É preciso relativizar

Refugees and displaced people from the former Yugoslavia since 1991

Fonte: GRID Arendal and UNEP

Portugal tem a tradição de ser um país calmo. Brandos costumes, país de acolhimento, a hospitalidade portuguesa, etc., são alguns dos epítetos que lhe caem sobre o dorso como manto diáfano da identidade nacional. Então, se assim é, por que diabo se multiplicam as manifestações de intolerância, xenófobas, racistas pelos media sociais? Por que razão se organizam manifestações contra os refugiados, se prega o ódio com mimos cívicos com que são nomeados como “lixo”, “bandidos”, “terroristas” e outros que tais?

A narrativa é bem construída e baseia-se na muito usada fórmula dos “nossos” contra os “de fora”. O discurso xenófobo tem geralmente por implicação a ideia de um todo orgânico que nos pertence por natureza do qual qualquer partilha só pode ser poluidora. Neste âmbito é tocante ver tanta manifestação a favor dos sem-abrigo de gente que costumava mudar de passeio quando se cruzava com um. Também causa embargo na voz ver tanto espírito beato a empenhar a sua humanidade na intolerância mais fascista. Um dos argumentos frequentemente usados é “vocês não sabem onde se estão a meter” – o que poderíamos designar pelo argumento do cavalo de Tróia.

É bom relativizarmos as coisas e deixarmos a tese da invasão para neuróticos como Houllebecque e a sua Submissão. A propaganda não resiste ao teste dos factos. Se compararmos os números de refugiados da guerra da Bósnia que desde 1991, após a crise da ex-Jugoslávia, adquiriram o estatuto, constatamos que os números que agora são negociados não possuem a dimensão que nos pretendem impingir. Só na Alemanha, o estatuto foi outorgado a 320.000 pessoas, entre bósnios, kosovares, sérvios e croatas. A vizinha Áustria acolheu 55.000. E a agora irredutível Hungria ofereceu refúgio a 10.000, como mostra o gráfico acima. É certo que estes números são o resultado de processos de admissão que se estenderam no tempo. Nem estes pedidos foram submetidos todos ao mesmo tempo, nem a sua atribuição foi espontânea. Seja como for, permitem colocar em perspectiva que num passado não tão longínqua a Europa confrontou-se com uma crise de refugiados e ofereceu solução para ela. A diferença, como está bem patente, é que estes não eram muçulmanos na sua maioria. Mas muitos bósnios e kosovares eram-no. Por isso as reacções irredutíveis e populistas do governo húngaro com os seus estranhos próceres de extrema-direita do Jobbik prende-se mais com quem são estes refugiados do que com o acto abstracto de receber requerentes de asilo. Daí que devemos matizar a questão da xenofobia  que é na realidade uma islamofobia. Posto que o que separa estes refugiados nos antecessores da ex-Jugoslávia é o serem islâmicos.

Devemos ver, por conseguinte, nas reacções exacerbadas quer da Hungria, quer da República Checa e Eslováquia, uma muito expressiva islamofobia que nem sempre é acompanhada pelas populações, mas que não deixa de ter um impacto profundo nestas. As declarações de Viktor Órban sobre a cristandade da Europa são a este título elucidativas.

É por isso importante que a reacção destes governos não seja catalogada como mais uma instância da tradicional xenofobia dos países de leste. Como se na Europa ocidental reinasse a tolerância e as forças de extrema-direita não tivessem vindo a ganhar um relevo cada vez maior, e mais ameaçador. Alijar essa carga para as largas costas dos irredentismos de Leste equivale a não prestar atenção ao que se passa mesmo aqui ao nosso lado.

Hidden agenda?

O volte-face germânico leva a desconfiar das verdadeiras intenções por detrás da magnanimidade inicial de Merkel. Como pode a Alemanha começar por estimar um contingente de 800 mil refugiados e de repente fechar as fronteiras invocando a cláusula de excepcionalidade que assiste aos aderentes de Shengen?

E o timing? Anunciar o fecho das fronteiras na véspera de uma cimeira europeia de partilha de responsabilidades em relação aos refugiados da Síria, que espécie de sinal dá aos restantes Estados? Como pode a Alemanha exigir que a Dinamarca cumpra as suas obrigações quando oferece os argumentos securitários de que necessitam os trânsfugas do esforço humanitário?

