O exercício de deslegitimação

Fotografia de Philip-Lorca di Corcia “Untitled” 2011

Há uma coisa que me assusta nas diatribes sobre a hecatombe governamental por que passa o nosso querido país: parece que dar posse a um governo com a esquerda é algo de ínvio, de torção da realidade necessária, de perversão do normal funcionamento das coisas. É essa impressão que fica ao lermos os inúmeros comentários dos jornalistas, ao ouvirmos as declarações do presidente da república, ao assistirmos à histeria comentarista dos leitores de jornais e blogs. Bom, se é um entorse ao normal funcionamento das instituições, é-o no quadro da perfeita legitimação pelo eleitorado. Cavaco não se pode furtar a esse dado. Não pode andar com rosto contraído apenas porque o resultado das eleições não saiu como ele desejava. O que ele desejava é indiferente para a legitimação do plebiscito. O mesmo se aplica às forças políticas que podem ver o seu governo ser alvo de uma moção de censura em breve. Que visão da democracia têm estes deputados da nação quando o seu semblante se contrai em dolorosos esgares perante a possibilidade de um governo com o apoio do BE e do PCP? Onde é que isto é admissível? Será também admissível que os jornalistas escrevam as suas crónicas no registo de, bom, lá temos que engolir a pílula – será amarga, mas assim dita a democracia? Isto mostra uma total falta de respeito por aqueles que votaram no sentido de ter essa mesma esquerda a governar. Que estes senhores, que quando o planalto político lhes era propício, deixassem cair críticas à coligação, faz parte dos mecanismos de simulação de que se reveste o jornalismo actual. Veja-se agora perante a percepcionada iminência de catástrofe como cerram fileiras, como o discurso muda para um não tão explícito – mas contido nas entrelinhas para quem saiba ler – apoio ao que lá estava. Afinal onde ficamos quanto a hipocrisia? Onde estavam estas exclamações de pânico em surdina quando se apresentou a possibilidade de sermos governados por uma maioria absoluta da direita mais neoliberal após o 25 de Abril. Pois não estava anteriormente. Isto porque essa era uma solução consensualmente assimilada no especto da media e da opinião publicada como sendo natural. E este natural não surge aqui por acaso; desde logo porque no discurso de um pânico insinuado surge a sensação de que estamos perante algo de antinatura. Esse sentimento encontra-se bem patente nos dois discursos de Cavaco. O que é natural é a solução na continuidade da direita neoliberal. Qualquer outra alternativa (e nem se sabe bem se a alternativa pode de facto ser efectiva, mas essa é outra discussão) é de tal forma monstruosa que deixa os discursos oficiais (e mediáticos) sem capacidade de articulação para além do pânico. É preciso que se diga que nem Cavaco, nem a coligação, geraram este sentimento por si só. A escala desse poder é de tal ordem que ultrapassa largamente personalidades e organismos tão localizados. A escassez institucional de espaços alternativos para pensar as conjunturas tem sido um trabalho extenso e que mobiliza muitos cenários. Que não se afigure como “apenas” mais um momento do regular funcionamento do semipresidencialismo português é o reflexo desse estreitamento, desse anular de espaços modulares de práticas e discursividades alternativas. É certo que eles existem, nas mais das vezes pulverizados ou acantonados em franjas de aparência marginal (a academia e os seus intelectuais) ou radical (as esquerdas partidárias ditas radicais). Numa palavra, não existem espaços de legitimação destas opções, por isso elas podem ser cultural e politicamente deslegitimadas com esta facilidade. Pois é justamente a isso que estamos a assistir: a um intenso exercício de deslegitimação. O desgaste que este exercício (mais um movimento deliberado) causa não é de somenos. Os sinais começam a ser visíveis. Nas caixas de comentários, aquilo que antes das eleições parecia uma solução perfeitamente aceitável – no sentido de apear a coligação do governo de poder absoluto – assume agora contornos de dúvida, de inquietação. A intervenção ideológica do presidente da república não deve ser somente vista como uma defesa dos interesses do grupo que ele representa. Enquanto manobra de deslegitimação é uma violência institucional no preciso sentido em que ele é o garante por excelência do poder legitimador.

