Name and shame

Image result for make america great again

A insistência na compreensão do voto populista como um voto de desagravo, é empiricamente errada. Os textos de comunicadores de esquerda começam invariavelmente com a ideia de que devemos escutar as queixas, não devemos rotular as pessoas como estúpidas, etc (pace Daniel Oliveira). Uma ensaísta francesa, num livro sobre populismo, coloca o dedo na ferida: o populista não é um cidadão é um idiota. Esta não é uma idiotia inocente, inofensiva, é uma idiotia perversa. No seu âmago encontra-se o carácter punitivo. O discurso populista, assim como os seus apoiantes, quer punir. Minorias, povos, elites, seja o que for – a sua lógica é punitiva.

Quando se observam as grandes mobilizações populistas da extrema-direita europeia, e é preciso compreender que os populismos de esquerda e de direita não se equivalem, é difícil verificar esta fatal relação que alguma esquerda gosta de estabelecer entre os desvalidos da globalização e a canalização da sua raiva. É difícil, por exemplo, relacionar a subida ao poder de Haider na Áustria dos anos 90 com a crise económica e financeira, simplesmente porque esta não existia. É complicado associar o êxito de Geert Wilders na Holanda com as consequências da crise internacional e do desemprego. É problemático interpretar o Vlams Block como um movimento de massas desafectas da política institucional. O Pegida alemão não possui a sua base de apoio nos precários e desempregados, mas sim nos pequenos comerciantes e nas profissões liberais, tais como contabilistas e advogados. Em todos estes casos a pretendida relação empírica ou não se verifica ou só importa residualmente. O mapa recente da Áustria após as eleições presidenciais não divide precários e classe trabalhadora de uma elite liberal e universitária. Divide o rural do urbano. As pequenas localidades das grandes cidades. But, guess what, as maiores taxas de desemprego num país cuja taxa de desemprego é muita aceitável encontramo-las nas grandes cidades.

Na América, a ideia de que a alienação da elite liberal custou a eleição ao partido democrata é propalada por um homem como Bernie Sanders. Com toda a sua inteligência e brilhantismo – que tem! – cai na esparrela de repetir os mesmos termos da crítica republicana. É esse ódio ao (suposto) elitismo que os republicanos alimentaram e colheram das suas hostes. Foi com esse ódio – o drain the swamp de Trump – que arregimentaram grande parte do seu eleitorado. É preciso contrariar essa mecânica retórica, não através da sua aceitação acrítica, mas afirmando justamente a importância do que esse (suposto) elitismo contém. Neste sentido, ao invés de estendermos a mão a este eleitorado no seu terreno, é preciso confrontá-lo com a sua estupidez e cinismo. É preciso chamar estúpidos a quem acha que o aquecimento global é uma invenção dos chineses para quebrar a competitividade norte-americana. É preciso afirmar a impossibilidade actual de um pensamento anti-aborto, anti casamento gay, anti feminismo. É obrigatória a não concessão a um cada vez maior número de pessoas que age como idiotas e não como cidadãos.