É que a cláusula de excepcionalidade que permite aos países suspenderem Shengen tem como justificação a ameaça à segurança interna. Há quem diga que a Alemanha assim age por exigência da intensidade dos fluxos. Mas alguém foi apanhado de surpresa? O que esperaria o governo Alemão quando se predispôs publicamente a aceitar quase um milhão de refugiados? Curiosamente, as intenções parecem ser agora outras: 40 mil como tecto máximo de um total de 120.000 que será hoje negociado. 40 mil refugiados é o que a Alemanha recebe todos os anos. Por aí nada de extraordinário se prefigura no horizonte.

Daí que o problema tenha de facto a ver com a mensagem que se envia para os outros parceiros. Se a magnanimidade inicial serviu como linha norteadora da atitude a tomar; a claudicação final dá razão a governos como os de Viktor Orban em pretenderem escorar as fronteiras contra as vagas de refugiados. Logo se seguiram a Áustria e a Eslováquia, e mais virão, porque a mensagem inicial irá rapidamente cair por terra.

Não se questiona que alguma regulação é necessária para gerir fluxos desta dimensão. Interrogamos apenas a oportunidade de o fazer logo agora. Afigura-se demasiado deliberado. Por isso, ou a Alemanha utilizou a sua abertura como um engodo para os restantes Estados Membros da União – um engodo positivo, se assim nos podemos expressar, mas um engodo –; ou arrepiou rapidamente caminho.  Em ambos os casos, estava de facto a ser a locomotiva da reacção europeia. Foi-o no sentido da abertura, e pode bem sê-lo no sentido do fechamento.

Fim da linha

Há um aspecto da chamada crise dos refugiados que é pouco mencionado. A pergunta que se impõe é: por que razão uma guerra que perdura há praticamente quatro anos, que já gerou milhões de deslocados e outros tantos refugiados, só agora provoca uma debandada geral para a Europa. Ou, qual a razão para que só agora os refugiados tenham chegado em vagas massivas à Europa? O ISIS? Bem antes do ISIS possuir a dimensão e o domínio territorial que actualmente tem, já o número de deslocados na Síria que procuravam refúgio nos países vizinhos ascendia a poucos milhões. Há anos que os sírios se encontram a viver em campos de refugiados no Líbano. E o mesmo para a Europa. Há anos – desde pelo menos o início do conflito entre as forças rebeldes e as tropas de Assad – que Sírios procuram o estatuto de refugiados na Europa. Por isso, porquê esta mobilização desmesurada de pessoas? A guerra não piorou ultimamente – esse é um facto facilmente verificável.

Uma outra ordem de razões emergiu entretanto. Chegam notícias pelos mais diversos canais que as ajudas nos campos de refugiados na Jordânia, Líbano e Turquia, estão a diminuir drasticamente. Só nestes três, contra a hipocrisia do argumento segundo o qual os países vizinhos deviam ser os primeiros a responsabilizarem-se, concentram-se cerca de 3 milhões de refugiados Sírios; o que equivale à maioria. Estas pessoas têm permanecido ou em campos ou em zonas de cidades onde foram alojados, algumas em condições desumanas. As ajudas têm tanto vindo da Europa como dos próprios países de acolhimento; sendo que na realidade são os países europeus que mais contribuem para a manutenção dos campos. Convinha de facto perceber se não é o garrote que lhes está a ser presentemente aplicado que os empurra para a viagem mediterrânica.

Costa 1 – Passos 0

No primeiro embate entre os dois candidatos a primeiro-ministro, Costa saiu claramente vencedor. Mas em quê? No estilo, pois claro. Veja-se o escrúpulo asinino com que comentadores, jornalistas e repórteres de ocasião profissionais do twitter iluminam as graves clivagens estilísticas debate após debate após debate. Isto é significativo. O expresso tem vindo a publicar uma revisitação para memória futura dos mais importantes debates políticos da autoria de Ricardo Costa. E o que é que lá vem? A análise criteriosa das nuances estilísticas dos candidatos. Terá sido por isso que os moderadores do debate de ontem acharam por bem escamotear a educação, a justiça, a pobreza, etc. Tratava-se no fundo de uma batalha de estilos. Os comentários que se sucederam, mais sedentos do vácuo ainda (se tal é possível) do que as intermináveis inanidades que são ditas sobre jogos de futebol, incidiram no estilo. Até Paulo Rangel, com o cinismo que lhe é característico, veio dizer que Passos tinha optado por um estilo demasiado tecnicista. Ora se não acordámos hoje de uma catalepsia profunda que durou vinte anos, sabemos que a grande aposta do PSD tem sido a dos tecnicismos. Desde Cavaco que inaugurou o estilo de temido professor de economia passando por Manuela Ferreira Leita e aterrando em Passos, essa qualidade sempre foi vista como uma vantagem. Mas para além destes consabidos aspectos, o que mais uma vez sobrevém é… o estilo

Note-se que tão interessante como o debate é o que os comentadores têm a dizer sobre ele. Fórmula em que a análise do texto é mais importante que o próprio texto. Estamos habituados a ver essa tentação nos inúmeros comentários futebolísticos. Daí que comece a haver uma saudável aproximação entre os dois… estilos.

