Skip to content

Crónica de uma morte anunciada – ou como a esquerda (também) colocou a direita no poder.

Maio 14, 2016

A situação a que Dilma chegou não se deve apenas ao ataque desabrido dos grupos conservadores. Uma quota-parte do desgaste no governo mais impopular de todos os tempos no Brasil (10% de aprovação no mês de Abril) deve-se à esquerda brasileira. É facto que as movimentações de apoio a Dilma, o ganhar a rua, como lhe chamam os intelectuais orgânicos do PT, são fomentadas pelos movimentos de base da esquerda com implantação nos sectores sociais e do trabalho. Mas estas acontecem como manobra de desespero – ou seja, depois de porta arrombada…

Há quem especule sobre a iminência de uma guerra civil no Brasil que oporia a esquerda à direita nas ruas. Não creio que chegue a tanto. A mobilização não tem sido tão significativa quanto se esperaria. Mas quando se compara as manifestações pró-dilma com as manifestações pró-impeachment, fica a nu uma fractura evidente na sociedade brasileira. De um lado, negros, trabalhadores e sectores sociais desfavorecidos, geralmente de extracção rural; do outro brancos, classe média e média-alta e sectores urbanos do pequeno comércio. A segmentação era real e foi explorada pelos dois governos Lula.

Com efeito, a base social de apoio de Lula esboroou-se nos governos Dilma. Ou pelo menos perdeu a sua intensidade, fragmentando-se em diversos movimentos críticos aos governos da presidenta. Por isso o golpe, como lhe chamam, e a meu ver bem, os apoiantes do PT, beneficiou numa medida não despicienda do próprio trabalho de erosão dos movimentos sociais. É facto que o recuo em algumas causas que eram bandeira dos governos Lula provocou o descontentamento. É certo que as concessões que Dilma foi obrigada a fazer a um congresso que a viria a depor como agora assistimos, também geraram descontentamente nos sectores mais progressistas da sociedade brasileira. Contudo, uma radicalização fomentada pelas conquistas dos dois governos anteriores e pelo espaço político obtido pelos movimentos sociais fez muito pela quebra do pacto social herdado da era Lula. Começou com o movimento passe livre em São Paulo, com a esquerda universitária, urbana, dos jovens da esquerda à esquerda do PT a exigirem aquilo que actualmente surge como uma efabulação do acesso aos serviços – transportes públicos gratuitos. O movimento tem tanto de estranho como de extemporâneo quando se pensa que por trás dele estavam os jovens universitários das universidades públicas maioritariamente de classe média e alta. Alastrou com as manifestações contra a copa. Quem não se lembra da mobilização pedestre com pessoas a empunharem cartazes a pedirem hospitais públicos melhores em vez de gastos na copa? Desta vez, a mobilização já foi aproveitada pela direita, e mais ainda pela extrema-direita, infiltrada nestas demonstrações de desagrado contra toda a evidência: estaria a direita preocupada que não se gastasse dinheiro em fazer hospitais públicos? Por isso a radicalização do protesto contra Dilma foi rapidamente aproveitada pela oposição política; julgo ter sido aí que a sua deposição teve início.

Não devemos esquecer, como é óbvio, os casos do mensalão e do petrolão, com as inúmeras denúncias de corrupção. Mas aí a incidência de casos é de tal forma transversal às forças políticas que o protesto dificilmente poderia ser assestado apenas contra o PT de Dilma. Quer isto dizer que a culpa na realidade foi da esquerda e que com quem ferros mata com ferros morre? Não. Mas significa que aquilo que foi uma base de apoio sólida para Lula retirou o seu suporte ao governo Dilma e este viu-se entre dois fogos cruzados. Não podendo manobrar sem o apoio da base social e obrigada a fazer concessões à direita evangélica por definição do estranho xadrez político brasileiro dos últimos tempos – o bicamaralismo que tornou Dilma refém de Temer e do PMDB – a presidente foi perdendo apoios e a sua autoridade foi sendo alienada quer à esquerda quer à direita.

Houve uma peça fundamental no meio deste tiroteio – a mídia. Com diversos focos de insatisfação a percorrerem o país, a mídia foi instrumental para amplificar o seu impacto. Em grande medida a tese de que a mídia deliberadamente sabotou as tentativas de equilíbrio político corresponde à verdade. Órgãos como a revista Veja e as subsidiárias do grupo editorial a que esta pertence são veículos de propaganda contra o PT e nada têm a ver com jornalismo isento e de qualidade. Apenas um pequeno exemplo, é ler o post anterior que está abaixo. A campanha de assassinato de carácter da presidenta não teve precedentes, nem com Lula. E se as tentativas de humilharem Lula aquando da sua presidência eram numerosas, o forte respaldo dos movimentos sociais contra-atacava por outros meios, como as redes sociais, e reequilibrava o campo de batalha. Com Dilma esse apoio foi tardio. E surge já no declínio.

A retracção do Estado, a que foi obrigada pelo fiscalismo das suas políticas, levou ao descontentamento de um leque de clientelas que ascendera dos movimentos sociais de base à máquina do Estado. Lula integrara judiciosamente os “intelectuais orgânicos” do PT – provenientes dos sindicatos, dos movimentos sociais e associativos – na arquitectura do Estado. Dilma, acossada pela direita, retirou alguma da penetração do Estado nestes mesmos movimentos. E isso custou-lhe apoios à esquerda que na verdade não soube fazer concessões em momentos em que seria importante fazê-las.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: