Novos-velhos racismos

O que têm em comum os insultos aos portugueses na Inglaterra pós-brexit e a rotulagem de “nojento” ao futebol da selecção portuguesa aplicada pelo jornal francês 20 minutes? São duas expressões de populismo xenófobo que as invocações identitárias essencialistas com facilidade produzem. Que o brexit foi em larga medida motivado por essas pulsões é demonstrado pela campanha orquestrada por Farage e o UKIP. Mas de forma quase automática o sentimento nacionalista extremado transmuda-se na mais desbragada xenofobia. Com efeito, ontem cidadãos da União Europeia pertencendo ao interior das fronteiras que este estatuto definia; hoje, párias no reino reclamado da Inglaterra – assim se transformaram os cidadãos portugueses da noite para o dia.

O termo “nojento” não é usual como qualificação da forma como se joga futebol. Este dégueule (nojento em calão como diminutivo de dégueulasse) não tem a ver com estratégia ou táctica futebolística. Surge, certamente, no seio da sobranceria dos franceses perante outros povos, neste caso os portugueses. O que repugna ao plumitivo não é a táctica de Fernando Santos – essa podia-se designar por falhada, desinteressante, medrosa, pouco inspirada, eu sei lá: mas não por “nojenta”. O alvo são obviamente os portugueses. Como numa confusa mistura de campos semânticos, os significados atribuídos a um objecto (o futebol) rapidamente resvalam para o seu verdadeiro alvo (as origens dos futebolistas).

Do outro lado da Europa, estudantes portugueses em Erasmus na Polónia são insultados e agredidos. Dizem que a razão foi serem confundidos com muçulmanos. Naturalmente que se os estudantes portugueses são confundidos com muçulmanos, também o seriam os espanhóis, os italianos ou os gregos. Pouco interessa as razões subjacentes a estes casos. Podendo ser diversas, revelam uma constância notável nos seus efeitos. O eixo comum parece ser a fenotipia. Ou seja, a raça. É o regresso da raça e das suas colagens fenotípicas. Mostra bem como os seus significados são voláteis e como se reconstituem depressa. Julgando nós que quando assestamos essa generalização comum de “os pretos isto ou aquilo” estamos a salvo de constituirmos o alvo de intenções racistas, esquecemos que estas não são constantes nos seus significantes e marcadores. Esta nova forma para dizer: – Se é mais escuro, na dúvida é muçulmano… ou romeno… ou búlgaro! Seja qual for o referente de origem o que ela invoca é uma associação directa entre cor e pertença. Ora esta não se faz sem ter uma geografia precisa onde se basear. A velha distinção entre o norte e o sul parece estar a ser reactivada. O que coloca de facto um problema grave não apenas na relação da Europa com os seus “outros” externos, mas também na relação desta e os seus “outros” internos. Pensávamos nós que décadas de trabalho ideológico a criar uma identidade europeia fossem resistentes a tendências racializadoras que constituíram sempre parte da história europeia. A evidência nega o desejo de progresso.

Esperemos que os escurinhos do sul dêem nos cornos dos branquinhos polacos mais logo ao final do dia.

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Worstward Ho (Pioravante, marche)

O Brexit venceu. Duas análises que têm tanto de curioso como de aberrante correm em paralelo pela mão de alguns políticos portugueses. A primeira é a versão da esquerda que afirma que os britânicos fizeram uso da democracia para afirmar a sua soberania. Note-se que esta leitura não está assim tão longe da retórica dos meios mais conservadores. Modifica-se, contudo, no que respeita aos valores subjacentes a defender. Para esta versão, os britânicos reclamaram a sua autonomia contra o jugo draconiano da União – autonomia para gerirem a sua política social e para evitar o garrote das políticas monetárias europeias. Pensar que o brexit foi motivado por questões de justiça social eventualmente tripudiadas pelo diktat europeu é de uma ingenuidade tocante. Só uma arreigada convicção no poder do povo enquanto poder (sempre!) emancipatório é que pode moldar qualquer análise a esta conclusão relativamente ao brexit. É claro que esta filtragem negligencia sistematicamente formas populares como os fascismos e movimentos conservadores religiosos, por exemplo, que nada têm de emancipatório.

