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A noite das facas mansas

Janeiro 12, 2016

Thousands of revelers gathered on the square between the central train station...

É com mansidão estudada (como se diz: e com mansidão estudada deixou cair o corpo na otomana que se encontrava no canto da sala…) que os acontecimentos da véspera do ano novo em Colónia ganham proporções de guerra civil. Os movimentos de extrema-direita xenófoba apontam o dedo aos políticos por deixarem a situação ter chegado onde chegou (e onde chegou? em sua opinião à entrega do Heimat germânico aos sarracenos!) e mobilizam as suas hostes para, finalmente, libertarem a Alemanha do perigo estrangeiro (velhas histórias, novos protagonistas?). Há uma revolta capilar na sociedade alemã contra os acontecimentos de Colónia e os seus putativos promotores, os imigrantes. Revolta que leva o Spiegel a anunciar que uma mudança está em curso e que a Vielfalt germânica – a celebração tranquila da diversidade cultural numa Alemanha plural e diversificada – teria os dias contados. Note-se que a Vielfalt não é apenas um termo de conveniência: ela constituía o endereço retórico de um consenso político que sustentava a passagem de uma Alemanha étnica para um país globalizado. Vielfalt, assinalava assim uma Alemanha moderna, de compromissos identitários e de abertura tolerante. É isso que se encontra colocado em causa pelos acontecimentos de Colónia.

Mas o que foram os acontecimentos de Colónia? O que parece ter-se passado foi um bom e clássico arrastão a que as cívicas consciências germânicas não estão habituadas. Fosse no Brasil, e a coisa nem história teria: apalpões e gamanço de carteiras é uma caracterização fiel do Carnaval da Bahia de todos os Santos, por exemplo. Todavia, as caracterizações mais desalmadas sucederam-se. Henrique Raposo, na sua gesta infatigável pela Ibéria cristã, chamou-lhe “estupro organizado de mulheres”, à maneira de um rapto das sabinas com conotações feéricas de fim de ano e consumo alcoólico. Tanto quanto se sabe duas mulheres foram de facto estupradas, o que dificilmente pode ser qualificado de “estupro organizado”. Houve sim assédio, muito assédio, e mulheres foram molestadas sexualmente, isso parece ser certo. Não torna os comportamentos menos preocupantes, mas coloca uma diferença de grau apreciável.

Não será com certeza estranho o velho método do esfreganço corporal para desviar a atenção de um roubo de carteira ou telemóvel. A ser um traço cultural pode ser facilmente encontrado nas festas tradicionais ou nos eléctricos lisboetas. Até aqui não se afigura uma manobra de Mafoma nem dos seus promulgadores. Contudo, os acontecimentos passaram-se num país que preza, e bem, as igualdades de género; que santifica a esfera individual como nenhum outro na Europa, e que tem do direito das mulheres ao seu corpo uma concepção avançada e disseminada. Poderá todo esse património ter sido devassado pelo “arrastão” de Colónia?

Dificilmente se vê que a movimentação por parte de meliantes e estrangeiros na noite do fim de ano tenha sido orquestrada com o deliberado fim de provocar um clash civilizacional de proporções bíblicas. Por exemplo, a facilidade com que o termo “refugiados” entrou nos comentários jornalísticos e nas redes sociais é esclarecedora do processo de intenções que ali se fabricou. Dos perpetradores identificados, 18 eram refugiados; ora tendo em conta que a contagem, por alto, porque não há outra, oscila entre os 500 e os 400 “perpetradores intoxicados” (de vinho? de poesia? de virtude? – à vossa escolha!) dezoito refugiados não constitui propriamente uma invasão às virtudes germânicas resultante das políticas de Frau Merkel. Há ainda um pormenor que está longe de ser de somenos e que deve ser salientado tantas vezes quanto possível: lá porque se encontravam 18 refugiados não significa sequer que tivessem vindo na vaga de novos refugiados que levou a Europa a chegar a acordo sobre a sua distribuição, tendo a Alemanha assumido o maior contingente. A Alemanha recebe, de há vários anos para cá, centenas de milhares de refugiados anualmente. É a sua política de imigração. Ao invés de abrir as fronteiras a imigrantes económicos regulares, recebe refugiados. Por isso estarem 18 refugiados no meio da multidão concentrada no interior da estação central de Colónia na noite de fim do ano não constituiria, em princípio, qualquer surpresa.

