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A vida severina da direita brasileira

Abril 12, 2016

Rovena Rosa / Agência Brasil

O golpe brasileiro é a expressão de uma mudança fundamental no clima político. Que não acha dúvidas de que se trata de um golpe, e que o impeachment não é mais do que uma manobra pretensamente legal para reverter a mudança global, poder-se-ia mesmo dizer, a deslocação tectónica, que os mandatos de Lula e Dilma operaram no Brasil.

Jennifer Hochschild, no seu estudo sobre a inexistência de pensamento socialista nos Estados Unidos da América concluía que os americanos valorizavam a igualdade política, mas não a igualdade económica. Segundo ela, a esfera cultural valorizava sobretudo a meritocracia o que tornava problemático formulações do tipo de crítica da desigualdade. Hochschild ficava então pela ideia de um pensamento ambíguo que não conseguia enunciar o protesto pela desigualdade. Os críticos apontaram o facto do estreitamento político entre a oferta existente, e que esse seria um aspecto mais fundamental do que a matriz cultural impeditiva. É isso que o discurso de Bernie Sanders vem abrir dando razão aparentemente aos críticos de Hochschild. Ora o que se passou no Brasil possui semelhanças com a abertura actualmente efectuada por Sanders. O ambiente político, discursivo e reivindicativo que emergiu com os governos do PT permitiu enunciar as questões fundamentais da sociedade brasileira em termos de desigualdade, de injustiça distributiva e de abertura do horizonte de possibilidades de uma fatia da população até aqui excluída dos mecanismos redistributivos. Se quisermos, utilizando as categorias de Nancy Fraser, permitiram uma reorganização das ordens da distribuição e do reconhecimento. É claro que isso só foi possível em virtude do crescimento económico. Mas este poderia ter tido um destino diferente.

A questão da corrupção no seio do PT é contudo uma falsa questão. A informação aponta que no lavajato tanto estão envolvidos membros do PT como do PSDB e do DEM, algo em que a circulação noticiosa não insistiu muito deixando entrever a sua dimensão de manipulação. Por exemplo, quando se noticiou que Jorge Zelada, acusado de corrupção, foi preso, não se acrescentou que o vice-presidente da Petrobrás pertencia à quota do PSDB, o partido que quer fazer cair o governo de Dilma. Assiste-se actualmente no Brasil a uma reorganização das forças da direita contra a irrigação do tecido social pelos temas da justiça e da participação de uma fatia cada vez maior da população. Esta é evidenciada pelo número crescente de organizações da sociedade civil, envolvidas em lutas diversas, de cariz identitário, redistributivo, anti-opressão, etc. É certo que isto é uma tendência que vinha a ser consolidada desde a viragem democrática. Mas ela conheceu um ímpeto invulgar nos mandatos de Lula. É certo também que a participação do Estado neste movimento não é negligenciável: de tal forma que podemos mesmo afirmar que sem o Estado a alicerçá-los uma tal disseminação não teria sido possível. Significa então que os mandatos Lula e Dilma resolveram os problemas da desigualdade e violência no Brasil? Longe disso. Mas o que eles conseguiram foi uma coisa de certa forma inédita até então: contrariar o fenómeno da “invisibilidade da desigualdade brasileira” como o denominou o sociólogo Jessé Souza. Questionar os velhos mecanismos de reprodução de uma sociedade profundamente elitista, ancilosada na distribuição do poder, e culturalmente tradicionalista (pese embora as aparências do contrário) foi o que se conseguiu trazer para a esfera pública, numa miríade de movimentos sociais, com agendas abertamente progressistas e emancipadoras.

Estancar esta tendência é uma pretensão maior da elite de direita brasileira. Uma aliança entre os terratenentes e a direita evangélica começou a ser forjada no espectro político brasileiro. Os governos PT mexeram verdadeiramente com interesses instalados. Por exemplo, o programa de redistribuição de terras implementado por Lula confrontou directamente os interesses dos grandes senhores de latifúndio. A iniciativa do ProUni, o programa nacional de bolsas de estudo para o ensino superior, afrontou a elite branca, com exclusividade nas grandes universidades federais que se viu em algumas instâncias preterida em relação a alunos negros e pobres. O programa Minha Casa Minha Vida, primeiro arremedo de um plano de habitação social a nível nacional, contraria a velha disposição urbana latino-americana da propriedade como marcador de estatuto, dos bairros de luxo contra as favelas. E finalmente, uma aproximação dos pobres, através dos mecanismos redistributivos geridos pelo Estado, a uma classe média em ascensão, o que baralha a hierarquia estatutária institucionalizada culturalmente.

Em períodos de redução da riqueza, como aquele que o Brasil atravessa, como outros países produtores de petróleo, o bolo torna-se mais pequeno. A direita brasileira, a elite possidente, reclama o mesmo quinhão de antigamente. Mas para que isso aconteça é preciso que os mecanismos redistributivos sejam também revertidos. Afinal de contas a massa de capital disponível depende da intensidade da extracção que o Estado sobre ela efectua. O que a direita brasileira quer apressar é a impossibilidade de Lula da Silva ser presidente em 2018 e essa redistribuição continuar. Cenário improvável perante o ataque concertado do jurídico e da oposição? Nem por isso. O datafolha dá como cenário mais provável uma vitória de Lula em 2018! Na sua peugada vem Marina Silva, que surge empatada com o ex-presidente em diversos cenários. É isto que a oposição teme. Por isso quer acelerar o processo de impeachment antes que venham os Olímpicos e as atenções se dispersem pelas proezas competitivas. Se não conseguir destituir Dilma através do jurídico, dando assim tempo à elite para se reconstituir e manobrar a opinião pública tomando de novo o aparelho de Estado, revertendo políticas e intenções, então é provável que Lula chegue novamente ao poder. O dilema da oposição é que por mais campanha negativa e de desgaste do PT não consegue ter um candidato que surja favorável aos olhos do eleitorado. Aécio Neves, o possível candidato do PSDB, surge sempre me terceiro lugar, sendo que outros candidatos do PSDB ainda obtêm resultados piores nas intenções de voto.  Sem impeachment a vida da direita torna-se severina para os próximos anos.

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