Em vez de dizermos: – Não, nós compreendemo-vos na vossa infelicidade e desesperança; compreendemos que estes são os únicos canais que vocês têm para expressar a vossa raiva contra um mundo que vos abandonou – que esse sim, é o verdadeiro exercício elitista! – devemos dizer que não, não aceitamos os termos do vosso desagrado, não aceitamos a vossa formulação dos problemas do mundo, não aceitamos o vosso fascismo! Não há lugar para empatizar. Não há espaço de encontro. A necessidade de arregimentar os contingentes absorvidos pela retórica punitiva tem que ser contrariada com as mesmas armas. Com o mesmo exercício de “name and shame” que a extrema-direita elabora. Porque a estratégia punitiva da direita corresponde a um sentimento de quem tem direito ao poder, de quem não quer estar em posição de ter que discutir o poder, de tão natural que é o seu comando dessa mesma esfera. Por isso é que o politicamente correcto é ferozmente atacado, porque a este encontra-se subjacente a discussão das retóricas de sujeição que ele procura contrariar. O que irrita os conservadores no politicamente correcto não é a imposição de pautas culturais (obrigatórias?) para as suas formulações éticas; é a compulsão que este encerra para discutir, colocar em causa, combater, formas cristalizadas de poder e subordinação. Podemos nem sequer ser grandes adeptos do politicamente correcto, sem que isso nos impeça de perceber que as vagas punitivas de extrema-direita têm por fundamento uma apropriação total do poder social. Os gritos histéricos da América para os americanos, o apoio prestado a Trump pelos partidários da supremacia branca, são ferozes formas de açambarcar o poder. O que Trump trouxe, à boa maneira do patrão castigador que ele tanto gostava de envergar no famigerado show The apprentice, é essa inevitabilidade do exercício do poder. A América feita great again nada tem a ver com combater o desemprego ou elevar o nível de vida das pessoas. Tem a ver, sim, com um desejo de grandeza abstracto, com o próprio sentimento de ser grande, como o sentimento que se dirige a uma celebridade, cuja aura é inexplicável, mas que prende milhões na sua imaterialidade. Foi esse o sentimento que levou ao voto em Trump. Um voto irresponsável e caviloso que deve ser sancionado como tal, e não compreendido pelas suas causas sociais ou quaisquer outras.

Os planetas alinham-se

Image result for planets align

Fazem mal aqueles que tomam o Trump como um fenómeno de ruptura com o cinismo do centro liberal, um reequilibrador dos termos da discussão política, na medida em que diria as verdades sem os artifícios dos compromissos políticos. Destes o leque é tão alargado que junta cabeças tão diferentes quanto Zizek e Bill Burr no mesmo equívoco. Para Zizek, o novo presidente americano é a forma de radicalização que obrigaria a desencadear uma radicalização de sentido contrário. Por isso preferiu Trump a Hillary. O equívoco reside no facto de Trump não vir só. Os mesmos mecanismos do populismo que criam a ilusão do isolamento do líder que tudo pode, são utilizados na análise que se faz do potencial de ruptura que dele advém. Como seria expectável, Trump trouxe o que de pior existe no GOP; e isso sim é o que constitui verdadeiramente a ameaça.

Mais preocupante do que saber se Trump irá fazer um muro na fronteira com o México, é este ter trazido consigo um ministro da educação criacionista que pode causar real dano no sistema educativo. Mais preocupante do que Trump poder expulsar os ilegais, é o novo presidente recuperar John Bolton, o homem que ludibriou as Nações Unidas para fazer guerra contra o Iraque. Trump bem pode dizer, para encanto e regozijo dos intelectuais de esquerda, que vai devolver a indústria à América criando postos de trabalho, mas o ter ido buscar um bilionário do petróleo e do gás para ocupar a pasta da economia não augura nada de bom.

Um empresário multimilionário argentino, velho amigo de Trump, disse após a vitória do novo presidente a seguinte frase: “os planetas voltaram de novo a alinhar-se”. Parece-me que é importante ler estas afirmações como a consecução de um programa. É óbvio que o milionário argentino não se referia à astronomia, mas antes a uma constelação de ocorrências que levam os grandes senhores do dinheiro a estar muito esperançados. Por um lado, a vitória de Trump legitimará um conjunto de manobras tais como maior flexibilidade laboral, mais horas de trabalho, menos direitos sociais. Temer, o presidente golpista brasileiro já fez passar no congresso uma lei para aumentar para 48 horas o tempo de trabalho semanal e prepara-se para privatizar o pré-sal, a reserva petrolífera que serviu os governos do PT como sustentáculo da política social. Macri, na Argentina, retirou os impostos aos mais ricos e prepara-se para um programa extensivo de privatização da saúde e educação. Percebemos assim que os planetas que se alinham não respeitam apenas ao novo governo republicano norte-americano, mas sim a uma conjugação mais vasta de transformações em regimes que se encontram enredados pelas redes de negócios transnacionais. No passado,  tais transformações tenderam invariavelmente a prejudicar os mais desmunidos social e economicamente e a beneficiar os mais ricos. Há pouca margem para acreditar que com Trump será diferente.

Bad math?

