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É só porrada e mau viver!

Abril 8, 2016

Um ministro deve ter alguma cautela na maneira como se dirige aos seus concidadãos em espaços comunicacionais públicos como as redes sociais. Deslizes são formas comportamentais difíceis de controlar, sobretudo quando gerados por reacções emocionais de desconforto ou humilhação. Mas homens com a experiência institucional de João Soares têm obrigação de saber suster os seus ímpetos mais cavernícolas, sabendo de antemão que estão sob forte escrutínio dessa coisa “com penas” designada por opinião pública. Essa coisa não constitui nem o âmago da esperança (hope is the thing with feathers, dizia a boa da Emilly Dickinson) nem da moral. É simplesmente um vontade amórfica que se pronuncia em multiplicado crescendo. Dito isto, não estou de acordo com as reacções de opróbrio emitidas por grande parte dessa mesma opinião perante a inopinada atitude caceteira de João Soares. Assim como não estou de acordo quando Daniel Oliveira diz que quando um ministro oferece bofetadas, mesmo que salutares, é o Estado que está a ameaçar com violência física a liberdade de expressão. Que exagero que para aqui vai!

As intonações oitocentistas da objurgatória de João Soares não passaram despercebidas. Oferecer bofetadas é coisa de cenários camilianos, de parlamentos idos onde a honra se lavava através dos acetinados dedos de uma luva ou na ponta do pingalim.  Nesse sentido, o gesto soarista é profundamente anacrónico e destoa de tempos em que a maledicência, embora contumaz, escolhe os seus recados cínicos dentro de um registo que se diria civilizado. Contudo, as crónicas que moveram João Soares ao desabrido confronto não são meigas e muito menos acanhadas no insulto. Se foi o Estado que ameaçou com violência física os colunistas, como quer a tese de Daniel Oliveira, poderíamos, mutatis mutandis, dizer que foi a comunicação social que enxovalhou um cidadão no seu papel de figura pública. Dizer que não se tem “qualquer respeito nem como homem nem como político”, como diz Pulido Valente sobre Soares implicaria, num cenário transparente, que do outro lado também não viesse qualquer respeito. E foi o que aconteceu. Da mesma forma, a crónica de A.M. Seabra, apelida J. Soares de grosseiro e incompetente. E ele respondeu à letra, provando a sua grosseria.

Porquê então o cenário de profunda consternação social e política que se montou em torno do incidente? Pacheco Pereira há muito que reflecte sobre o assunto levantando a questão da desprotecção das figuras públicas perante a sanha da comunicação social. Diria que o campo está de facto desequilibrado, o que leva a que políticos e responsáveis se enrolem em trejeitos e estratagemas para nada dizerem.  Um linguajar para a comunicação social que nada tem de transparente e muito menos honesto. Havia qualquer coisa de salutar naqueles delírios comportamentais oitocentistas. A esfera pública era mais aberta; um tu-cá-tu-lá entre políticos e cronistas fazia estas posições quase indistintas. O poder actual dos media não é para brincadeiras. A velha frase de Jorge Coelho segundo a qual “quem se mete com o PS leva”, pode bem ser reformulada para “quem se mete com os media leva”. E dito isto, conclua-se que se sou a favor dos cronistas poderem usar a sua liberdade de expressão para criticarem, também sou a favor de um ministro poder dizer que dá um par de chapadas num deles. Questão de poder desigual, dirão alguns. Sem dúvida – sobretudo da parte dos media. Que não reste dúvidas que eles são hoje bem mais poderosos do que qualquer Estado. Afinal demitiu-se um ministro por causa de um par de lambadas retórico.

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