A outra noção completamente desadequada que ninguém se preocupa em rectificar foi a de “crime organizado” utilizado pelas autoridades e espalhada pela media. Ora está claro que para crime organizado carece de uma estrutura que permanecesse no tempo; é antes um típico exemplo de crime desorganizado!, em formato de arrastão, concebido espontânea e deliberadamente para resultar num curto espaço de tempo. E no entanto a expressão “crime organizado” fez o seu caminho. De tal forma que as pontes com o terrorismo foram rapidamente traçadas, com Raposo, mais uma vez, a dizer que considerava mais grave o que se passou em Colónia do que o assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo! Mais grave como? Um é de facto um atentado terrorista, premeditado, planeado por uma organização militar e estruturada; o outro é um arrastão com mulheres a serem molestadas e roubadas. As dissemelhanças são de tal forma óbvias que a comparação é a todos os títulos absurda e não me merece mais comentários.

As setenta queixas recebidas por assédio sexual devem ser contextualizadas. Trata-se de um país onde as mulheres se queixam de serem assediadas. Dito assim soa a apreciação simplória e tautológica. Mas não é. Com efeito, se as mulheres em Portugal tivessem assimilado culturalmente como ofensa punível pela justiça as práticas através das quais são assediadas, o número de queixas aumentaria exponencialmente. Isto faz toda a diferença: não há forma de dissociar a realidade do assédio da percepção do mesmo. Se esta última for culturalmente ensinada e tornada formativa da condição sexual, então é muito provável que a sua denúncia se torne rotineira. Ora, estamos a falar de num país em que discutir com a mulher (a própria) na rua pode ser razão suficiente para chamar a polícia. Não sabemos, por conseguinte, qual a real dimensão do assédio sofrido pelas jovens de Colónia. Mas admitamos que foi sentido como brutal e vexante, como alguns testemunhos parecem indicar. Admitamos também que instilou o medo como outros descrevem. Ainda assim será motivo para gritar – terrorismo! Contudo, foi justamente isso que fez o PEGIDA, a organização cristã ortodoxa que engrossa as suas fileiras nos dias que correm. Eis a descrição gritada de um palanque: uma organização paramilitar de terror! Onde está o paramilitar? Uma multidão infiltrada por centenas de indivíduos que roubam e assediam sexualmente. Violência? Sem dúvida. Mas que exercícios de contorção é preciso fazer para assimilar tudo o que seja violência ao terrorismo?  E veja-se como Frau Merkel, outrora campeã dos direitos humanos, campeia agora a onda anti-refugiado. Veja-se como após os atentados de Paris, as boas consciências depressa se arrependeram e querem arranjar justificações apressadas para retroceder nas suas decisões. Colónia é uma óptima circunstância para explorar esse sentimento.

Quer isto dizer que não há problema nenhum e que o que se passou em Colónia não suscita nenhuma reflexão? Obviamente que não. Desde logo, há uma cisão preocupante na sociedade europeia, mas não é a linha entre o cristianismo e o islamismo.

Lembro-me que na Áustria, as belas e louras austríacas detestavam os turcos. Mas o que elas não suportavam na verdade era a pobreza dos turcos, porque quando estes eram abastados, as barreiras comportamentais caíam depressa. O “turco” surgia simultaneamente como objecto de repúdio e de fascínio. O exótico do oriente imaginário colidia – demasiado depressa! – com a realidade dos empregos de baixa qualificação, da língua mal dominada, dos modos rudes e sexistas dos bairros preteridos. Há a influência do Islão nas configurações comportamentais? Há, é inegável. A estrutura cultural sexista e discriminatória do Islão faz-se presente em muitos contextos de interacção e práticas sociais. Porém, não foi isso que aconteceu em Colónia. A sê-lo pouco teria que ver com roubos e carteiristas.

A Alemanha terá que se habituar a uma nova situação. Está esta relacionada com o crescimento do Islão dentro das suas fronteiras? Não, está intimamente relacionada com o crescimento da pobreza, da precaridade, das bolsas sociais de infracidadania. Uma Alemanha onde é frequente ver pessoas aos caixotes do lixo, estrangeiros e nacionais; onde a segurança social abandona o seu papel de rede de suporte societal, onde a privatização selvagem dos serviços deixa muitos à margem da distribuição das benesses da sociedade de consumo. Afinal, a combinação que há muito caracteriza os países onde os “arrastões” ocorrem.

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