Paris, hora de ponta

Creio que no domínio das distopias (e elas estão de volta, as distopias) nenhuma assenta melhor à Paris contemporânea do que a cidade-poço de Jodorowsky e do velho Incal. É preciso dizer que nem toda a bela Paris cai nesse submundo – mas sim o metro de Paris, em hora de ponta. Aí sim, a cidade-poço revela a sua dimensão de actualidade; estranheza, com certeza, mas actual. Por isso, Jodorowsky inspirou-se directamente nos tempos correntes. E muito embora tivesse tido a premonição que as coisas assim se passariam, os elementos que prefiguravam esta aparição já se encontravam em gestação. Paris, hora de ponta, é por conseguinte um fiel émulo da imaginação protofuturista do bom Jodorowsky. Os doidos, os mendigos, as cores, as religiões, os estilos, tudo se combina num caleidoscópio sufocante de gente com pressa para lado nenhum. Ou melhor, para lados concretos e definidos, mas tão ilusórios quanto a sua pressa. Esta última não recupera nenhuma das suas promessas.

Se esta loucura nevrótica caracteriza bem o movimento do metro de Paris, um outro afã se lhe impôs ultimamente: o cortejo aos mausoléus improvisados às vítimas dos atentados terroristas. Do Bataclan à Place de la República é possível seguir uma peregrinação de missionários à cata de fotos mórbido-perturbantes, i.e., que têm tanto de mórbido na sua ansiedade em captar o momento da despedida de estranhos como de perturbante pela sua glutonaria em captar belos momentos facebookicos como prova de partilha desse último adeus (causa à qual aderi alegremente e com vontade de recolher o maior número de testemunhos dessa mesma presença). Certo, por vezes surge um aperto na garganta ao ler as inscrições e as mensagens de saudade dos ente-queridos das vítimas. Sentimento que logo se dissipa perante a turistificação (neologismo cujas razões para a sua não utilização comum são incompreensíveis) massiva dos dois locais onde se presta homenagem às vítimas. É possível ver tanta gente em torno do Bataclan a apontar os iphones e objectivas desunhando-se para obter um plano que combine o ar grave das flores funéreas com o ambiente luxo-flaneaur que Paris oferece, como chineses na fila para a Notre Dame. A conclusão – não sei se dramática – é a de que os dois locais de culto transformaram-se, bem para além da sua natureza de culto, em atracções turísticas. As pessoas não se limitam a guardar a singularidade dessa combinação, mas querem aparecer nela. Fazer parte da homenagem traduz um misto de fascínio com horror. É portanto frequente ver pessoas a tirarem fotografias a elas próprias (entre as quais me incluo) enquadradas com os mausoléus, dignificando os últimos com a sua presença, dir-se-ia. Selfies terrorístico-turistificadas. Há portanto muito que reflectir na passagem quase imediata do terrorismo ao turismo. Devo dizer que a cidade, Paris, respira mais ávida do que nunca e dir-se-ia que nada de verdadeiramente extraordinário teria acontecido recentemente. A cidade prossegue dentro de momentos. Arrisco mesmo dizer que caso a televisão não amplificasse todos os acontecimentos, multiplicando-os em ecos persistentes e persecutórios, na outra ponta de Paris não teriam sabido do sucedido. Afinal, à escala da mega-urbe Paris os atentados foram relativamente circunscritos. Não há estragos materiais para além de vitrinas partidas e locais nocturnos encerrados. As bombas não caíram sobre o Boulevard Voltaire. Sendo certo que as rajadas de metralhadora soaram justamente na rua do grande defensor das liberdades, o facto é que não há escombros, nem destruições maciças, tão-pouco deformações inexoráveis da arquitectura, que perenizem o acontecimento. Talvez por isso ele se tenha transformado tão rapidamente em atracção turística. Talvez por isso também a vida continue pulsante pelas ruas, cafés, casas de chá e bares, do Faubourg Saint-Germain à Bastille.

Na galeria inesgotável de atracções turísticas, Paris ganhou mais duas, terríveis, mas que cumprem perfeitamente a função.