O estertor comunista e a ascensão do Bloco: o difícil equilíbrio.

O BE. Marisa Matias ao obter mais votos do que Louçã que em 2006 ficou um pouco acima dos 5% coloca um problema sério ao BE. Da escassez de lideranças que se verificava ainda não há pouco tempo, suprida pelo belíssimo desempenho de Catarina Martins, a uma difícil escolha entre esta última e aquela que se perfila como a mais adequada candidata à liderança do partido. A dúvida dever-se-á ter instalado: matar a líder num processo induzido de sucessão ou aguentar Catarina Martins mesmo tendo uma Marisa em velocidade assinalável?

O PCP cava uma derrota que fará mossa nas suas hostes. Primeiro mostra que aí sim se debatem com um sério problema de recrutamento. É cada vez mais patente que começa a ser complicado encontrar pessoas que cativem o voto no partido comunista. A insistência neste candidato quando se tornou evidente que recolhia pouca adesão – as arruadas eram magras e os comícios pouco mobilizadores – não teve em conta aquilo que as sondagens apontavam há algum tempo: o facto de uma porção considerável do eleitorado tradicional do partido comunista mostrar a sua simpatia por Marcelo. Tendo em conta que o voto em Jerónimo significou não apenas uma sustentação do eleitorado tradicional como representou ainda uma ligeira subida nas legislativas, o que se pode concluir é que o outrora indefectível eleitorado comunista começa cada vez mais a oscilar consoante uma lógica personalista. A força das ideias, baluarte dos comunistas desde sempre, fraqueja por conseguinte no território da política mediática.

É justamente este desequilíbrio que torna o PCP imprevisível em matéria de respaldo do Governo Costa. Se por um lado, não quer ficar com o ónus de deitar abaixo um governo cuja formação tanto incentivou, por outro, o voto de protesto, sua tradicional modalidade de inscrição política na esfera pública, pode surtir uma estratégia de sobrevivência enquanto “fuga para a frente”. Ocorre-nos a velha imagem do animal encurralado que nada tem a perder. Se a afirmação do PCP depender de um relançar de uma presença forte na esfera política e mediática sustentada numa estratégia de protesto, então basta para isso estreitar a margem de concessões possíveis de serem feitas à luz do tratado assinado com o PS. Num contexto de imprevisibilidade desta natureza, o BE emerge de facto como força tampão. Mas o que significa uma segurança para o PS numa esquerda que se posiciona até ver enquanto sua aliada, pode mudar fundamentalmente o axioma segundo a qual os partidos de esquerda aumentam-se não se subtraem. Este foi o argumento muitas vezes usado quando o BE apareceu na cena política e se previu um embate fatal entre este e o PCP. No entanto, nessa conjuntura o voto subtraído fora até ao momento o do PS. Se atentarmos na situação grega constatamos que o Syriza não apenas sugou o PASOK deixando-o em estado comatoso como debilitou os comunistas gregos atirando-os para uma radicalização, única hipótese que tinham de garantir um espaço político próprio. Não prevejo uma radicalização em matéria de ideais no PCP. Mas não ponho de parte que esta seja canalizada para uma precipitação da instável situação política. Não vale a pena negar: no xadrez em que o jogo é a três, i.e., governo nacional, oposições, e Europa, o espaço de negociação é muito mais estreito, sobretudo se tivermos em conta que a intenção europeia tem sido sempre a de estreitar ainda mais esse espaço no sentido da formatação das medidas independentemente dos contextos. Na actual conjuntura, um braço de ferro por parte do PCP perante a “austerização” pedida por Bruxelas pode bem ser o fôlego que o primeiro precisa para se manter vivo.

Long live the King!

Do discurso do novo presidente, cabe dizer que a tríade tradicional – deus, pátria, família – esteve em grande evidência. Da família, tivemos vários dos seus membros a emoldurarem a primeira fila da audiência, numa presença deliberada de união e apoio ao candidato; de deus tivemos a alusão ao programa do papa Francisco que não me lembro de nenhum candidato em noite de vitória da eleição presidencial fazer menção directa a um membro eclesiástico; da pátria, várias referências à força e destino da mesma.

Devemos ainda acrescentar que o discurso foi estranho. Primeiro, um alongado agradecimento em jeito justificativo à Faculdade de Direito. A escolha do agora presidente da república pela sua alma mater como lugar de celebração tem qualquer coisa de monárquico. Como se fosse importante a sua génese institucional, ou melhor, como se devesse esta funcionar como despedida de um passado para abraçar novos desafios.  Como se o agora presidente tivesse que efectuar a sua cisão institucional à vista de todos – um momento de consagração de uma carreira, de um percurso, de um trajecto. Um excesso de personalização que não quadra bem com o desejo de ser um presidente acomodado às suas meras funções constitucionais. Veremos mais disto no futuro. Este é aliás para mim um fortíssimo indicador que indicia uma resposta à sacramental pergunta que ontem tão insistentemente se colocava: que tipo de presidente será Marcelo? Com certeza que não será o mestre da simplicidade tantas vezes por ele anunciado. O capital de legitimidade que a estrondosa vitória lhe confere implica que será muito fácil impor uma presença para além das funções que lhe estão consagradas. Ou não estivesse Marcelo habituado a escutar-se em monólogos intermináveis em que praticamente não tem contraditório. Será que enquanto presidente perderá essa característica que foi consolidando durante décadas?

É por isso que considero que devemos “ler” Marcelo invertendo as suas posturas e declarações de campanha. Onde ele se diz “simples” e preparado para escutar todos, devemos assumir que ele já tem as respostas preparadas; onde ele se diz um procurador de consensos, devemos intuir que será de acordo com o seu entendimento dessa mesma área de consensualização; e onde ele se diz apartidário e congregador, devemos entender que o será para o quadrante que justamente representou, o centro-direita. Aliás, essa foi uma invenção bastante bem-sucedida mas que é falsa. Marcelo disse-se sempre representante do centro-direita, efectuando assim um afastamento estratégico da direita neoliberal do PSD e do CDS de Passos e Portas. Mas este centro-direita não existe. A social-democracia que alguns como Pacheco Pereira ou Manuela Ferreira Leite se dizem filiados, com preocupações sociais, tangencial à doutrina social da Igreja, devedora de uma lógica de pactos sociais, foi laboriosamente delapidada por Cavaco, a quem sempre prestaram vassalagem. O que sobressai na postura de Marcelo de preocupação com os mais necessitados e desvalidos é a lógica caritativa, única solução que pode subsistir numa visão política despojada de conflitualidade.

Com efeito, o discurso do presidente franciscano, sem qualquer outro desígnio que não seja unir os portugueses, possui ressonâncias com linguagens antigas, nas quais os conflitos endémicos à sociedade são diluídos sob os auspícios do carisma de um só homem. Os portugueses, encantados com essa litania, esqueceram (ou ignoravam) que estavam a entronizar um homem que sempre se movimentou entre as elites, que lhes terá dado muito dinheiro a ganhar assim como ele o ganhou também, que enquanto técnico de direito passível de utilizar o seu conhecimento em esferas diferentes não se lhe conhecem causas cívicas, mas sim intervenções no mundo da grande finança. Esse foi o truque melhor conseguido de Marcelo: o de fazer crer ao eleitorado que o presidente que elegeram era um homem simples, quando é na realidade um homem da elite. Que os portugueses não tenham percebido isso, mostra o estado de estupidificação política em que andamos; não sendo diferente de outras paragens, dificilmente se vê que possa ser invertida.

O facto de uma porção considerável do eleitorado tradicional do partido comunista mostrar a sua simpatia  por Marcelo (como mostraram as sondagens) é um indício. Estamos em território propriamente populista, intuição que terá escapado ao PCP, mas que não foge a tendências analisadas noutros contextos. Basta lembrar que uma parte considerável da base de extracção da Frente Nacional em França proveio do velho eleitorado do PCF. Marcelo não é Le Pen, nem a filha nem o pai, mas o fenómeno do presidente perto do povo, sem estruturas partidárias, e portanto implicitamente crítico do sistema político e dos seus actores, é semelhante. Hesitou-se em chamar a isto populismo. As mais das vezes, reconhecidos jornalistas, utilizaram fórmulas como “Marcelo como ele mesmo”, “Marcelo a imprimir o seu próprio estilo”, etc. Outros, mais críticos, chamaram a atenção para o facto de Marcelo ter apostado em despolitizar a sua campanha. Ambos, curiosamente, o singularizaram pela originalidade. Parece que ninguém percebeu que Marcelo não fez mais do que aquilo que está habituado a fazer. Os seus comentários sempre foram despolitizados, no sentido em que as suas análises eram sobre “politiquice”, estratégias, posturas, intervenções falhadas ou bem-sucedidas. Não recordo nenhuma análise de fundo sobre temas essenciais. Quem achou que Marcelo se escusou a debater estes temas por estratégia política, enganou-se. Marcelo não tem essas concepções porque está firmemente de acordo com o que tivemos até agora. E aqui é que a contradição se avoluma.

Marcelo disse-se sempre suprapartidário, não alinhado com o PSD, buscador de consensos. E se assim o disse, melhor o fez, demonstrando como se pode fazer uma campanha alheada da máquina partidária. Ao recusar o apoio da máquina – no que no essencial a máquina esteve de acordo -, Marcelo sabia que aumentava as suas possibilidades para o lugar que veio a obter. Nada lhe seria mais prejudicial do que uma colagem a Passos ou a Portas, ou ao PSD e CDS destes. Neste sentido foi uma estratégia perfeitamente localizada e pontual, ou seja, serviu um fim muito concreto. Contudo, Marcelo ao querer procurar consensos para gerar estabilidade governativa precisa do PSD. Na realidade, o governo de Costa está a prazo porque a esquerda à esquerda do PS não lhe dará cobertura se a torção ao que foi acordado for demasiado grande. Ora esta não é a área de influência de Marcelo; é antes uma área cinzenta que não responderá aos apelos do Presidente caso estes sejam no sentido de evitar uma crise institucional. A área de influência é o PSD. E aqui  poderiam de facto ser obtidos acordos e Marcelo teria um papel influente enquanto broker. Mas foi justamente o PSD que Marcelo quis afastar do seu trajecto. O que significa que Marcelo muito conscientemente não quis implicar o PSD porque isso interferia com a sua estratégia pessoal. Ou seja, não fez qualquer esforço para recuperar o PSD para a tão propalada área de consensos. Ora, de duas uma, ou Marcelo considera que quando chegar a hora o seu prestígio é mais do que suficiente para levar a entendimentos entre um PSD revanchista e um governo periclitante, ou isso nem sequer se encontra no horizonte político do novo presidente. A escusa da implicação do PSD mostra que Marcelo não está assim tão interessado na aproximação dos dois partidos da rotatividade. E por sua vez, o PSD ao ter sido alienado da campanha presidencial não sente igualmente que deva o que quer que seja ao governo do país. É no fundo um encontro de vontades que mais uma vez tem por eixo a estratégia de poder do PSD. Mas quando é que alguma coisa que envolvesse Marcelo não passou por aí?

A campanha

É preciso recuarmos até aos idos anos 90 para nos lembrarmos quando o professor Marcelo dava pontuação aos políticos da nossa esfera pública. Invariavelmente por mais medíocre que Barroso fosse, levava um 18 na escala de esperteza e desempenho política do professor. Em contrapartida, por mais brilhante que Guterres fosse, não se safava com mais de 14, um 15 vá lá, e era quando o professor acordava particularmente generoso. É este Marcelo que as televisões, e mesmo as campanhas, não estão a revisitar. Não basta dizer, como faz Nóvoa, que o seu adversário diz tudo e o seu contrário: é preciso mostrá-lo. Não basta chamar a Marcelo um catavento, mesmo que o ápodo tenha vindo da sua área política – é preciso exemplificar, insistindo que esse é de facto um traço do seu comportamento.