Paralelamente, as estratégias de deslegitimação não têm apenas um impacto institucional, e seria errado confiná-las à interminável discussão do constitucionalismo. Elas são conhecidas e os seus mecanismos retóricos mais ou menos estudados. Uma das funções é a de criar um inimigo. Deslegitima-se aquilo ou aqueles que não cumprem o padrão normativo “natural”. Quem impõe um tal padrão é sempre uma questão de poder. Donde a insistência deslegitimadora que encontramos em Cavaco e no espectro opinativo mediático visar o cerrar fileiras em torno de um espaço a proteger. Não é apenas um estratagema de desgaste político, circunscrito ao manobrismo partidário. Tem um alcance mais vasto, e esse é reconhecível num espectro de mobilização que as declarações do tipo “os comunistas vêm aí” ou “eles não partilham os nossos valores” invoca – afinal a enumeração de pontos que distanciavam as esquerdas “radicais” do arco da governação na opinião de Cavaco encerra-as num radicalismo com o qual não pode haver qualquer partilha. Se virmos bem, essa mesma enunciação – querem sair da nato, não querem o euro, etc – pode ser reduzida à fórmula etnocêntrica de “os nossos valores são mais positivos do que os deles”. Não é por conseguinte de menosprezar, como nos típicos mecanismos de criação de adesões grupais, a mobilização que se possa seguir. Repara-se, ao erigir-se um processo normal de condução democrática de forças políticas no interior do regime democrático no inimigo interno, imprevisível e não confiável, o padrão dita que a mobilização se faça no sentido da eliminação ou da contenção do intruso. Pois foi justamente isso que Cavaco fez: avisou que a possibilidade de um intruso entrar no padrão normativo até aí expectável estava iminente. Ora isto é um grito à mobilização contra essa possibilidade. Nos tempos que correm seria atípico que essa mobilização se sagrasse em violência física e pulsão para dizimar o intruso. As coisas já não funcionam assim… excepto quando funcionam. Seja como for, essa parece ser uma hipótese remota. O que aqui digo é que essa mobilização é mais subterrânea, mas eventualmente não menos eficaz. Veja-se a ideia corrente – na medida em que começa a correr pelos canais de veiculação da opinião pública – de que é preciso retirar o dinheiro de Portugal antes que “a esquerda” venha aí. Veja-se como já se constroem cenários de catástrofe mediante o despesismo da esquerda. E veja-se como já se defendem privilégios que só no reino fantasista da imaginação foram retirados. A opinião pública é uma força poderosíssima à qual se pode sempre apelar (ou compelir) em estratégias de legitimação ou deslegitimação.

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Blackjack

Viva Cavaco que pôs esta gente toda na ordem! Os golpistas Costa, Catarina Martins e Jerónimo, tudo prá Sibéria!

Foi com esta recordação de tempos pretéritos que acordei ao fim da intervenção do presidente da república. Tempos fortes, veros, verticais, em que se enviavam os comunistas todos para a Sibéria, em comícios onde as pessoas envergavam sobretudos verdes, e eram do PSD e do CDS. É falso que, como é repetido por aí, este seja o primeiro degelo das relações entre PCP e PS. Nesse mesmo ano, sob a metáfora nada simpática da degustação de um sapo, o PCP uniu esforços com o PS para não deixar que os sobretudos verdes e os gritos de comunistas para a Sibéria passassem a estar sentados no palácio de Belém. Curiosamente, e a história tem destas coisas, quem assim era vencido foi Freitas do Amaral, actual aliado do PS, mas desconfio que não tão satisfeito com uma solução à esquerda. Cavaco veio reanimar em mim essas belas memórias, e por isso envio-lhe daqui o meu sincero agradecimento.

