O enigma Brasil

Uma vez, em conversa com Peter Fry, ele confidenciou-me que o Brasil era o país mais vaidoso do mundo. Não sei se o mundo é demasiado vasto para uma generalização tão apressada; mas não haja dúvidas que se encontra nos lugares cimeiros de uma imaginária escala de vaidade nacional. Só assim se compreende tanto complexo de inferioridade. O brasileiro vive vergado sob o peso do inexorável atraso do seu país. Este anátema surge nas televisões, nos telejornais da noite, assim como surge nas conversas casuais, de chope e relaxe. Para tudo serve o anátema: para os acessos rodoviários, para as ligações aéreas, para o governo de Dilma Roussef, para a copa do mundo, para os políticos do planalto… em nada o Brasil se resgata do seu proverbial atraso. Quando aprofundamos as causas desta relação fetichista com o atraso, percebemos que o problema está no modelo que se pretende alcançar: os gloriosos USA. Para os brasileiros, menos do que isso é um falhanço inexorável, e por isso a fasquia é colocada ali, na América do Norte, na superpotência norte-americana. Que o Brasil se veja com a pretensão de ser os USA da América do Sul diz muito do seu complexo de inferioridade. É um falso complexo. Na verdade, Fry estava certo, e os brasileiros são de facto vaidosos. Talvez dos povos mais vaidosos do mundo. A sua vaidade surge em muitas formas. Desde a obsessão com as academias e o culto do corpo relacionado a elas, passando pela reivindicação de verdadeira pátria da sensualidade que se encontra filigranada nos seus hábitos quotidianos, até ao velho ditado de o Brasil ser um paraíso, o problema foi ter os brasileiros. Invertendo os termos, um povo que se tem em tão má conta deve gostar demasiado de si próprio.

A arrogância dos brasileiros está também em muitos aspectos do trato quotidiano. Aquela proximidade imediata não é totalmente sincera, e na realidade é na maioria das vezes interesseira. Enquanto interessa criar uma imagem de cordialidade desvelada ela funciona; mas rapidamente pode mudar, basta que os motivos que lhe deram origem se extingam na relação. Aí, a cordialidade é passível de ser substituída pela indiferença; até mesmo por antipatia. Observei no outro dia um casal de brasileiros de uma certa idade que entretinha uma animada conversa com uma alemã. Isto passava-se num café. A afabilidade era total; dir-se-ia que a disponibilidade perante aquela estrangeira (ao país e ao grupo, percebi depois) não conhecia limites. E todavia, bastou ela levantar-se da mesa onde o simpático casal a recebia, despedir-se educadamente, virar costas e desaparecer, que a maledicência instalou-se com uma ferocidade inesperada na troca de impressões entre os dois. De repente, aquela pessoa com quem tinham tão cordialmente passado um momento tornara-se objecto do mais infame escárnio, alvo das mais abjectas considerações. Assim é a cordialidade brasileira. Vi isto acontecer por mais do que uma vez nas minhas vindas ao Brasil, e posso dizer que está espalhado geograficamente, considerando que adquiri uma experiência brasileira de norte a sul do país. A cordialidade brasileira é um artefacto que as pessoas usam nas suas interacções. Rapidamente desmontada, ela serve, e serviu, para produzir a impressão de que qualquer estranho é bem-vindo, aliás, imediatamente imerso, na nossa esfera de privacidade. É falso.

Esta cordialidade tem a sua história e os seus cronistas. Um dos principais ilustradores da sua singularidade é Buarque de Holanda, que tendo aplicado o conceito num sentido mais genesíaco de primordialidade brasileira, não deixou por isso de o dotar de contornos que ainda hoje são operativos na memória das pessoas e na produção dos esquemas culturais. Talvez esta cordialidade seja o ersatz para um viver social onde as diferenças imperam, onde o estatuto tem uma importância fundamental para os próprios e para quem observa, onde as inserções sociais são cobertas de uma evidência que se torna imediatamente notório o lugar donde a pessoa actua. Num país de diferenças tão marcadas, num país onde o estatuto é tão valorizado, a cordialidade surge de facto como o amortecedor que evita o derrapar súbito para a violência. Mas ela acontece. A violência está latente porque ela desequilibra facilmente os termos falseados da cordialidade. E quando ela emerge, é terrível.

