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Novos-velhos racismos

Junho 30, 2016

O que têm em comum os insultos aos portugueses na Inglaterra pós-brexit e a rotulagem de “nojento” ao futebol da selecção portuguesa aplicada pelo jornal francês 20 minutes? São duas expressões de populismo xenófobo que as invocações identitárias essencialistas com facilidade produzem. Que o brexit foi em larga medida motivado por essas pulsões é demonstrado pela campanha orquestrada por Farage e o UKIP. Mas de forma quase automática o sentimento nacionalista extremado transmuda-se na mais desbragada xenofobia. Com efeito, ontem cidadãos da União Europeia pertencendo ao interior das fronteiras que este estatuto definia; hoje, párias no reino reclamado da Inglaterra – assim se transformaram os cidadãos portugueses da noite para o dia.

O termo “nojento” não é usual como qualificação da forma como se joga futebol. Este dégueule (nojento em calão como diminutivo de dégueulasse) não tem a ver com estratégia ou táctica futebolística. Surge, certamente, no seio da sobranceria dos franceses perante outros povos, neste caso os portugueses. O que repugna ao plumitivo não é a táctica de Fernando Santos – essa podia-se designar por falhada, desinteressante, medrosa, pouco inspirada, eu sei lá: mas não por “nojenta”. O alvo são obviamente os portugueses. Como numa confusa mistura de campos semânticos, os significados atribuídos a um objecto (o futebol) rapidamente resvalam para o seu verdadeiro alvo (as origens dos futebolistas).

Do outro lado da Europa, estudantes portugueses em Erasmus na Polónia são insultados e agredidos. Dizem que a razão foi serem confundidos com muçulmanos. Naturalmente que se os estudantes portugueses são confundidos com muçulmanos, também o seriam os espanhóis, os italianos ou os gregos. Pouco interessa as razões subjacentes a estes casos. Podendo ser diversas, revelam uma constância notável nos seus efeitos. O eixo comum parece ser a fenotipia. Ou seja, a raça. É o regresso da raça e das suas colagens fenotípicas. Mostra bem como os seus significados são voláteis e como se reconstituem depressa. Julgando nós que quando assestamos essa generalização comum de “os pretos isto ou aquilo” estamos a salvo de constituirmos o alvo de intenções racistas, esquecemos que estas não são constantes nos seus significantes e marcadores. Esta nova forma para dizer: – Se é mais escuro, na dúvida é muçulmano… ou romeno… ou búlgaro! Seja qual for o referente de origem o que ela invoca é uma associação directa entre cor e pertença. Ora esta não se faz sem ter uma geografia precisa onde se basear. A velha distinção entre o norte e o sul parece estar a ser reactivada. O que coloca de facto um problema grave não apenas na relação da Europa com os seus “outros” externos, mas também na relação desta e os seus “outros” internos. Pensávamos nós que décadas de trabalho ideológico a criar uma identidade europeia fossem resistentes a tendências racializadoras que constituíram sempre parte da história europeia. A evidência nega o desejo de progresso.

Esperemos que os escurinhos do sul dêem nos cornos dos branquinhos polacos mais logo ao final do dia.

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