Isto não é uma diatribe sobre a necessidade de salvação do conteúdo face à ditadura da forma. Pois se até tivemos um analista de posturas corporais para nos dizer que Passos se dobrava sobre si mesmo afectando estar à defesa (mas também pode ser a L5 e a L6 a darem de si). Do outro lado, um anafado comentador que aterrou recentemente na ribalta do comentário político, desdenhou da “brejeirice” (sic) de Costa ao ter este dito ao nosso primeiro que fosse debater com o Sócrates lá para casa dele, quando outro nóvel comentador, noutro canal, asseverava a importância de uma tal boutade por conta da “materialização do fantasma de JS” (sic). Verdadeiramente estranho é A. Costa ter ganho no campeonato dos comentadores. Desde logo porque na rtp 1 tinham sido criteriosa e equilibradamente escolhidos para fazer jus à equidade política: em quatro, um do ps e todos os outros contra. Porém, isso é de somenos, porque toda a gente notou que o veredicto, o fatal e inexorável veredicto, foi pronunciado pela única pessoa a quem esse direito assiste – Marcelo Rebelo de Sousa. Não sabemos se por se encontrar agastado com Passos, se por ter bebido vinho carrascão na Festa dos comunistas, Marcelo foi menos salomónico com o PSD do que costuma. Alguém se lembra do tempo em que fizesse Guterres o que fizesse, o estimado professor espetava-lhe sempre com um 13 ou 14 enquanto prodigalizava o Barroso com 18? Eu. Eu lembro-me. Por isso foi com certa emoção que assisti a Marcelo a entregar o primeiro lugar do pódio a Costa sem titubear. Sinal dos tempos.

Com esta barragem de fogo como queriam que o PAF tivesse governado a contento? Rodeado de inimigos no próprio seio da família social-democrata. Pacheco Pereira, esse, foi menos surpreendente; e como nos tem habituado ao comentário mais recto e interessante, foi mais do mesmo – porrada em Passos e Portas.

Com isto tudo, o PS apostado numa vertigem suicida comandada pela psique grupal mais primitiva, insiste em visitar Sócrates no seu “tugúrio”. Alguém que diga àquelas alimárias que o corrupio televisivo de dignitários dos socialistas a entrarem e a saírem da casa mais vigiada de Portugal (e cheia de segredos, especulo) é a manobra mais estúpida que um grupo de gente pretensamente inteligente consentiu em sustentar. Parem de ir lá. Aquilo não tem qualquer interesse. O que passa para o público é o frémito de uma quadrilha mediante a libertação do seu chefe. Ninguém vê isto lá pró largo do Rato? Depois não se admirem se derem os esforços de Costa por baldados.

[numa inversão desta última observação, JMT produz um texto sumamente cretino onde aventa a tese de Sócrates ganhar com a derrota de Costa. Mas vale mesmo a pena ler porque a estupidez do plumitivo refinou a um nível pouco usual. Mesmo nele.]

Joaninha avoa avoa

Joana, militante bem disposta/Manhosa, cavaleira, enamorada/ A quem a política não dera um só desgosto/ Mas sempre fora dela mal tratada…

Ou então: “faces de leite e rosas como de querubins, outras pálidas, transparentes, diáfanas como de princesas encantadas, olhos pretos, azuis, verdes… os de Joaninha enfim… todas estas feições, confusas e indistintas mas de estremada beleza todas, lhe passavam diante da vista, e todas o enfeitiçavam.”

Seja como for Joana, a nossa Joaninha dos olhos verdes, lançou a campanha do AGIR pelos seus mais sagrados e supinos propósitos: poderem as grávidas exibirem as suas barrigas sem vergonha nem enxovalho! Se era a isto que vinha Joana, bem que podia ter ficado pelo seu anterior partido, e aí abria uma secção para mamã e criança, junto das temáticas fracturantes que por lá abundam. Mas não, quis a ventura que Joana, política destemida, seguisse o caminho de Quaresma, futebolista de ginete, e insinuasse em igual desafio a genitália desnuda, dizendo para o povoléu: mas julgue-a quem não pode experimentá-la!

