América Latina. A máquina Trump não fez mais do que traduzir os mecanismos cénicos e linguísticos dos reality shows. A agressividade do candidato, o one liner, ou seja a forma desabrida e aparentemente directa com que diz as coisas, a vontade insultuosa, são mecanismos de reality show. Não é o shark tank, um dos programas com maior audiência actualmente? Um programa em que os candidatos são tantas vezes humilhados, tratados de maneira desrespeitosa, que se apresentam como vassalos de uns tipos cheios de dinheiro que lhes passam veredictos por vezes por quantias que para os próprios são irrisórias? Isto é uma modelação (no sentido cognitivo do termo) do mundo. A extrema-direita, Trump, os negociantes que estão à frente dos governos do mundo, são o produto (e produtor) desse ethos. Trump não é um louco. Se fosse, seria de facto imprevisível. Porém, é muitíssimo previsível, e aquilo que fará será pior do que as expectativas.

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