A segunda versão chega do lado conservador. É mais tenebrosa e podemos encontrá-la sendo enunciada por pessoas como Nuno Melo, o eurodeputado do CDS-PP. Para este o brexit é o reflexo de identidades nacionais manietadas pelo federalismo forçado da União Europeia que não soube conter-se enquanto projecto de cooperação. Esta visão é tenebrosa porque ela é em boa verdade a visão partilhada pela larga maioria do parlamento europeu sob a égide do partido popular. Nuno Melo diz-se europeísta mas enjeita determinado o federalismo que vê emergir nas tendências actuais da União. É uma afirmação exdrúxula. Pois o que pode ter a União que a separe dum mero convénio entre nações que não seja estruturas semi-federalistas ou parafederalistas? Eis enunciado por Nuno Melo o ácido que corrói a União. Eis a expressão acabada do programa do partido popular, coveiro dissimulado da União. Eis também como esses mesmos coveiros repetem as ambiguidades destrutivas de intentos parafederalistas antigos. Também as Luzes se pensaram soluções parafederalistas com a Paz Perpétua de Kant e acabaram, como num processo de consequências não intencionadas, a reafirmarem de formas essencializadas as identidades nacionais. Não é pois o que faz Nuno Melo quando diz que cada nação tem a sua identidade que não pode ser esmagada por um projecto comum? O que é isto senão uma ontologização quasi-genética das identidades nacionais? Como poderíamos esperar resultados diferentes se as pessoas que se encontram defronte do destino da União são os seus principais detractores? Certo é que foram os povos da Europa que os escolheram, numa demonstração de cínica lealdade ao projecto europeu retirando-lhe através dos mecanismos que ele próprio concede a sua capacidade legitimatória. Não foi isso que fez Cameron ao convocar o referendo?

Por isso o brexit, pese as boas intenções transformativas da esquerda, não anuncia nenhum projecto emancipatório. A sua expressão é de um típico processo de retirada do lado mais rico do conjunto mais pobre. Como os movimentos secessionistas na Bélgica, com os Valões a serem a parte mais rica e por isso a quererem a independência. Ou não tivessem vindo as reacções de apoio e de partilha das mesmas intenções da parte do clube dos ricos: Suécia, França, Holanda, Itália. Portanto a Europa parte, mas não do lado dos pobres, daqueles que realmente sofrem o jugo dos países dominantes. Quebra-se pela força dos ricos.

As razões encontram-se subjacentes às declarações de Gert Wilders ao exigir um referendo holandês. Por um lado, retomar o controlo do próprio orçamento, ou seja, deixar de contribuir para o bolo europeu; por outro lado, o controlo da política de imigração, ou seja, fechar as fronteiras aos imigrantes e refugiados. Estas foram, em essência, as duas linhas de força do brexit. Representam um sentimento anti-solidário e de fechamento nacionalista. Ora os ingleses não estavam sob um programa de reestruturação que lhes impusesse duros cortes; não eram vítimas de políticas draconianas de ajustamento. Escolheram sair somente por estas duas razões: deixar de contribuir para os restantes países europeus e proteger a sua Albion das hordas de bárbaros que se acumulam às suas portas. Por conseguinte, por muitas razões que existam para reformular a União Europeia e inclusivamente abandoná-la, estas são seguramente as mais erradas.

O império da bazófia

E a selecção lá partiu, em meio de grande alvoroço, com fanfarras a acompanhar e meninas histéricas a desejarem boa sorte ao seu capitão. E lá chegou – fez uma triste figura com a Islândia e prepara-se para um embate mortal com a Áustria que desfeito que foi a entent austro-húngara logo no primeiro encontro tem agora que comer a relva se quiser aguentar-se em lugar recomendável.

Custa no entanto ver o tempo e esforço – e sobretudo o dinheiro – que se desperdiça em torno de uma ilusão. Quem nos tivesse visto jogar contra a Inglaterra em jogo de preparação perceberia imediatamente que o caminho não iria ser fácil, quanto mais dar-mo-nos ao luxo de almejarmos ser campeões. Não sei se foi erro de cálculo ou pura bazófia. Seja como for, a péssima prestação evidenciada ainda nem há muito no mundial do Brasil aconselharia mais cautela e contenção. Assim não foi. Mais uma vez partimos para ceuta com grande algazarra e peito inflado de campeões ad hoc. E mais uma vez levámos logo pela proa com Alcácer Quibir ficando numa espera inconsolável que o nosso capitão Ronaldo ressurja por entre o nevoeiro como o melhor do mundo.

Há quem diga que os portugueses são de extremos. Assim como embandeiram em arco à mínima coisa, com a primeira desfeita caem num pessimismo crítico sem apelo. Acho que é mais um daqueles mitos, como o dos brandos costumes. Acontece que o pessimismo crítico não é um tique de um povo mas antes uma bem objectiva atitude perante a cagada que foi a selecção. Objectivamente não mostrámos respeito pelo adversário, que as nossas estrelinhas trataram como amadores; não nos esforçámos para ganhar como tenho visto a França e a Inglaterra fazerem nos seus dois últimos embates; e portámo-nos como iniciantes de cabeça perdida para quem levar um bigode da Islândia seria macular de tal forma o ego que seria preferível o suicídio. E isto não obstante termos defrontado aquela que até agora demonstrou ser a equipa mais fraca do Europeu. Objectivamente.

