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A campanha

Janeiro 18, 2016

É preciso recuarmos até aos idos anos 90 para nos lembrarmos quando o professor Marcelo dava pontuação aos políticos da nossa esfera pública. Invariavelmente por mais medíocre que Barroso fosse, levava um 18 na escala de esperteza e desempenho política do professor. Em contrapartida, por mais brilhante que Guterres fosse, não se safava com mais de 14, um 15 vá lá, e era quando o professor acordava particularmente generoso. É este Marcelo que as televisões, e mesmo as campanhas, não estão a revisitar. Não basta dizer, como faz Nóvoa, que o seu adversário diz tudo e o seu contrário: é preciso mostrá-lo. Não basta chamar a Marcelo um catavento, mesmo que o ápodo tenha vindo da sua área política – é preciso exemplificar, insistindo que esse é de facto um traço do seu comportamento.

O novo Marcelo, conciliatório, surgiu há relativamente pouco tempo. Talvez já tivesse a congeminar a sua candidatura para presidente quando decidiu vestir as roupagens desse novo personagem. Não é despiciendo que a sua amizade com Costa o faça menos agreste com este governo do que foi com anteriores governos PS. Seja como for, o Marcelo que agora se candidata como presidente de todos os portugueses, o grande conciliador, é o mesmo Marcelo que em tempos vaticinou – e como com isso se congratulava! – que a vitória de Passos com Cavaco na presidência faria o pleno da direita. Ou então, relembremos os seus enaltecimentos a Manuela Ferreira Leite quando esta exibia prestações fraquíssimas e muito pouco entusiasmantes. Lembremos por exemplo um debate entre Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa em que o segundo foi sovado pelo professor do alto da sua cátedra enquanto a sua candidata levava a palma de ouro da melhor prestação de sempre em política. Jerónimo sabe bem do que é feito Marcelo por isso não o poupa um só instante. Marcelo é sem margem para dúvidas o candidato da direita.

Ele sabe isso; as pessoas atentas também. Porquê então a fantochada?  Podemos encontrar o paralelo com Cavaco e Ferreira Leite. Diga-se a talhe de foice que por mais brilhante que seja Marcelo, não é assim tão original. É justamente com Cavaco que podemos encontrar o mesmo estratagema. Reza assim a história. Perante a inútil base de recrutamento do PSD, que deu alguns frutos mais azedos naquela época, Cavaco inaugurou a então designada coabitação pacífica com José Sócrates. Assim que um candidato potencial se perfilou no horizonte dos sociais-democratas que prometia ganhos eleitorais, no caso vertente foi Manuela Ferreira Leite, o então presidente Cavaco Silva rapidamente passou para uma governação hostil e a coabitação pacífica teve os seus dias contados.

Temo que o mesmo poderá passar-se com Marcelo Rebelo de Sousa. As mensagens de concórdia, o posicionamento ao centro, a imagem de unificador de todos os portugueses contrastam deveras com o papel de estratega dos sociais-democratas que Marcelo sempre assumiu. Mas é compreensível num cenário onde não exista qualquer alternativa do lado da direita; onde o seu líder Passos Coelho está a prazo e apenas se aguarda que venha um substituto à altura do desafio. Nessa altura antevejo um Marcelo diferente. Assim como rapidamente tivemos um Cavaco diferente. Diria mesmo que o centralismo do actual Marcelo é, para os tempos que correm, genuíno. Não significa que equidistância advenha de Marcelo já não se identificar com a direita. Antes, como não existe candidato à direita que possa, como disse em tempos Marcelo e como aqui relembrei, “fazer o pleno” – governo e presidente – não é propício cavar a divisão ideológica. Diríamos então que ela se encontra latente. À espera de ser espicaçada pela normal rotatividade de lideranças. Aí sim, teremos um Marcelo à altura dos seus desígnios direitistas.

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2 comentários leave one →
  1. Tiago Farinha permalink
    Janeiro 18, 2016 6:47 pm

    Até que enfim alguém lembra as inefáveis notas e a ignominia no critério da sua atribuição.

    • marquês de S.A.D. permalink*
      Janeiro 25, 2016 3:58 pm

      pois foi. uma coisa estranhamente ausente nas campanhas e nos comentários jornalísticos.

      abraços

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