Image result for trump supporters rejoicing with victory

Uma curiosa análise ganhou espaço na comunicação social depois da vitória de Trump. Esta análise parece ter algo de equivocado, sobretudo em dois pontos. O primeiro é a ideia de que os democratas não mediram o pulso da América profunda e que por isso foram apanhados desprevenidos. Uma tal análise reitera os termos do discurso republicano e serve fundamentalmente os interesses destes. O que se lhe encontra subjacente é a fantasiosa divisão entre as elites de Washington e Nova York e a rust belt norte-americana. O out of touch dos liberais bem-pensantes com a América trabalhadora. Esta análise parece pressupor que não existiria tal coisa como as primárias norte-americanas, onde milhões de pessoas são mobilizadas em cada estado e onde ambos os grandes partidos tentam arregimentar o máximo número de pessoas em processos que vão desde os grandes comícios ao porta à porta dos caucuses. Num tal contexto de arregimentação política é difícil imaginar uma máquina partidária out of touch com a realidade da rust belt.

O segundo ponto prende-se com a ideia de que foi Obama ao não solucionar os urgentes problemas dessa mesma rust belt que levou ao deplorável resultado. Esta posição é falaciosa na medida em que esses mesmos problemas foram herdados de governos bush que tinham justamente a mesma agenda que agora vai ser aplicada por Trump. Se os eleitores fossem racionais saberiam que grande parte do make america great again é mais do mesmo da era bush. Ou como dizia alguém, Trump ganhou porque tinha uma mensagem: tinha um chapéu! Se não,veja-se como Daniel Henniger do Wall street journal no artigo Trump Opportunity explica o que o novo presidente deve fazer. Ali está a agenda para a nova governação republicana: taxes, health care, energy and financial regulation. Leia-se tirar os impostos aos ricos para que estes enriqueçam ainda mais, privatizar ainda mais a saúde, destruir os limites à produção energética, e dar rédea livre aos mercados financeiros. No fundo, a receita que levou à devastação da rust belt em primeiro lugar. Se os eleitores fossem minimamente racionais saberiam fazer estas contas simples.

É claro que os moguls das sondagens, como Nate Silver, apresaram-se a dizer que sempre souberam que Hilary tinha poucas hipóteses. É óbvio que receiam perder as encomendas de milhões com as quais vivem. A verdade é que por mais geniais que sejam a manipular números há uma dimensão que não controlam: as pessoas mentem. Isso é algo que nenhuma sondagem por mais sofisticada que seja consegue controlar. Idealmente gostariam de colocar um chip na cabeça de cada cidadão que permitisse ler as suas opções em tempo real. O problema, e isso doravante vai acontecer com mais frequência, é que as pessoas aprenderam a jogar elas próprias com as sondagens. Houve um efeito, que julgo terá resultado também com o brexit, que não é contemplado (e haverá forma de o fazer?) no processo da sondagem. Refiro-me, ao que podemos chamar por falta de melhor termo, ao efeito de estigmatização opinitativa. Se é verdade que as modas, os tiques, as vontades são ditadas pela comunicação social (e a publicidade é o exemplo claro de que assim é) então quanto mais estigmatizada por essa mesma comunicação for a moda, ou a tendência, maior será a propensão para a pessoa negar publicamente que a aprova. Funciona como com o racismo, em que as pessoas nunca se dizem racistas porque existe uma norma social de desaprovação, não se compreendendo depois como emerge tanto sentimento xenófobo e anti-imigração corporizado em partidos de extrema-direita em crescimento. O mesmo para Trump. Profundamente estigmatizado pela comunicação social, as pessoas tenderam a esconder a sua aprovação: afinal seria difícil dizer que se aprova alguém que quebra os preceitos morais que a sua base defende, em relação ao sexo, à família, etc. Tomadas por uma contradição moral insanável as pessoas fizeram o que séculos de cristianismo as ensinaram a fazer: mentiram. Esta capacidade não é, nem pode ser, controlada por métodos estatísticos por mais afinados que eles sejam. É o segredo de polichinelo dos fazedores de sondagens; aquilo que eles não vão nunca admitir. Quando as sondagens passam a ser vistas como elementos reguladores externos, as pessoas reagem da mesma maneira que reagem com o estado ou com as instituições administrativas, procuram manipulá-las.  O mesmo para o brexit, as pessoas mentiram por a opção não era bem vista pelos fazedores de opinião, embora acalentassem secretamente o desejo que se veio a revelar de facto.