A falta de imaginação de Cavaco é de tal ordem que veio dizer aos portugueses que era impensável colocar no Parlamento forças que se opunham ao Euro, à Comunidade Europeia, e ao tratado orçamental. A maledicência de Cavaco não tem paralelo. Pois deveria ter reformulado o seu enunciado – para ser fiel à verdade ou por mera honestidade intelectual, quanto mais não fosse por rectidão oficial – acrescentando “esta” comunidade europeia, “este euro”, e “este tratado orçamental”. É disso que se trata. A abstração assassina que Cavaco criou é tão diáfana quanto o programa da coligação páf que nunca olho humano conheceu. E se o psd, acrónimo que já significou partido social democrata tem tanto de social democracia como Angola tem de respeito pelos direitos humanos, por que razão não hão de PCP e Bloco transigir em algumas das suas batalhas para reforçar uma maioria contra a coligação páf?

Cavaco, mais uma vez, prestou um desserviço à nação. O mais assustador, todavia, é que as palavras da augusta personagem deixam entender que aqueles dois partidos de esquerda que se apresentam a eleições regularmente e que detêm a representação de aproximadamente 20% do eleitorado, não devem chegar ao governo. Francisco Louçã disse praticamente tudo na sua crónica do Público. Acrescentaria apenas que é por demais evidente a estratégia concertada entre os páfs e Cavaco, na medida em que o discurso Cavaquista foi ipsis verbis aquilo que um Nuno Melo histérico repetiu à saciedade em vários órgãos de comunicação social. Nem sequer há algum rebuço em dar às coisas uma aparência de imprevista coincidência. Neste momento tornou-se evidente que contrariamente ao que diz Marques Mendes, o presidente não dará posse a um governo de António Costa. O presidente preferirá levar o país para um governo de gestão insistindo nos entendimentos entre a coligação e o PS. A dramatização será feita a gusto quando o momento estiver propício. Primeiro, os títeres da comissão europeia já começaram a fazer o seu papel de questores. Mas como não há exercício contabilista que não venha embrulhado em pressão ideológica e política, a sua insistência prende-se mais com a obstrução de uma solução à esquerda do que com uma necessidade económica real. Essa pressão será exercida continuadamente, de forma a que um chumbo do orçamento páf pareça uma hecatombe de tal ordem que ninguém com pretensões governativas quererá arriscá-lo. Segundo, não é líquido, dada a inconformidade de Cavaco perante a estratégia do PS, que o presidente não exerça a sua influência junto de deputados do ps em franca oposição com essa mesma estratégia para que estes possam viabilizar um orçamento páf. E finalmente, não está posto de parte que a páf coloque alguns dos temas fundamentais do programa do PS para que este fique sem argumentos caso tente uma moção de rejeição na assembleia.

Uma coisa é certa, Cavaco prefere mil vezes um governo de gestão que consiga prometer em Bruxelas umas eleições antecipadas onde o resultado seria mais auspicioso para a coligação. Dando-se o caso de a comunicação social estar nas mãos da mesma, não me admirava que a proeza fosse conseguida; desde logo porque o poder de desgaste da imagem de turbulência criada por um chumbo orçamental não é com certeza de menosprezar. Cavaco sabe-o melhor que ninguém porque ele próprio viveu essa experiência. Depois de derrubado conseguiu uma estrondosa maioria absoluta. É nisso que ele e Passos colocam todas as fichas.