O novo Marcelo, conciliatório, surgiu há relativamente pouco tempo. Talvez já tivesse a congeminar a sua candidatura para presidente quando decidiu vestir as roupagens desse novo personagem. Não é despiciendo que a sua amizade com Costa o faça menos agreste com este governo do que foi com anteriores governos PS. Seja como for, o Marcelo que agora se candidata como presidente de todos os portugueses, o grande conciliador, é o mesmo Marcelo que em tempos vaticinou – e como com isso se congratulava! – que a vitória de Passos com Cavaco na presidência faria o pleno da direita. Ou então, relembremos os seus enaltecimentos a Manuela Ferreira Leite quando esta exibia prestações fraquíssimas e muito pouco entusiasmantes. Lembremos por exemplo um debate entre Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa em que o segundo foi sovado pelo professor do alto da sua cátedra enquanto a sua candidata levava a palma de ouro da melhor prestação de sempre em política. Jerónimo sabe bem do que é feito Marcelo por isso não o poupa um só instante. Marcelo é sem margem para dúvidas o candidato da direita.

Ele sabe isso; as pessoas atentas também. Porquê então a fantochada?  Podemos encontrar o paralelo com Cavaco e Ferreira Leite. Diga-se a talhe de foice que por mais brilhante que seja Marcelo, não é assim tão original. É justamente com Cavaco que podemos encontrar o mesmo estratagema. Reza assim a história. Perante a inútil base de recrutamento do PSD, que deu alguns frutos mais azedos naquela época, Cavaco inaugurou a então designada coabitação pacífica com José Sócrates. Assim que um candidato potencial se perfilou no horizonte dos sociais-democratas que prometia ganhos eleitorais, no caso vertente foi Manuela Ferreira Leite, o então presidente Cavaco Silva rapidamente passou para uma governação hostil e a coabitação pacífica teve os seus dias contados.

Temo que o mesmo poderá passar-se com Marcelo Rebelo de Sousa. As mensagens de concórdia, o posicionamento ao centro, a imagem de unificador de todos os portugueses contrastam deveras com o papel de estratega dos sociais-democratas que Marcelo sempre assumiu. Mas é compreensível num cenário onde não exista qualquer alternativa do lado da direita; onde o seu líder Passos Coelho está a prazo e apenas se aguarda que venha um substituto à altura do desafio. Nessa altura antevejo um Marcelo diferente. Assim como rapidamente tivemos um Cavaco diferente. Diria mesmo que o centralismo do actual Marcelo é, para os tempos que correm, genuíno. Não significa que equidistância advenha de Marcelo já não se identificar com a direita. Antes, como não existe candidato à direita que possa, como disse em tempos Marcelo e como aqui relembrei, “fazer o pleno” – governo e presidente – não é propício cavar a divisão ideológica. Diríamos então que ela se encontra latente. À espera de ser espicaçada pela normal rotatividade de lideranças. Aí sim, teremos um Marcelo à altura dos seus desígnios direitistas.

A noite das facas mansas

Thousands of revelers gathered on the square between the central train station...

É com mansidão estudada (como se diz: e com mansidão estudada deixou cair o corpo na otomana que se encontrava no canto da sala…) que os acontecimentos da véspera do ano novo em Colónia ganham proporções de guerra civil. Os movimentos de extrema-direita xenófoba apontam o dedo aos políticos por deixarem a situação ter chegado onde chegou (e onde chegou? em sua opinião à entrega do Heimat germânico aos sarracenos!) e mobilizam as suas hostes para, finalmente, libertarem a Alemanha do perigo estrangeiro (velhas histórias, novos protagonistas?). Há uma revolta capilar na sociedade alemã contra os acontecimentos de Colónia e os seus putativos promotores, os imigrantes. Revolta que leva o Spiegel a anunciar que uma mudança está em curso e que a Vielfalt germânica – a celebração tranquila da diversidade cultural numa Alemanha plural e diversificada – teria os dias contados. Note-se que a Vielfalt não é apenas um termo de conveniência: ela constituía o endereço retórico de um consenso político que sustentava a passagem de uma Alemanha étnica para um país globalizado. Vielfalt, assinalava assim uma Alemanha moderna, de compromissos identitários e de abertura tolerante. É isso que se encontra colocado em causa pelos acontecimentos de Colónia.

Mas o que foram os acontecimentos de Colónia? O que parece ter-se passado foi um bom e clássico arrastão a que as cívicas consciências germânicas não estão habituadas. Fosse no Brasil, e a coisa nem história teria: apalpões e gamanço de carteiras é uma caracterização fiel do Carnaval da Bahia de todos os Santos, por exemplo. Todavia, as caracterizações mais desalmadas sucederam-se. Henrique Raposo, na sua gesta infatigável pela Ibéria cristã, chamou-lhe “estupro organizado de mulheres”, à maneira de um rapto das sabinas com conotações feéricas de fim de ano e consumo alcoólico. Tanto quanto se sabe duas mulheres foram de facto estupradas, o que dificilmente pode ser qualificado de “estupro organizado”. Houve sim assédio, muito assédio, e mulheres foram molestadas sexualmente, isso parece ser certo. Não torna os comportamentos menos preocupantes, mas coloca uma diferença de grau apreciável.

Não será com certeza estranho o velho método do esfreganço corporal para desviar a atenção de um roubo de carteira ou telemóvel. A ser um traço cultural pode ser facilmente encontrado nas festas tradicionais ou nos eléctricos lisboetas. Até aqui não se afigura uma manobra de Mafoma nem dos seus promulgadores. Contudo, os acontecimentos passaram-se num país que preza, e bem, as igualdades de género; que santifica a esfera individual como nenhum outro na Europa, e que tem do direito das mulheres ao seu corpo uma concepção avançada e disseminada. Poderá todo esse património ter sido devassado pelo “arrastão” de Colónia?

Dificilmente se vê que a movimentação por parte de meliantes e estrangeiros na noite do fim de ano tenha sido orquestrada com o deliberado fim de provocar um clash civilizacional de proporções bíblicas. Por exemplo, a facilidade com que o termo “refugiados” entrou nos comentários jornalísticos e nas redes sociais é esclarecedora do processo de intenções que ali se fabricou. Dos perpetradores identificados, 18 eram refugiados; ora tendo em conta que a contagem, por alto, porque não há outra, oscila entre os 500 e os 400 “perpetradores intoxicados” (de vinho? de poesia? de virtude? – à vossa escolha!) dezoito refugiados não constitui propriamente uma invasão às virtudes germânicas resultante das políticas de Frau Merkel. Há ainda um pormenor que está longe de ser de somenos e que deve ser salientado tantas vezes quanto possível: lá porque se encontravam 18 refugiados não significa sequer que tivessem vindo na vaga de novos refugiados que levou a Europa a chegar a acordo sobre a sua distribuição, tendo a Alemanha assumido o maior contingente. A Alemanha recebe, de há vários anos para cá, centenas de milhares de refugiados anualmente. É a sua política de imigração. Ao invés de abrir as fronteiras a imigrantes económicos regulares, recebe refugiados. Por isso estarem 18 refugiados no meio da multidão concentrada no interior da estação central de Colónia na noite de fim do ano não constituiria, em princípio, qualquer surpresa.