Samarco: uma questão de proporção

Enquanto os holofotes convergiram todos para os atentados terroristas de Paris, aqui no Brasil aconteceu uma catástrofe ambiental de proporções bíblicas. Uma barragem cedeu e lançou um caudal de lama que já se deslocou mais de 200 km num rio e irá em breve desaguar no oceano. O prejuízo é incalculável – para o meio ambiente, para as comunidades, para a economia do Estado de Minas Gerais e para o Brasil. A barragem servia as actividades de mineração da empresa Samarco, uma sociedade entre a empresa brasileira Vale e a australiana BHP Billiton. Aparentemente o nível de sedimentação das lamas era de tal ordem que a barragem rompeu deixando sair para o rio um caudal de lama imparável. O nome do rio, dir-se-ia uma graça de mau gosto de Deus todo-poderoso: Rio Doce. Ecossistemas no espaço de mais de 100 km estão totalmente mortos, o abastecimento de água das comunidades ao longo do Rio que deixou de ser doce deixou de existir, milhares de pessoas que viviam da pesca no rio deixaram de ter subsistência. Quando o caudal de lama chegar ao mar, dizem os especialistas da Universidade de Minas Gerais, gerará o equivalente a uma mancha de petróleo e destruirá todos os ecossistemas numa extensão de 9 km por um tempo indeterminado. Quando isso acontecer, a lama terá percorrido 400 km.

As multas por danos ambientais foram prontamente assumidas pela Samarco. Fala-se de 63 milhões de euros por danos ambientais mais 76 milhões de indemnizações às vítimas (directas e indirectas), uma multa que corresponde a 9% dos lucros líquidos de 2014.  Com multas assim, infringir torna-se “um barato”, para falar em brasileiro.

Para além das dimensões da tragédia, há como sempre uma leitura política a fazer. A primeira coisa a notar é a forma como a Globo e a generalidade da imprensa – com especial destaque para a Portuguesa – omite sistematicamente a responsabilidade da australiana BHP. Quase sempre é a brasileira Vale que surge nas notícias. E se é verdade que o Brasil é o país onde a presunção de inocência é completamente destruída nos ruidosos shows televisivos, é fantástico como os jornalistas têm sido compreensivos para com a grande Samarco. Nem se montaram piquetes jornalísticos à porta dos seus CEOS; nem se injuriam os seus donos; nem se arrasta na lama (perdoem o trocadilho) os nomes das suas famílias. Qualquer destas atitudes é usual no jornalismo brasileiro quando se trata de suspeitos de crimes. Contudo, para além duma preocupação angustiada com a dimensão da catástrofe, exigível aliás, a media brasileira tem sido particularmente serena.

Um dos aspectos mais interessantes desta história é que ela deveria servir de lição aos histéricos que acusam a ineficácia do Estado de todos os males do mundo. E para os neoliberais, estranhamente silenciosos diga-se, devia servir de aporia à sua consabida obsessão com tudo o que seja iniciativa privada. O facto – quase sempre silenciado – é que a Samarco é o resultado das privatizações do tempo de Fernando Henriques Cardoso. Também aqui se privatizou a eito porque a dívida não podia comportar tanto Estado. Ora, num país cujo desporto favorito é berrar contra a corrupção do Estado e dos políticos, a pacatez com que se recebeu a notícia segundo a qual a Samarco já havia sido notificada por cinco vezes da condição das suas barragens, não deixa de ser surpreendente. Lembremos que ainda não há dois anos, milhões de pessoas foram para a rua nas principais capitais brasileiras em protesto contra a corrupção nas obras do Estado para a Copa 2014. Onde estão esses milhões quando 400 km de ecossistemas, vidas, economias são lentamente assassinados?