Sufoca-se

Ontem fiquei perplexo. Preparava-me para assistir descontraído a um debate da RTP 3 (ou rtp informação) quando dou por mim confrontado com um painel em que metade dos comentadores eram do Observador e a outra metade fazia vergadas vénias à primeira. Mal nenhum haveria caso em debate estivesse essa tão estimada como novel instituição da democracia que dá pelo nome de Observador. Assim seria justificada a espécie de comité representativo que lá se encontrava. Mas não, quis o azar que fosse a charla sobre a formação do novo governo. E estranho não estava lá ninguém que representasse a esquerda parlamentar. Deu para começar a perceber que o canal 3 da RTP 1 é uma caixa-de-ressonância ideológica da coligação inventada em boa altura – mesmo ao cair do pano. Daí que, num exercício de saudável pluralismo, se encontrassem lado a lado Helena Matos e o seu patrão José Manuel Fernandes. Um dizia, Costa é um pulha!; ao que o outro logo respondia – Costa, esse grandessíssimo pulha! Por isso estávamos perante uma bela ilustração do bouvardismo-pecouchismo neoconservador em todo o seu esplendor. Nós sabemos que José Manuel Fernandes tem do pluralismo, (do liberal, porque não?) uma concepção instrumental. Foi assim que durante anos o Público serviu de órgão de propaganda a uma clique que então se insinuava e que imitava bem de perto os neoconservadores norte-americanos. Aliás, é aí que vão beber a maioria das suas referências, mormente tácticas. Semanas a fio lemos o seu director a defender o indefensável: a bondade da invasão do Iraque por George Bush. Nunca mais o ouvimos dizer palavra sobre o assunto desde então. Agora a grande batalha é contra a esquerda no parlamento. E como esta gente não olha de facto a meios insinuam agora que Costa está apenas apostado numa estratégia de sobrevivência individual e que como o homem desesperado que nada tem a perder pode destruir o país apenas para levar avante os seus desideratos. O idiota de serviço chamado Raposo devia atentar no ódio que se destila nas páginas do Observador antes de dizer parvoíces sobre o “ódio da esquerda”.

Na realidade o que as reacções dos jornalistas e comentadores, o que por aí se vai escrevendo e ouvindo, mostram claramente é quão bem consumada foi mais uma vez a estratégia de instrumentalização dos meios de opinião pública. Digo mais uma vez porque uma instrumentalização desta natureza e dimensão remete-nos obviamente para os tempos de Cavaco enquanto primeiro-ministro. Os quatro anos da coligação exerceram o mesmo efeito que o velho cavaquismo. Por isso não nos podemos surpreender quando Mariana Adams ao fazer o diário da Bolsa diz de manhã que a bolsa lisboeta está em queda para umas horas mais tarde asseverar que ela está em queda porque se anunciava a possibilidade de um governo de esquerda. O problema era que na primeira queda noticiada, ainda nem reunião tinha havido entre o Bloco e o PS. E assim se vende a versão segundo a qual essa possibilidade estaria a colocar os mercados nervosos; isto apesar das bolsas europeias estarem todas em queda como resultado da turbulência económica chinesa. Mas para Mariana Adams não há dúvida que os mercados ficam nervosos sempre que Costa deposita um ósculo nas rosadas faces de Catarina.

Onde eu quero chegar é que se sufoca novamente em Portugal. O cavaquismo rescendia a anticomunismo primário e via-se a ele próprio como a guarda avançada anti-esquerdista que levaria definitivamente o país para longe dos devaneios infantis do esquerdismo abrilista. Depois veio a coligação que quis à força de malfeitorias e insensibilidade curar os portugueses do estatismo e da sua dependência social. São doutrinas, muito parecidas com a schock doutrine, e dela comungam esta ideia de que é preciso provocar choques nas sociedades para que o seu potencial reivindicativo e inconformista seja vergado. Porém, são choques administrados cirurgicamente e sempre nos mesmos.

Organizem-se, diz ela

Helena Garrido na antena 1 sobre a infelicidade dos portugueses. Para a directora do Jornal de Negócios o facto de aparecermos como o segundo povo mais infeliz da OCDE – só os gregos estão piores que nós – decorreria de problemas de organização. Este é um tique que assiste muito neoliberais, alguns que papagueiam coisas que vão lendo nem se dando conta que estão a recitar cartilhas neoliberais. Uma delas é esta questão da organização e do facto de os portugueses serem infelizes porque lidam com processos organizacionais deficientes. Assim, a baixa produtividade, apesar das muitas horas de trabalho, dever-se-ia à organização. E mais, porque um bom neoliberal nunca está contente sem dizer que a responsabilidade é de um bando de calaceiros, para Helena Garrido o que acontece nas organizações portuguesas é um tempo de não trabalho – as pessoas estão lá mas não estão verdadeiramente a produzir. Por isso podem passar 10 horas diárias no local de trabalho e terem uma produtividade medíocre. António Macedo, um vate da comunicação social, prontificou-se em ajudar à festa dizendo entusiasmado que se está presente no trabalho mas não se está verdadeiramente a produzir. Não sei se isto constitui auto-retratos dos respectivos, mas o que sei é que se trata de uma mania que se difundiu com intensidade particular desde que estamos sob resgate da coligação páf. Ou seja faz parte do trabalho ideológico acusar as pessoas de não trabalharem; assim a perseguição aos feriados, assim a histeria com a assiduidade.