A outra noção completamente desadequada que ninguém se preocupa em rectificar foi a de “crime organizado” utilizado pelas autoridades e espalhada pela media. Ora está claro que para crime organizado carece de uma estrutura que permanecesse no tempo; é antes um típico exemplo de crime desorganizado!, em formato de arrastão, concebido espontânea e deliberadamente para resultar num curto espaço de tempo. E no entanto a expressão “crime organizado” fez o seu caminho. De tal forma que as pontes com o terrorismo foram rapidamente traçadas, com Raposo, mais uma vez, a dizer que considerava mais grave o que se passou em Colónia do que o assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo! Mais grave como? Um é de facto um atentado terrorista, premeditado, planeado por uma organização militar e estruturada; o outro é um arrastão com mulheres a serem molestadas e roubadas. As dissemelhanças são de tal forma óbvias que a comparação é a todos os títulos absurda e não me merece mais comentários.

As setenta queixas recebidas por assédio sexual devem ser contextualizadas. Trata-se de um país onde as mulheres se queixam de serem assediadas. Dito assim soa a apreciação simplória e tautológica. Mas não é. Com efeito, se as mulheres em Portugal tivessem assimilado culturalmente como ofensa punível pela justiça as práticas através das quais são assediadas, o número de queixas aumentaria exponencialmente. Isto faz toda a diferença: não há forma de dissociar a realidade do assédio da percepção do mesmo. Se esta última for culturalmente ensinada e tornada formativa da condição sexual, então é muito provável que a sua denúncia se torne rotineira. Ora, estamos a falar de num país em que discutir com a mulher (a própria) na rua pode ser razão suficiente para chamar a polícia. Não sabemos, por conseguinte, qual a real dimensão do assédio sofrido pelas jovens de Colónia. Mas admitamos que foi sentido como brutal e vexante, como alguns testemunhos parecem indicar. Admitamos também que instilou o medo como outros descrevem. Ainda assim será motivo para gritar – terrorismo! Contudo, foi justamente isso que fez o PEGIDA, a organização cristã ortodoxa que engrossa as suas fileiras nos dias que correm. Eis a descrição gritada de um palanque: uma organização paramilitar de terror! Onde está o paramilitar? Uma multidão infiltrada por centenas de indivíduos que roubam e assediam sexualmente. Violência? Sem dúvida. Mas que exercícios de contorção é preciso fazer para assimilar tudo o que seja violência ao terrorismo?  E veja-se como Frau Merkel, outrora campeã dos direitos humanos, campeia agora a onda anti-refugiado. Veja-se como após os atentados de Paris, as boas consciências depressa se arrependeram e querem arranjar justificações apressadas para retroceder nas suas decisões. Colónia é uma óptima circunstância para explorar esse sentimento.

Quer isto dizer que não há problema nenhum e que o que se passou em Colónia não suscita nenhuma reflexão? Obviamente que não. Desde logo, há uma cisão preocupante na sociedade europeia, mas não é a linha entre o cristianismo e o islamismo.

Lembro-me que na Áustria, as belas e louras austríacas detestavam os turcos. Mas o que elas não suportavam na verdade era a pobreza dos turcos, porque quando estes eram abastados, as barreiras comportamentais caíam depressa. O “turco” surgia simultaneamente como objecto de repúdio e de fascínio. O exótico do oriente imaginário colidia – demasiado depressa! – com a realidade dos empregos de baixa qualificação, da língua mal dominada, dos modos rudes e sexistas dos bairros preteridos. Há a influência do Islão nas configurações comportamentais? Há, é inegável. A estrutura cultural sexista e discriminatória do Islão faz-se presente em muitos contextos de interacção e práticas sociais. Porém, não foi isso que aconteceu em Colónia. A sê-lo pouco teria que ver com roubos e carteiristas.

A Alemanha terá que se habituar a uma nova situação. Está esta relacionada com o crescimento do Islão dentro das suas fronteiras? Não, está intimamente relacionada com o crescimento da pobreza, da precaridade, das bolsas sociais de infracidadania. Uma Alemanha onde é frequente ver pessoas aos caixotes do lixo, estrangeiros e nacionais; onde a segurança social abandona o seu papel de rede de suporte societal, onde a privatização selvagem dos serviços deixa muitos à margem da distribuição das benesses da sociedade de consumo. Afinal, a combinação que há muito caracteriza os países onde os “arrastões” ocorrem.