A Globo, e a Veja, já agora, tão pressurosas em apontar o dedo criminalizador ao governo de Dilma, chegaram à brilhante conclusão que a culpa tinha sido falta de fiscalização… do Estado. A questão é de facto delicada. Contribuindo a Samarco com 80% da arrecadação fiscal da região, dificilmente pode ser um alvo a abater. Saber que afinal a maior catástrofe ambiental brasileira se deveu não a uma ineficiente empresa pública, mas a um gigante corporativo privatizado por tuta-e-meia, complica os sistemas de referência e as fasquias valorativas. A Veja consegue fazer o pino e apontar baterias contra Dilma Rousseff e o seu governo. Pródiga em referir a BHP e a Vale quando se tratava de salientar ganhos em bolsa, é estranhamente parca em referências às mesmas agora com a tragédia do Rio Doce. Consegue inclusivamente titular um artigo com “Órgão responsável por monitorizar barragens não tem dinheiro para fazer fiscalização” em que não faz qualquer referência nem à Vale nem à BHP, acobertadas pela esquiva Samarco. Tão-pouco se operou uma destruição de carácter dos seus relações públicas perante a desfaçatez de terem justificado o sucedido com um tremor de terra. O tal abalo de terra foi de facto registado pelos sismógrafos, mas não era mais do que o tremor provocado pelas toneladas de lama libertada. Por que razão se tornou tão fácil acusar o Estado e tão complicado chamar à justiça a grande iniciativa privada?

Sem rodeios

Começa a não haver pachorra para as reacções complacentes da esquerda relativamente ao terrorismo. Pedro Filipe Soares, do BE, declarou que a “Europa não pode ter uma resposta de ódio” no que estamos fundamentalmente de acordo quando se trata deste poder ser mal dirigido contra populações que não devem ser transformadas em bodes expiatórios. Mas a Europa, e neste caso a França, precisa de ter uma resposta – e quanto a isso a esquerda apenas dá as embaraçantes justificações geopolíticas enfeitadas da crítica ao neocolonialismo. Os terroristas percebem que a guerra deve ser levada ao coração da Europa; e se é de guerra que se trata, a resposta europeia, na realidade francesa, deve ser igualmente bélica.

Um segundo aspecto é que não se pode mais ter uma complacência “académica” perante o islão. Ele deve ser responsabilizado, assim como a religião católica é responsabilizada pela sua atávica luta antiaborto. O islão deve ser abertamente criticado e confrontado com o primitivismo de muitos dos seus hábitos e obrigado, meço bem as palavras – obrigado – a mudar. A França fez bem em proibir hijabs e chadors no espaço público, e mais, devia de proibi-los fosse em que circunstância fosse. O Estado Islâmico não é um monstro criado pelo ocidente que saiu completamente do freio da estratégia contra Assad. O Estado islâmico é o que acontece quando o islão se torna primitivo, regressivo e popular. A intelectualidade islâmica nada tem a ver com este islão, assim como o discurso teológico cristão pouco tem a ver com as tendências regressivas do pentecostalismo de extracção popular tão bem representado pelas igrejas brasileiras.

Há gente ingénua que acha que se os ataques do Ocidente à Síria acabarem, o Daesh vai tranquilamente cultivar a terra e tornar-se uma bela república democrática. É mentira. Os ataques devem ser intensificados e o Daesh varrido da superfície do território. Que o Daesh emerge em grande medida da política dúplice de apoio aos rebeldes que queriam destituir Assad, não justifica a sua existência nem qualquer peso na consciência ocidental quanto à sua destruição. O Daesh é o que acontece quando se armam camadas populares fanaticamente religiosas como já tinha acontecido no Afeganistão. Mas o Daesh é ainda outra coisa: é um movimento antisecularismo de base rural onde medram as tendências mais ortodoxas e retrógradas do Islão. Não se pode separar o Daesh do Islão. O primeiro não é somente o resultado de grupos desafectos que procuram conquistar território aproveitando-se das convulsões políticas da zona. É também, e mais importante, um grupo organizado em torno de um islão primitivo que lhes dá a consistência ideológica e a unidade. Esse islão também medra dentro de algumas regiões europeias – e também aí deve ser ferozmente combatido.