Na gesta política da nossa humana gente de esquerda, os zéfiros empurram egos barrigudos, não para além da Taprobana, mais simplesmente para o empíreo dos sortudos.

Pois nem por putéfia, nem por traidora da causa feminina, nem tão-pouco por faminta pela fama eu objurgo a dama. Mais singelamente pergunto: – Quanto foi afinal a grana?

Só isso me interessa. Porque entre vender um parlamento e vender uma barriga não distam assim tantos quilómetros (éticos) para uma esquerda banhada na velha convicção da superioridade moral (dos comunistas). É que a porfia tem afinal motivo objectivo, saber se podem coexistir ideais de igualdade enquanto uns ganham largos milhares por mostrar a barriguinha em trejeito sexy e outros levam quinhentos euros a vergar a cerviz todo um mês. Porque é aqui que se encontra o busílis da questão: que sociedade justa e igualitária permite tal disparidade? Pois eu, que já me estou a cagar, tendo visto tanto esquerdista esparramar-se na hipocrisia mais delambida, digo: – Às hortas, às hortas!

Traumnovelle

O papel que a Alemanha tem assumido na crise dos refugiados mostra, pelo menos, duas coisas. Primeiro, que não há solução comum na Europa sem uma indicação forte de um dos países de qual pode e deve ser o caminho. Segundo, que a Alemanha, apesar de proclamações apatetadas de índices internacionais, é verdadeiramente o cadinho da multicultura futura do espaço europeu. No presente a Alemanha é o país onde a diversidade cultural maior expressão ganhou. E onde, apesar de reacções xenófobas organizadas, os processos de incorporação se encontram melhor oleados e mais sustentados institucionalmente.

A abertura assumida pelo governo alemão às vagas de refugiados não fica apenas acantonada às decisões políticas. Por todos os lados chegam-nos notícias de como a sociedade alemã se organiza para acolher estes refugiados; de como peditórios e acções de voluntariado se multiplicam para prover ao sustento das centenas de famílias que vão chegando. Ocorre imediatamente a tanto velha como fácil formulação do peso do passado a pesar sobre a consciência histórica do povo alemão. É eventualmente uma das razões. Mas não é suficiente. A Alemanha é porventura o país europeu onde a comunidade turca se encontra melhor integrada; onde a histeria em relação ao islão está confinada a níveis manobráveis; onde árabes de várias proveniências nacionais se encontram melhor integrados. Bem sei que a palavra integração arrepia muito bom espírito informado actualmente. Todavia, é disso mesmo que se trata: integração. E é preciso ter isso presente para que se compreenda a vaga de solidariedade que varreu a Alemanha.

Compara-se por exemplo com a atitude portuguesa. Nos comentários que vão surgindo na internet em Portugal duas modalidades pontuam. Uma, abertamente racista, xenófoba, que equaciona todo e qualquer refugiado com um potencial terrorista. Outra, virulentamente crítica da Alemanha e dos alemães, afirma a hipocrisia do governo de Merkel cuja intenção seria apenas e só ter mão-de-obra barata. A meu ver estão ambas erradas. Começo pela segunda. Se o interesse alemão fosse o trabalho escravo, como vejo por aí escrito, teria aberto as portas à imigração quando e como bem lhe aprouvesse. Aliás, o que tem feito, de forma sectorial e selectiva. Por isso, a considerar-se essa instrumentalização do humano, ela existe, tem sido utilizada e está articulada  com as políticas de controlo dos fluxos – não necessita de uma crise humanitária para satisfazer um qualquer imaginário espírito de rapina. Quanto à primeira, ela medra no complexo islamofóbico e no seu pânico da ameaça fundamentalista. Está bem expressa nas declarações de Viktor Órban o autocrático líder da Hungria quando este diz que o acolhimento dos refugiados ameaça a cultura cristã europeia. Quase que podemos intuir nos comentários avulsos o peso desse medo da impureza e da contaminação da beleza sagrada do cristianismo. Curiosamente, foi justamente essa implicação, ou luta, que a Alemanha da Vielfalt (diversidade) resolveu.  Contrariamente ao que se poderia pensar, o tecido social alemão é irrigado pelas igrejas e são estas que em grande medida substituem a rede social. As igrejas possuem uma implantação forte nas comunidades e surgem transversalmente às diversas esferas da sociedade alemã. Ora existe uma articulação bastante bem-sucedida entre os representantes da fé islâmica e os protestantes. Para não falar dos diversos níveis de representação em que se encontram quer as comunidades quer os conselhos muçulmanos, representados que estão em patamares diferenciados da hierarquia estatal.