Tenho para mim que a falta de produtividade portuguesa se deve única e exclusivamente a uma coisa: exploração. Garrido não usou o termo – valha-nos nossa senhora: isso nunca! Para a (como hei de chamar estas pessoas que estão em lugares fáticos poderosos e que afinam todos pelo mesmo diapasão?) elite económica – à falta de melhor termo -, o facto de as pessoas trabalharem horas infindas e ao fim do mês recolherem um magro ordenado que não lhes permite fazer face às despesas não possui qualquer reflexo na produtividade, mormente na felicidade. Nos países do norte da Europa, diz-se, trabalham menos horas, mas são tão organizados, vejam lá, que produzem que se desunham. Dantes dizia-se que era nos países do norte da Europa que se trabalhava mais horas. Mas actualmente as estatísticas são tantas e os estudos cada vez mais acessíveis que é difícil sustentar essa fantasia. Por isso, posto o rei a nu, engendrou-se outra versão, desta feita de natureza organizativa. Nada na produtividade tem a ver com a precariedade do vínculo laboral, os rendimentos não satisfatórios, as condições do local de trabalho, a natureza das relações laborais internas (a forma como as pessoas são tratadas), o sistema de recompensas. Para esta cartilha sebentosa nada disto pesa na motivação e por isso também não possui qualquer reflexo na produtividade. Não. O problema são “aquelas pequenas coisas” organizacionais que podem ser facilmente solucionadas. Aqueles nadas que a serem implementados por equipas de coaching bem remuneradas fazem toda a diferença e permitem que as pessoas levando merda para casa diariamente se sintam nos pináculos da felicidade.

Facto é que os factores atrás mencionados raramente entram nos modelos econométricos. Haverá boas razões para isso e não são com certeza científicas.

Sinais de histeria

Interessante é ver o frio que percorre a espinha dos comentadores políticos perante a hipótese de um entendimento das esquerdas. Mesmo os mais dados a criticar o governo da coligação – como por exemplo Miguel Sousa Tavares – arrepiam caminho face a essa possibilidade. Outros, de useira e vezeira hipocrisia analítica – como Maria de Fátima Bonifácio ou Helena Matos – embrulham-se nos argumentos mais patéticos para segurarem as suas princesas aos cadeirões do mando absoluto. Convém dizer que o PS caso impedisse um governo minoritário PSD e CDS-PP não faria mais do que aquilo que os segundos fizeram ao chumbar o PEC IV de Sócrates, “sem alternativa”, como então se dizia. Só a capciosidade política dos comentadores de direita impede de ver isso. Os mesmos argumentos que agora cospem para o ar poderiam ter sido então invocados em nome da estabilidade política. Na altura, porém, nenhum deles quis saber da estabilidade política para nada – a sede do tacho e de fazer um pleno da direita (presidência e governo) era muita.

Ora a estabilidade não é um valor absoluto. Os regimes que assim a consideram chamam-se totalitários, como bem viu Arendt. No totalitarismo o bem mais precioso é a estabilidade; e os regimes fazem tudo, incluindo dizimar ameaças internas, para a manter. Ideológica ou relacional, esta vontade de estabilidade favorece sempre quem detém o poder… e o quer prender a qualquer custo.