O tempo deixou de ser de tolerância para com o ensino do islão em tantas periferias por essa Europa afora. As mesquitas, e os seus líderes, devem ser controlados. As mensagens de desigualdade entre os géneros devem ser colocadas dentro da legalidade do direito à igualdade e extirpadas da mezinha soporífera da tolerância religiosa. As comunidades islâmicas devem ser conduzidas no sentido de uma intervenção mais activa no seio das suas populações e crentes. Não basta a permanente vitimização que fazem de si próprias, a velha ladainha do “lá vamos ser transformados em bodes expiatórios novamente”. Não, a sua intervenção tem que ser proactiva para a fundamentação e criação de um islão modernizado em razão de valores adquiridos por lutas passadas e que fazem parte da modernidade ocidental. Pouco me interessa que isto soe a etnocentrismo. Eventualmente é necessário ser etnocêntrico contra grupos armados, profundamente “islâmico-cêntricos”, que juram guerra, material e ideológica, a tudo o que esteja fora da umma. A ideia de pureza religiosa por relação aos infiéis também deve ser fortemente combatida, a começar pelas mesquitas europeias. Ninguém controla o discurso frenético antiocidental que por lá muitas vezes se propaga; ninguém controla as hierarquias internas; ninguém sabe donde vêm os imans de muitas das mesquitas, e qualquer um pode sê-lo sem ser necessário passar pela socialização de uma burocracia organizacional religiosa. Parecendo que não a formação dos padres em seminários, implica uma linha pedagógica conhecida e minimamente consensual. No islão isto não acontece, assim como nas religiões pentecostais – e os resultados estão à vista.

Concordo por isso com o que diz Henrique Monteiro. Em nada acrescenta a revisão da matéria dada sobre as origens e perversões do monstro terrorista. Em nada acrescenta saber se ele foi uma criação dos Estados Unidos ou da Rússia. Pois que seja. O facto é que ele está aí. E a cabeça mais poderosa da hidra actualmente chama-se Daesh. Ao contrário das boas intenções de Daniel Oliveira (uma tolerância ao contrário da liberal, mas com o mesmo efeito) é com ódio que devemos responder ao ódio do Daesh.

Margem estreita

Os tempos que se avizinham não vão ser fáceis. Não por causa das razões enunciadas por Ricardo Costa no seu artigo do Expresso. Uma análise lúcida, sem dúvida, mas resultante do respigar sem pedir licença do que se vai publicando por essa blogoesfera afora. E esse facto ilustra já qual será o problema maior: a comunicação social. Esta comunicação social, quase toda nas mãos de mandatários da coligação de direita, será pródiga em querer provocar estragos. Entre o querer e o poder vai um caminho, mas que julgo será feito facilmente porque o querer é extremamente forte. Esse é o pior inimigo da coligação (informal) de forças à esquerda . E não é por partilhar nenhuma espécie de estalinismo comunicacional que antevejo como problemática a relação entre o governo PS “das esquerdas” e a comunicação social. Simplesmente, assim como no cavaquismo, os estragos provocados pela páf, a manipulação, o açambarcamento foram determinantes para o que vem a seguir. Veja-se como o correio da manhã publicou um vídeo comprometedor para Costa apenas um dia após a queda do governo páf. Sendo certo que as negociações entre as forças em presença no acordo às esquerdas se antevêem complicadas, periclitantes, caso aconteça o que Ricardo Costa sugere, o poder de desgaste virá da comunicação social. Essa será inclemente. Até porque, como já escrevi, ela só alinhava com uma certa crítica enquanto era seguro que nada na situação mudaria. Assim que se colocou no horizonte social e político a possibilidade dessa mudança, foi um deus nos acuda que se arrastará por uns bons tempos. A comunicação social, que age frequentemente como consciência esclarecida da nação, será igualmente mais intransigente com o governo do PS. Afinal de contas, a mudança que não esperavam terá que ser caucionada com uma governação impecável. As exigências que já se fazem a um governo que ainda nem existe ilustram bem essa intolerância em relação ao falhanço seja ele qual for. Jornalistas e plumitivos são por regra mais transigentes com os governos de direita porque estes não prometem melhorar nada que não seja a trajectória do défice. O terreno ideológico da esquerda é um terreno trabalhoso. Falar (e praticar) de justiça social e reequilíbrios distributivos é uma linguagem que não interessa minimamente ao imediatismo tantas vezes acéfalo da comunicação social. Por isso essa vai ser a luta mais constante e mais persistente que o governo “das esquerdas” terá pela frente. Ela não deve ser menosprezada. Faz estragos imensos. Veja-se o exemplo do governo Obama ou Dilma Roussef. Sempre que tentaram introduzir uma prática de redistribuição e justiça social foram brindados por uma saraivada de chumbo grosso que ainda hoje é em grande medida a causa da sua debilidade política. Os jornalistas deixaram de ser aquela rapaziada idealista, de extracção intelectual, com pensamentos progressistas. São executivos, que usam os computadores e a palavra como moeda de troca no agressivo mercado da notícia. Ganham bem, as stars, claro está, e gostam das suas posturas de CEOs da comunicação. Acima deles, espectrais, os donos da comunicação são magnatas, gerindo conglomerados noticiosos como se fossem jazidas de petróleo. É contra esta elite que o acordo das esquerdas vai ter que lutar. Parece um caminho pejado de dificuldades. O entretecer de intenções entre agências noticiosas e de rating, entre jornalistas de economia – que falam sobre tudo e mais um par de botas como se fossem os novos intelectuais do regime – e sound bits bolsistas. Contra estes não há espaço nem margem negocial que valha.

