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Despojos de inverno

Outubro 6, 2015

Susana e os velhos por Gentileschi

A vitória da coligação pàf é no mínimo pífia. Curioso ninguém ter feito este trocadilho onomatopeico na comunicação social. Duas razões: ou porque é demasiado evidente e as pessoas querem o novo; ou porque os jornalistas, despido o manto de imparcialidade a que se viram obrigados por um qualquer espírito de deontologia, mostraram a sua cara finalmente. E esta revela uma mal disfarçada alegria pela derrota do PS. Note-se que a notícia não tem sido a vitória da pàf, mas antes, com alvoroço assinalável, a “estrondosa” derrota do PS.

Por uma incompreensível inversão das forças em jogo, o PS parece igualmente ter assumido essa narrativa. E no entanto esperar-se-ia que justamente por ser o partido com força suficiente para obrigar a coligação a compromissos fizesse disso o seu ponto de honra. Confrangedor, portanto, ouvir Marques Guedes puxar o PS à sua responsabilidade de zelador do poder da minoria governativa em vez de ser Vieira da Silva a mostrar uma posição de força negocial. Aliás, deveria ter sido essa a mensagem imediata do PS e do seu líder: mostrar que existiriam aspectos para o futuro governo do país dos quais não transigiriam. Foi em grande medida a mensagem de António Costa durante a campanha com o mote do compromisso com os portugueses e a inabalável convicção no seu programa de governo. Onde está ela agora? Onde estava ela na noite das eleições? Foi tudo floreados retóricos? Uma conversão marketizada de um programa numa pretensa objectividade dum caderno de encargos?

Por conseguinte afigura-se estranha esta posição de fraqueza, de abalo, de tímida oposição a uma coligação que nem um programa mostrou para que pudesse este ser sufragado, mas que agora se apressará a aprovar qualquer coisa que já teria com certeza na gaveta.

Muita gente repete à saciedade que as condições ditavam que a vitória fosse do PS. Quatro anos de austeridade, de um governo prepotente e aldrabão, para alguns era condição necessária para a vitória de Costa. Pacheco Pereira tem sido das vozes mais lúcidas a compreender o que quatro anos de governação da coligação PSD-CDS fizeram à organização sociocultural do país. Como é que as medidas austeritárias não foram somente garrotes contabilísticos na economia de grande parte das famílias, mas como a forma da sua implementação transformou o laço social e as atitudes dos portugueses. E neste campo o país parece dividido entre aqueles que querem manter o status quo, os que eventualmente estariam a ganhar com a perversão social incutida pelo governo, e os que a rejeitaram. É deste último lado que as coisas se modificaram substancialmente. Tem sido dito que o PS fez o impossível, que foi perder quando todos os outros povos sujeitos ao massacre da austeridade castigaram inapelavelmente os governos responsáveis. Uma tal constatação só aparentemente é verdade. A aparência reside mais na mudança partidária do que na mudança da substância política. Mas o contrário aconteceu em Portugal. Alguns exemplos permitem ilustrar a diferença entre uma transformação e uma mudança de peças que deixa tudo fundamentalmente igual. Na Irlanda, por exemplo, um governo liberal conservador foi destronado por um governo liberal de centro-direita. Não houve qualquer modificação substancial. Outros países sob intervenção, mas que são sempre esquecidos nestas comparações, são alguns da Europa de Leste. Aqui a tendência tem sido para reforçar maiorias conservadoras ou coligações com partidos de extrema-direita. Por esse facto não existe nada de aterradoramente anómalo na derrota do PS. Porém, uma coisa é certa, a esquerda é maioritária na Assembleia da República. E aqui reside uma diferença substancial que não pode ser desbaratada. Catarina Martins tem insistido neste ponto. O PS parece de repente estar mais interessado em saldar contas internas antigas do que em castigar uma coligação que durante quatro anos o humilhou, enxotou dos negócios da nação e castigou sem misericórdia assacando-lhe todos os males do universo. Contra uma coisa destas não poderia haver contemplações. E no entanto o PS titubeia perante a oportunidade.

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