Trumpland

Image result for trump

A frase mais ouvida pelos opinion makers, comunicadores e intelectuais norte-americanos nas últimas semanas foi, como é que chegámos aqui? E ainda não tinham chegado. Agora que chegaram, convém dizer que a interrogação labora num erro simplista. Um erro de apreciação do mundo em que vivemos, das suas contradições e aparências.

Parece evidente, pelos dados, que a américa branca de classe trabalhadora deu a vitória a Trump. Mas os dados também mostram que Trump ganha a Hilary nas cohortes mais jovens e nas de maiores rendimentos. O que significa que a ideia de uma população desafecta da política, de classe baixa que é puxada pelo populismo não corresponde totalmente aos factos. Esta é uma justificação fácil e tem sido um erro corrente nas análises de tanto estatísticos como de comentadores de políticas. Não foi só a América red neck que deu uma vitória estrondosa a Trump – foram também os licenciados brancos, com bons rendimentos, jovens e velhos.

Quem votou em Trump foi o pequeno comerciante que foge aos impostos e que mostra orgulho por isso. Trump não vem de fora do sistema – Trump é o sistema! É claro que toda uma máquina de produzir opinião que vive do sistema e no sistema gosta de dizer que Trump não é do “establishment”. Não é a raiva ao politicamente correcto, como diz o descerebrado Henrique Raposo (sempre que se reabilita com algo minimamente inteligente logo se segue uma atoarda) que causou o apoio a Trump. Essa é uma estratégia dos republicanos mais conservadores, do Tea Party, dizer que o politicamente correcto está na origem de todos os males. É no fundo a anti-política do populismo trumpista a funcionar enquanto máquina de cobrir a realidade. Já ninguém sabe o que seja o politicamente correcto, que há muito deixou de existir. O politicamente correcto não despede pessoas, nem as arruma na prateleira porque são velhas, nem terraplana tudo por amor ao dinheiro. Mas o trumpismo sim. Há quem, como Nicolau Santos, queira ver na eleição de Trump, uma luz ao fundo do túnel – o homem se calhar não será assim tão mau, parece pensar. É a esperança que resta depois da incredulidade.

O homem é verdadeiramente mau. E não é por apalpar as gajas na pussy, é porque ele é um produto (e produtor) do neoliberalismo full throtle. Não nos enganemos, o que ganhou ontem foi o neoliberalismo mais desabrido. É por isso que não há contradição nenhuma entre a web summit e Trump, como pretende Raposo. São ambos o sistema: os valores que regem Trump são fazer dinheiro, assim como os dos neerds das apps e da economia geek. Um, pode usar o fatinho composto da moral puritana republicana (caso em que o rei ia nu da forma mais descarada possível) e os outros podem andar de havaianas e surfar em Peniche. Estão unidos por um princípio comum: enriquecerem.

Perceber Trump não é utilizar as categorias comuns do populismo. É mudá-las para o quadro de reality show que o mundo, e a experiência dele, tem vindo a assumir. Achar, por exemplo, que algo mudou fundamentalmente com o Brexit ou com a eleição de Trump que tem a ver com um eleitorado enraivecido contra a globalização e o exterior, é esquecer que os eleitorados por diversas vezes se revoltaram contra a internacionalização e o exterior: chamava-se fascismo e os discursos iniciais não eram qualitativamente diferentes do trumpismo. No entanto julgo que há diferenças que não podem ser escamoteadas.