O fantasma do comunismo é como o dos canterville

É conhecida a história do fantasma dos canterville. Um fantasma que ao invés de assustar, vive no pânico de ser confrontado com o pragmatismo de uma família americana que entretanto ocupou a sua velha mansão e cujos hábitos ele abomina. Assim talvez seja uma boa qualificação do fantasma do comunismo actual. E lendo o artigo da Cláudia Ferreira Alves (CFA) sobre as abominações praticadas pelos comunistas – e se há exercício de descontextualização histórica é este oferecido por CFA – não se pode deixar de ter a impressão que estamos perante um fantasma dos canterville, em absoluto contraste com o velho espectro marxista que estendia a sua sombra aterradora sobre a Europa.

É simples perceber porquê. O comunismo vive das bases, da organização das massas, de penetrações organizativas no mundo do trabalho. Tudo isso está morto. Não é possível recuperar para os sindicatos o seu poder anterior; dificilmente as velhas células terão algum poder de implantação, quer no seu trabalho de arregimentação intelectual quer de funcionalização orgânica dessa mesma arregimentação. Por isso o partido comunista hoje é um partido de protesto com uma implantação não despicienda na juventude – contra o mito do partido dos velhos – mas que não tem força nem capacidade estrutural para arregimentar as bases de forma a que esta mesma mobilização representasse alguma ameaça à configuração de forças presente; i.e., a distribuição neoliberal dos recursos sociais através do consumo apoiada numa ideologia do empreendedorismo concorrencial.

De tal forma esta configuração se encontra arreigada que não se afigura possível o seu destronamento. Nem julgo que o PCP tenha para ela uma panaceia global que prometa amanhãs que cantam num registo radicalmente diferente.

É certo, e nisso estou de acordo com CFA, que o apoio dos comunistas a um futuro governo do PS é uma carta cega (para utilizar a terminologia do poker). O PCP pode facilmente criar obstáculos à necessária flexibilização que as medidas agora acertadas entre os quatro partidos terão seguramente que sofrer. A imprevisibilidade da política nas condições do capitalismo de turbulência, como alguém lhe chamou, obriga de facto a navegar à vista e não há pacto de ferro que permita o contrário. Aqui o PCP é de facto imprevisível; e eventualmente o BE também será. O problema é achar que caso se tratasse de um bloco central a imprevisibilidade seria menor. Tudo indica que, na melhor das hipóteses, o PS teria um papel muito residual na condução de uma agenda que seria gerida a bel-prazer pela coligação páf. Com a agravante que o PS teria que engolir em seco quando visse as medidas do seu programa de governo, tão garbosamente  defendidas pelos seus paladinos, serem preteridas uma após outra mediante a injunção de que não eram sensatas num contexto de contenção da despesa. É isso que CFA não parece entender. A alternativa seria ainda pior para o PS e para o seu (dito) capitalismo regulado (mas como alguém diz num comentário: regulado por quem?)

Por conseguinte, António Costa não precisa ser um génio político para manobrar a futura configuração política. O facto é que a sua capacidade de manobra será maior à esquerda do que à direita. Convém não negligenciar que o PCP será igualmente sancionado caso o seu ímpeto revolucionário destrua soluções de consenso minimamente aceitáveis. Mas assim for, cai o governo, periclitantemente escorado nesta coligação de esquerda e não será drama nenhum, como provam as centenas de exemplos de coligações desfeitas, governos afundados, câmaras baixas perdidas, por esse mundo fora. Esse é o jogo democrático. Terrível seria desperdiçarmos uma oportunidade única que pela primeira vez se apresenta na história do parlamentarismo português. Clara parece não perceber isso.