Skip to content

Long live the King!

Janeiro 25, 2016

Do discurso do novo presidente, cabe dizer que a tríade tradicional – deus, pátria, família – esteve em grande evidência. Da família, tivemos vários dos seus membros a emoldurarem a primeira fila da audiência, numa presença deliberada de união e apoio ao candidato; de deus tivemos a alusão ao programa do papa Francisco que não me lembro de nenhum candidato em noite de vitória da eleição presidencial fazer menção directa a um membro eclesiástico; da pátria, várias referências à força e destino da mesma.

Devemos ainda acrescentar que o discurso foi estranho. Primeiro, um alongado agradecimento em jeito justificativo à Faculdade de Direito. A escolha do agora presidente da república pela sua alma mater como lugar de celebração tem qualquer coisa de monárquico. Como se fosse importante a sua génese institucional, ou melhor, como se devesse esta funcionar como despedida de um passado para abraçar novos desafios.  Como se o agora presidente tivesse que efectuar a sua cisão institucional à vista de todos – um momento de consagração de uma carreira, de um percurso, de um trajecto. Um excesso de personalização que não quadra bem com o desejo de ser um presidente acomodado às suas meras funções constitucionais. Veremos mais disto no futuro. Este é aliás para mim um fortíssimo indicador que indicia uma resposta à sacramental pergunta que ontem tão insistentemente se colocava: que tipo de presidente será Marcelo? Com certeza que não será o mestre da simplicidade tantas vezes por ele anunciado. O capital de legitimidade que a estrondosa vitória lhe confere implica que será muito fácil impor uma presença para além das funções que lhe estão consagradas. Ou não estivesse Marcelo habituado a escutar-se em monólogos intermináveis em que praticamente não tem contraditório. Será que enquanto presidente perderá essa característica que foi consolidando durante décadas?

É por isso que considero que devemos “ler” Marcelo invertendo as suas posturas e declarações de campanha. Onde ele se diz “simples” e preparado para escutar todos, devemos assumir que ele já tem as respostas preparadas; onde ele se diz um procurador de consensos, devemos intuir que será de acordo com o seu entendimento dessa mesma área de consensualização; e onde ele se diz apartidário e congregador, devemos entender que o será para o quadrante que justamente representou, o centro-direita. Aliás, essa foi uma invenção bastante bem-sucedida mas que é falsa. Marcelo disse-se sempre representante do centro-direita, efectuando assim um afastamento estratégico da direita neoliberal do PSD e do CDS de Passos e Portas. Mas este centro-direita não existe. A social-democracia que alguns como Pacheco Pereira ou Manuela Ferreira Leite se dizem filiados, com preocupações sociais, tangencial à doutrina social da Igreja, devedora de uma lógica de pactos sociais, foi laboriosamente delapidada por Cavaco, a quem sempre prestaram vassalagem. O que sobressai na postura de Marcelo de preocupação com os mais necessitados e desvalidos é a lógica caritativa, única solução que pode subsistir numa visão política despojada de conflitualidade.

Com efeito, o discurso do presidente franciscano, sem qualquer outro desígnio que não seja unir os portugueses, possui ressonâncias com linguagens antigas, nas quais os conflitos endémicos à sociedade são diluídos sob os auspícios do carisma de um só homem. Os portugueses, encantados com essa litania, esqueceram (ou ignoravam) que estavam a entronizar um homem que sempre se movimentou entre as elites, que lhes terá dado muito dinheiro a ganhar assim como ele o ganhou também, que enquanto técnico de direito passível de utilizar o seu conhecimento em esferas diferentes não se lhe conhecem causas cívicas, mas sim intervenções no mundo da grande finança. Esse foi o truque melhor conseguido de Marcelo: o de fazer crer ao eleitorado que o presidente que elegeram era um homem simples, quando é na realidade um homem da elite. Que os portugueses não tenham percebido isso, mostra o estado de estupidificação política em que andamos; não sendo diferente de outras paragens, dificilmente se vê que possa ser invertida.

O facto de uma porção considerável do eleitorado tradicional do partido comunista mostrar a sua simpatia  por Marcelo (como mostraram as sondagens) é um indício. Estamos em território propriamente populista, intuição que terá escapado ao PCP, mas que não foge a tendências analisadas noutros contextos. Basta lembrar que uma parte considerável da base de extracção da Frente Nacional em França proveio do velho eleitorado do PCF. Marcelo não é Le Pen, nem a filha nem o pai, mas o fenómeno do presidente perto do povo, sem estruturas partidárias, e portanto implicitamente crítico do sistema político e dos seus actores, é semelhante. Hesitou-se em chamar a isto populismo. As mais das vezes, reconhecidos jornalistas, utilizaram fórmulas como “Marcelo como ele mesmo”, “Marcelo a imprimir o seu próprio estilo”, etc. Outros, mais críticos, chamaram a atenção para o facto de Marcelo ter apostado em despolitizar a sua campanha. Ambos, curiosamente, o singularizaram pela originalidade. Parece que ninguém percebeu que Marcelo não fez mais do que aquilo que está habituado a fazer. Os seus comentários sempre foram despolitizados, no sentido em que as suas análises eram sobre “politiquice”, estratégias, posturas, intervenções falhadas ou bem-sucedidas. Não recordo nenhuma análise de fundo sobre temas essenciais. Quem achou que Marcelo se escusou a debater estes temas por estratégia política, enganou-se. Marcelo não tem essas concepções porque está firmemente de acordo com o que tivemos até agora. E aqui é que a contradição se avoluma.

Marcelo disse-se sempre suprapartidário, não alinhado com o PSD, buscador de consensos. E se assim o disse, melhor o fez, demonstrando como se pode fazer uma campanha alheada da máquina partidária. Ao recusar o apoio da máquina – no que no essencial a máquina esteve de acordo -, Marcelo sabia que aumentava as suas possibilidades para o lugar que veio a obter. Nada lhe seria mais prejudicial do que uma colagem a Passos ou a Portas, ou ao PSD e CDS destes. Neste sentido foi uma estratégia perfeitamente localizada e pontual, ou seja, serviu um fim muito concreto. Contudo, Marcelo ao querer procurar consensos para gerar estabilidade governativa precisa do PSD. Na realidade, o governo de Costa está a prazo porque a esquerda à esquerda do PS não lhe dará cobertura se a torção ao que foi acordado for demasiado grande. Ora esta não é a área de influência de Marcelo; é antes uma área cinzenta que não responderá aos apelos do Presidente caso estes sejam no sentido de evitar uma crise institucional. A área de influência é o PSD. E aqui  poderiam de facto ser obtidos acordos e Marcelo teria um papel influente enquanto broker. Mas foi justamente o PSD que Marcelo quis afastar do seu trajecto. O que significa que Marcelo muito conscientemente não quis implicar o PSD porque isso interferia com a sua estratégia pessoal. Ou seja, não fez qualquer esforço para recuperar o PSD para a tão propalada área de consensos. Ora, de duas uma, ou Marcelo considera que quando chegar a hora o seu prestígio é mais do que suficiente para levar a entendimentos entre um PSD revanchista e um governo periclitante, ou isso nem sequer se encontra no horizonte político do novo presidente. A escusa da implicação do PSD mostra que Marcelo não está assim tão interessado na aproximação dos dois partidos da rotatividade. E por sua vez, o PSD ao ter sido alienado da campanha presidencial não sente igualmente que deva o que quer que seja ao governo do país. É no fundo um encontro de vontades que mais uma vez tem por eixo a estratégia de poder do PSD. Mas quando é que alguma coisa que envolvesse Marcelo não passou por aí?

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: