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O ecumenismo do novo presidente

Março 13, 2016

Sendo certo que a concórdia entre religiões constitui um desiderato importante, devemos perguntar-nos porque é ela um desígnio do Estado, e da mais alta figura institucional desse mesmo Estado? Oficializar, no dia da sua tomada de posse, um encontro entre todas as religiões com representação em Portugal significa dar um destaque ao campo religioso que dificilmente se compreende em tempos e contextos de Estados laicos. Há, neste acto, dois aspectos geradores de equívocos que me parecem perigosos. Primeiro, a tentação de estabelecer uma analogia entre a concórdia religiosa e política. O que Marcelo fez na mesquita de Lisboa foi o equivalente do seu desejo de consensos entre as forças políticas. Primeiro equívoco: a religião é o campo do dogma e não da discussão pluralista. Se melhor exemplo não houvesse, veja-se o cuidado colocado na escolha das palavras lidas pelos respectivos representantes das confissões religiosas: cada excerto correspondia da melhor forma possível ao arco de significado da religião de quem o lia, “para que não fossem feridas susceptibilidades” – disse o comentador. E se fossem feridas susceptibilidades? Esta é a primeira grande diferença: no campo político é suposto ferir-se susceptibilidades porque a sua linguagem é a do confronto. No campo religioso, existe um espartilho de significado que passa pela impossibilidade de negar os seus dogmas centrais. Neste sentido, para ser um exercício verdadeiramente pluralista teria que se juntar um ateu que perante a afirmação repetida em uníssono de “Deus é o nosso criador”, recusasse esta identificação negando a existência de um qualquer criador. Foi por isso confrangedor ver numa cerimónia de tomada de posse de um presidente de uma república laica um cortejo de indivíduos a jurarem a sua fidelidade ao seu criador. A intenção do diálogo inter-religioso pode até ser meritória, mas será que merece esse destaque no funcionamento do Estado e da República ao ponto de se criar uma identificação directa entre a figura presidencial e a fé?

O segundo equívoco prende-se com a ideia segundo a qual os conflitos e as dissensões se resolvem com profissões de fé. A mensagem é a seguinte: partilhamos todos o mesmo espaço por isso aquilo que nos une é maior do que o que nos separa – a lógica da communitas cristã assenta que nem uma luva. A analogia foi sobejamente utilizada no discurso do presidente. Esse mesmo espaço não é para a situação presidencial ou para o político o mesmo da religião, que parece, no caso vertente, bordejar um certo humanismo fideísta. Então o que é o espaço, para o caso da política, que todos partilhamos e onde nos devemos encontrar? No discurso de Marcelo e nas suas posições, é a nação, a pátria. Daí que recuperar a grandeza dos portugueses, através de uma crença acrítica de que somos grandes porque assim sempre foi (e por definição, sempre será!) possui o seu equivalente na fé da concórdia religiosa. Faz então sentido unir os dois elementos principais da mundividência “marcelista”. Donde se homenageie Vasco da Gama, celebrando a gesta das lusas gentes, e se organize um encontro no espírito do diálogo inter-religioso. Religião e Nação emergem desta maneira como os sinalizadores do entendimento ecuménico do actual presidente. Sabemos bem que quaisquer destes símbolos e narrativas são estruturalmente avessos à contradição. O espaço simbólico do religioso é o da legitimação do acesso ao sagrado. Achar que as relações inter-religiosas são não concorrenciais, só colhe quando existe uma delas que é hegemónica. Caso da religião católica em Portugal. Quando o campo religioso é partilhado por contingentes significativamente idênticos, então surge o conflito, ou seja, uma guerra pela legitimidade. Não por acaso na celebração organizada na mesquita de Lisboa não houve lugar para as designadas seitas, a exemplo do pentecostalismo de origem brasileira que concorre directamente com a igreja católica. Porquê? Não estarão as “seitas” igualmente capacitadas para responder por um deus? O facto é que no domínio da religião organizada a diferença reside no reconhecimento outorgado aos seus especialistas. A razão pela qual as seitas pentecostais não auferem desse reconhecimento tem muito que ver com a impossibilidade de lhes ser reconhecido um corpo de especialistas; ou melhor, pela recusa em reconhecer a preparação espiritual dos seus porta-vozes como capacidade de manipulação do sagrado.

Da pátria tivemos diversos exemplos, entre eles a abertura do palácio de Belém ao povo devidamente recebido pelo seu presidente. Diz este que os portugueses precisam de símbolos unitários com que se identifiquem como o hino, ou a bandeira, ou a própria figura presidencial. É o discurso da identificação com a qualidade orgânica da nação que aqui espreita. Uma identificação que cura as feridas e supera divisões, e que para isso só exige uma entrega incondicional. Ora o discurso da nação foi por diversas vezes utilizado ao longo da história como estratagema para esconder as desigualdades realmente existentes. Religião e Nação parecem assim constituir os dois vectores da doutrina do actual presidente. Essa é pelo menos a impressão que deixam estes primeiros dias.

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