O problema é de gestão de expectativas. Já tínhamos visto isto no Brasil: à mínima contrariedade a equipa desmorona-se. Isto porque o exagero em torno do seu valor é tão grande que o erro torna-se fatal para um carisma construído com cuspo e esparadrapos. Não teria sido mais prudente manter o discurso com que se iniciou esta campanha? Ou seja – temos ambição mas não somos os favoritos. De repente, damos 7 a 0 a uns mortos de fome da Estónia e autorizamo-nos a dizer que vamos ser campeões! Mas que delírio! Que fanfarronice! Não vimos nós que no jogo contra a Inglaterra estávamos a levar um baile de início e que a expulsão de Bruno Alves foi no final de contas providencial porque permitiu ter um bode expiatório para a má exibição? E que dizer de a Islândia jogar como uma equipa pequena, nas palavras de Ronaldo, quando Portugal não saiu do seu meio-campo em 70% do jogo contra a Inglaterra?

Exagero, portanto. Hinos, canções de galvanização, directos televisivos obsessivos. Um enfardar de selecção para tão pouco futebol. Estamos perante um caso acabado de excesso simbólico: em que temos mais selecção (mito) do que futebol (real). Quando assim é, os desencontros entre os dois termos provocam sempre catarses que geralmente redundam em intensas frustrações.

Espero sinceramente que Portugal vença a Áustria amanhã. Mas gostava igualmente de ver um ganhar de consciência que o princípio da realidade (com que temos chocado frequentemente) deveria impor.

Brexit: uma reflexão não económica

O brexit tem sido analisado nas suas consequências económicas como prefigurando uma catástrofe financeira de proporções épicas para a Europa. As bolsas, apenas com o aproximar da possibilidade, dão sinais de nervosismo e imprevisibilidade. O outro lado, uma faceta geopolítica menos debatida, mas com afloramentos diversificados pelos comentadores, coloca a implosão do Reino Unido como quase certa, com a independência da Escócia. Razões que têm sido analisadas pelos mais diversos protagonistas do mundo da opinião.

Mas o Brexit tem uma consequência menos espalhafatosa e que no entanto atinge, a meu ver, a União Europeia no seu âmago administrativo e organizacional. Em tempos fiz referência ao papel ambíguo que a Inglaterra assumira para si própria no seio da União. Parte dessa ambiguidade residia no facto de demonstrando esta sempre uma condição periclitante enquanto membro possuía, todavia, uma posição quase hegemónica na sua arquitectura. Em larga medida essa posição decorria da competência linguística.

É certo que o inglês constitui uma espécie de língua franca de comunicação entre os povos, e que poderia continuar a ser a via media para os entendimentos europeus. Contudo, havia uma regra de ouro que era as línguas dos países mais populosos da Europa servirem como línguas oficiais das instituições europeias. Tínhamos assim que o francês e o inglês eram as línguas obrigatórias do funcionamento e profissionalização das suas instituições. Logo a seguir vinha o alemão como terceira opção. A questão do domínio europeu através da língua não é estranha a este sistema – os países dominantes imporem a sua língua, sempre foi uma das estratégias imperialistas. Compreende-se que as três línguas oficiais da UE sejam o inglês, francês e alemão – por esta ordem – quando os seus falantes representam de facto 42% do total da população europeia. Mas como pode toda a produção e comunicação organizacional europeia funcionar em inglês quando o único país que terá essa língua como oficial será a pequena Irlanda com os seus pouco mais de quatro milhões e meio de habitantes, ou seja, 0,9% da população da Europa? O que impede a Itália de reivindicar o italiano como língua oficial na medida que passa a ser o terceiro país mais populoso da Europa, logo a seguir à Alemanha e à França? E se o inglês continuar a ser a principal língua institucional, o esperanto da comunicação europeia, o que impede Portugal de reclamar o português como sendo objectivamente mais representativo da população europeia do que o inglês?

A questão da língua está longe de ser de somenos para as dinâmicas da arquitectura europeia. Era justamente devido à centralidade do inglês nas suas instituições que, não sendo os ingleses os trabalhadores com maior representação (esses são os belgas) eram geralmente dos melhores colocados. A necessidade de ter a produção oficial em inglês fazia com que a competência linguística natural destes constituísse uma mais-valia para os serviços. Com a brexit não é apenas 3,8% de todos os funcionários da EU que regressam a casa – é um segmento particularmente bem colocado em lugares-chave das suas instituições.

Por outro lado, há todo um bloco que reivindica uma maior proximidade ao alemão, os países da Europa central, para quem a língua dos negócios, pela penetração alemã nas suas economias, é o alemão. É o caso da Polónia cujas línguas secundárias nunca foram o inglês ou o francês, mas sim o alemão e o russo. Como continuar a dizer que o inglês deve ser a língua hegemónica quando a maioria da população da Europa se encontra justamente na Europa central e de Leste?