O voto trump não é um voto contra a globalização: o homem tem negócios que vão do Japão à Argentina! O voto trump é algo que estava a fermentar – e por isso podemos falar de um fenómeno designado trumpismo – desde Sarah Palin. A esquerda gosta de dizer que as pessoas não são estúpidas. Depende do que se entende por estúpido. O que se pode concluir do não ao tratado de paz com as farc no referendo colombiano? As pessoas não são totalmente inconscientes, isso julgo que não, mas tantas vezes estúpidas e más, não vejo razão para duvidar. Vejam-se as reacções dos apoiantes de Trump quando receberam a notícia da vitória: urros, pulos, demonstrações de força. Se aquilo não é gente estúpida, não sei o que será.

É certamente gente cheia de raiva aos mais fracos. Mas num mundo que nos inunda diariamente com os exemplos de gente extraordinária – extraordinariamente bela, extraordinariamente rica, extraordinariamente talentosa – como podemos não nos querer distanciar dos mais fracos? É gente sem uma ideia de justiça. Mas num mundo que coloca os interesses individuais à frente de qualquer noção de equidade, quem pode reclamar uma ideia de justiça? É gente que precisa desesperadamente de ser grande. Mas num mundo asfixiado pelas histórias individuais vomitadas copiosamente nas páginas da net, quem duvida do narcisismo mais infantil?

Trump é a combinação desses factores. Não é a rust belt que de repente se ergueu contra as elites de Filadélfia; tão-pouco os red necks contra os snobs das universidades de Nova York! Nem sequer a negação do sonho americano, como alguns democratas gostavam de dizer. Trump é o sonho americano. O mais acabado exemplo do que quer dizer o sonho americano. Porque o sonho americano nunca foi a igualdade e justiça. O sonho americano está bem representado pelo homem que tem uma torre com o seu nome. O sonho americano constrói-se em torno à homenagem histérica à bandeira e ao hino, que vai dos democratas aos republicanos, e que faz com que os americanos nunca consigam sair dum centro de gravitação ultra-nacionalista que só precisa do combustível certo para fazer combustão.

Há uma parte certa na análise que vê esta vitória esmagadora como uma vingança contra um presidente negro. Porventura, não tanto pela questão racial, mas porque o presidente negro foi conciliador com as minorias, procurou ajudar os mais fracos, os desprotegidos. Sem grandes resultados é certo. Mas numa América que endeusa o sucesso, cuja pior coisa que se pode ser é um looser, isso é mais que suficiente para gerar um caldo cultural onde fermente a vingança. Foi um voto de vingança, mas não de uma população penalizada pela desindustrialização. Foi um voto de vingança de uma América que aspira a viver como as estrelas que lhe são enfiadas pelos olhos adentro diariamente. Há que perceber o que existe em comum entre as gigantescas audiências das Kardashians e a eleição de Trump. Ambos são actos profundamente voyeuristas, no preciso sentido em que as pessoas retiram gozo de ver o bulying, a má-criação, a histeria dos poderosos. Trump foi esse símbolo feito carne. Perceber que as pessoas são atraídas pelo macho alfa, pelo buly dos reality shows, é perceber como Trump pôde exercer um tal fascínio. Este é um território diferente. Não é o território dos grandes movimentos de massa dos desempregados ou dos operários. Achar que a extrema-direita e o seu nacionalismo exacerbado possui a fórmula para fechar o descontentamento dos despossuídos da sociedade, é esquecer que esses mesmos despossuídos – bem mais na realidade – sustentam governos pró-esquerdistas na América Latina. A máquina Trump não fez mais do que traduzir os mecanismos cénicos e linguísticos dos reality shows. A agressividade do candidato, o one liner, ou seja a forma desabrida e aparentemente directa com que diz as coisas, a vontade insultuosa, são mecanismos de reality show. Não é o shark tank, um dos programas com maior audiência actualmente? Um programa em que os candidatos são tantas vezes humilhados, tratados de maneira desrespeitosa, que se apresentam como vassalos de uns tipos cheios de dinheiro que lhes passam veredictos por vezes por quantias que para os próprios são irrisórias? Isto é uma modelação (no sentido cognitivo do termo) do mundo. A extrema-direita, Trump, os negociantes que estão à frente dos governos do mundo, são o produto (e produtor) desse ethos. Trump não é um louco. Se fosse, seria de facto imprevisível. Porém, é muitíssimo previsível, e aquilo que fará será pior do que as expectativas.