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Organizem-se, diz ela

Outubro 14, 2015

Helena Garrido na antena 1 sobre a infelicidade dos portugueses. Para a directora do Jornal de Negócios o facto de aparecermos como o segundo povo mais infeliz da OCDE – só os gregos estão piores que nós – decorreria de problemas de organização. Este é um tique que assiste muito neoliberais, alguns que papagueiam coisas que vão lendo nem se dando conta que estão a recitar cartilhas neoliberais. Uma delas é esta questão da organização e do facto de os portugueses serem infelizes porque lidam com processos organizacionais deficientes. Assim, a baixa produtividade, apesar das muitas horas de trabalho, dever-se-ia à organização. E mais, porque um bom neoliberal nunca está contente sem dizer que a responsabilidade é de um bando de calaceiros, para Helena Garrido o que acontece nas organizações portuguesas é um tempo de não trabalho – as pessoas estão lá mas não estão verdadeiramente a produzir. Por isso podem passar 10 horas diárias no local de trabalho e terem uma produtividade medíocre. António Macedo, um vate da comunicação social, prontificou-se em ajudar à festa dizendo entusiasmado que se está presente no trabalho mas não se está verdadeiramente a produzir. Não sei se isto constitui auto-retratos dos respectivos, mas o que sei é que se trata de uma mania que se difundiu com intensidade particular desde que estamos sob resgate da coligação páf. Ou seja faz parte do trabalho ideológico acusar as pessoas de não trabalharem; assim a perseguição aos feriados, assim a histeria com a assiduidade.

Tenho para mim que a falta de produtividade portuguesa se deve única e exclusivamente a uma coisa: exploração. Garrido não usou o termo – valha-nos nossa senhora: isso nunca! Para a (como hei de chamar estas pessoas que estão em lugares fáticos poderosos e que afinam todos pelo mesmo diapasão?) elite económica – à falta de melhor termo -, o facto de as pessoas trabalharem horas infindas e ao fim do mês recolherem um magro ordenado que não lhes permite fazer face às despesas não possui qualquer reflexo na produtividade, mormente na felicidade. Nos países do norte da Europa, diz-se, trabalham menos horas, mas são tão organizados, vejam lá, que produzem que se desunham. Dantes dizia-se que era nos países do norte da Europa que se trabalhava mais horas. Mas actualmente as estatísticas são tantas e os estudos cada vez mais acessíveis que é difícil sustentar essa fantasia. Por isso, posto o rei a nu, engendrou-se outra versão, desta feita de natureza organizativa. Nada na produtividade tem a ver com a precariedade do vínculo laboral, os rendimentos não satisfatórios, as condições do local de trabalho, a natureza das relações laborais internas (a forma como as pessoas são tratadas), o sistema de recompensas. Para esta cartilha sebentosa nada disto pesa na motivação e por isso também não possui qualquer reflexo na produtividade. Não. O problema são “aquelas pequenas coisas” organizacionais que podem ser facilmente solucionadas. Aqueles nadas que a serem implementados por equipas de coaching bem remuneradas fazem toda a diferença e permitem que as pessoas levando merda para casa diariamente se sintam nos pináculos da felicidade.

Facto é que os factores atrás mencionados raramente entram nos modelos econométricos. Haverá boas razões para isso e não são com certeza científicas.

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