O nosso presidente da república, Cavaco Silva, tem demonstrado ao longo das suas presidências uma imparcialidade duvidosa. Aquela imparcialidade a que se vê obrigado constitucionalmente. Pois não a tem cumprido. Eu não consigo ver problema nenhum em empossar um governo apoiado por praticamente 3 milhões de portugueses. Ora a PAF recebeu um milhão e novecentos mil – é fazer as contas como diria Guterres. Só os votos de Costa e Catarina Martins metem a PAF num chinelo. Isto são contas de caca. O que interessa é se o nosso presidente vai pela primeira vez ter a hombridade de respeitar o seu lugar constitucional ou não.

Enquanto isso hienas de todo o jaez espinoteiam pelas redes sociais e comunicação social gritando que vem aí o Syriza e por consequência o abismo.

Dilemas políticos

A conversa altamente inconclusiva que a coligação e os seus dois porta-vozes, Passos e Portas (PP para facilitar) serviram ao líder do partido socialista é uma estratégia de manhosos. Não queriam, obviamente, que Costa fosse com nada de concreto para poder aquilatar das propostas do Bloco que serão discutidas esta segunda-feira. Sem nada com que sopesar as opções, Costa não poderá ter qualquer coisa para oferecer a Catarina Martins. E esta não poderá contrapor porque não haverá nenhum objecto para essa contraposição. A coligação, já sabemos, é uma camarilha de arrivistas. Não são inimigos a quem se deva subestimar. São manhosos, e a manha é a forma como sabem estar na política. Desde a mentira compulsiva em Passos Coelho, fazendo deste um case study para psiquiatras e outros psis, até aos tortuosos jogos retóricos de Portas, eles não são, como por aí se dizia, os contabilistas objectivos que do mundo só conhecem as folhas de excel. São antes a manha personificada. E este compasso de espera oferecendo ao PS uma mão cheia de nada foi altamente calculado para além de altamente inconclusivo.

No passado, o PS preferiu fazer acordos com limianos do CDS (com Guterres) ou encostar à direita ganhando-lhe os favores (com Sócrates). Há no entanto uma diferença de monta na actual conjuntura: nunca antes o PS tinha sido colocado tão à distância da governação como o foi durante a legislatura da coligação PSD-CDS. A maioria absoluta em tempos troikistas foi um PREC de direita para utilizar um velho fantasma ressuscitado por Nuno Melo recentemente. Disse este deputado do PE que a possibilidade de alianças à esquerda constituía um golpe “Preciano”. Imaginação não lhes falta. A mesma desvairada imaginação que leva Cavaco, acolitando-se a uma estrambólica versão dos acontecimentos agarrada com vontade canina pela coligação, que recupera os velhos temas do antieuropeísmo esquerdista. Segundo esta versão, as grandes questões fracturantes e que impossibilitam qualquer reconciliação são a vontade de sair do euro e o desdém pela NATO. Tenho por certo que isto são minudências que não interessam ninguém no espectro partidário da esquerda à esquerda do PS. Ou seja, são perfeitamente secundárias quando comparadas com as questões nacionais que imploram por soluções urgentes.

Dentro do PS os refractários começam a surgir. Primeiro Assis, depois Sérgio Sousa Pinto e finalmente o líder da UGT. A todos vexa a possibilidade de fazer acordos com o Bloco e o PCP. Mas não se lhes antolha como complicado fazer alianças com o PSD-CDS.

Nisto a direita foi ladina. Nos últimos trinta anos concertaram-se posições à direita que levam com que as diferenças entre os dois partidos sejam mera ficção. É um jogo perigoso que só pode ser jogado dada a sede de poder de Portas e da sua entourage. Doravante o CDS-PP não terá existência fora da esfera de influência do PSD. Sendo um preço elevado, muita gente estará disposta a pagá-lo, visto que só assim conseguem chegar ao poder. O PS encontra-se numa condição oposta. Sucede que se pessoas como Sérgio Sousa Pinto, para quem Churchil é o modelo de político que deve ser admirado, receiam que o centro não regresse mediante o perigo das alianças à esquerda – ou dos acordos – uma traição a essa mesma esquerda pode selar o destino do PS. O eleitorado do voto útil, aquilo que verdadeiramente ergueu o PS das cinzas, ainda que tibiamente, não perdoará ao PS se o resultado da sua “utilidade” for dar uma carta branca à direita. O PS encontra-se perante o maior dilema da sua vida organizacional. Ou alienar o centro e segurar o poder dando uma lição a uma coligação que durante quatro anos o humilhou, reconciliando-se do mesmo passo com a esquerda; ou deixar o caminho para a sua lenta desagregação consumar-se, à imagem do que aconteceu nos países em que a esquerda se mobilizou contra os partidos socialistas. Esta mobilização não foi acéfala ou por uma questão de birra insensível dessa mesma esquerda. Foi porque os socialistas desses países sempre optaram por dar cobertura às coligações de direita. Se o eleitorado da ala esquerda dos partidos socialistas – que existe, mas não coincide com os Sérgios Sousas Pintos – não vir uma diferença fundamental entre estes e as coligações de direita, então será fatal que irá bandear-se para os partidos à esquerda, nomeadamente o Bloco. Entre perder o centro, no qual estará sempre em desvantagem para as coligações de direita, e perder a esquerda, com a qual estará sempre em vantagem em acordos à esquerda, parece-me que a segunda é a mais inteligente em termos estratégicos. Porém, os interesses individuais não se movem por soluções inteligentes, mas antes por benefícios parciais.

Dúvida legítima

Certo: Daiselblum e seus muchachos ficaram contentes por mostrarem ao universo que há um povo tão estúpido nesta via láctea que premeia quem o torturou em vez de lhe dar a justa penalização.

Junker – cujo nome faz lembrar outras paragens, outros tempos históricos – parabenizou os portugueses, e mais ainda a coligação, por engolirem pilulas amargas e saltitarem qual carneiros histéricos quando lhes servem mais do mesmo. Um povo irregular, dir-se-ia. Umas vezes parte tudo. Outras agradece as moinhas e os sacrifícios com uma abnegação de santa Quitéria; e tal como esta, não deixa de caminhar mesmo depois de morto. Tinha a possibilidade de deixar uma mensagem forte no firmamento político da união europeia. Em vez disso, o que faz o escalavrado? Legitima a toma de porrada e de maltratos a que foi sujeito sufragando galhardamente a mesma solução. É grave. E não é apenas a nível nacional. As vítimas da austeridade que tentaram contra ela rebelar-se mudando os governos devem pedir meças a esta cambada de mentecaptos.

Mas ajuizemos, mais terraquiamente, da geometria política. O que fez o PSD em 2011 perante a impossibilidade de ter uma maioria absoluta através do escrutínio? Coligou-se. Ou seja, a legitimação da maioria absoluta no parlamento só advém da possibilidade de coligação. A sua vitória não legitimava por si só a maioria absoluta, porque em termos absolutos não a tinha. Poder-se-ia argumentar que ninguém escolheu uma coligação para que governasse em maioria absoluta, que se calhar nas intenções do povo português nem se encontrava essa possibilidade. Por isso, o acto legitimador dessa maioria é inteiramente extrínseco à vontade dos eleitores. Por que razão o facto de a coligação agora ganhar em minoria lhe outorga uma qualquer legitimidade inerente para governar? De facto, nada. Poder-se-ia mesmo dizer que a vitória de Pirro a deslegitima para governar, e não o contrário. Na realidade a maioria que existe é de esquerda. E portanto em termos absolutos foi a esquerda a mandatada para governar e não a coligação perdedora. Se o parlamento é o órgão onde se expressam as vontades dos eleitores através da representação dos mesmos, então a maior representação presente é dos partidos da esquerda e do centro-esquerda. Não há nada que legitime a vitória da coligação – essa sim, de secretaria e de artifício. Espero sinceramente que caia rapidamente. Hélas!, os desígnios do partido socialista são quase sempre insondáveis e os seus representantes adoram dançar no recreio com aqueles que quando podem nunca falham em ser os seus carrascos.