Finalmente, há quem diga que Merkel só assim age porque tem o apoio da população, o que surge como uma espécie de truísmo, mas que consiste em grande medida na originalidade germânica. De facto, contraste-se os insultos dirigidos aos gregos pelo tablóide Bild durante a crise da dívida com a campanha de angariação de apoio disseminada pelo jornal sob o título so-helfe-ich (assim ajudo eu). Quando se pensa que os tablóides ingleses estão determinados a apoiar Cameron na sua linha mais inflexível, compreende-se a diferença. Mas isso quer dizer que a Alemanha é um paraíso para os refugiados? Claro que não, como se constata pelo aumento de atentados a centros de refugiados ou aos próprios refugiados fora dos centros. A divisão entre uma Alemanha ocidental mais tolerante e uma oriental, ex-comunista, que assiste a um incremento de forças de extrema-direita e ao ressuscitar do nazismo não é desprovida de sentido. Desde logo, os atentados têm ocorrido sobretudo na antiga Alemanha de Leste. Não é de excluir que zonas onde a implantação do PEGIDA é maior possam igualmente servir de palco para violentos atentados. Não obstante, é nítida a reciprocidade entre as medidas tomadas por Merkel e a mobilização do povo alemão. Não admira que os refugiados sírios amontoados em Belgrado só sonhem em chegar à Alemanha.

In god we distrust, but…

Confesso que o Richard Dawkins irrita-me profundamente. Bem sei que está um pouco fora de moda e que não incomoda os espíritos religiosos com a mesma virulência com que o fazia há dez anos atrás. E para mais, sou ateu, por isso deveria ser um indefectível defensor da dawkinsomania. Mas não sou. Aliás, tenho uma profunda repulsa por aquele discurso cientificista exacerbado. Não há pachorra para aquela merda.

Vem isto a talha de foice de uma entrevista em que ele responde a Ben Affleck que criticar o islamismo nunca poderia ser racismo porque o islão não era uma raça. E se isto não fosse suficientemente mau, acrescenta com apodíctica malícia que se é possível convertermo-nos ou abjurarmos ao islão, com uma raça não o podemos fazer. Está bem patente o nível de estupidez de uma tal afirmação. Dois perigos correlacionados: dizer que o racismo é algo que só se aplica a uma raça e, em corolário, afirmar a existência objectiva dessa mesma raça. Podemos obviamente abjurar a uma raça não como vontade individual, mas como reacção à construção que é a raça. E obviamente entre as críticas às religiões e o racismo há por vezes uma fronteira demasiado indistinta. Mais não seria necessário do que pensar no anti-semitismo. As fronteiras entre o que era uma genuína crítica à religião judaica e o mais puro racismo foram sempre difusas, e daí retirava o anti-semitismo a sua força, e sempre o fez, ainda bem antes do nazismo. De um cientista como Dawkins esperava-se mais contenção no disparate. E sobretudo mais atenção a outros discursos que não estejam apenas acantonados ao empirismo laboratorial, aquele pelo qual Dawkins nutre especial admiração.

Mas há um nível, para além da particularidade destes vícios de raciocínio, em que Dawkins se me afigura ainda mais néscio. A religião como sistema de sentido não é sequer considerada por Dawkins, ainda mais quanto à sua historicidade. É perfeitamente possível ser ateu e ter uma profunda admiração pela Bíblia e as suas parábolas. É perfeitamente aceitável uma compreensão da religião como um sistema de sentido que acomode a morte e a finitude – uma teodiceia no sentido weberiano – e continuar a ser ateu. E sobretudo, não existe qualquer incompatibilidade entre a compreensão da religião enquanto fenómeno social (pelas suas “formas elementares” por exemplo) e um professo ateísmo.

Donde veio esta ideia absurda de literalidade dos livros sagrados, salvo, obviamente, dos próprios crentes, os únicos verdadeiramente apostados na sua verificação? Aqui, paradoxalmente, Dawkins encontra-se no mesmo sistema da crendice mais ignorante: aquela que toma os livros no seu sentido literal. Diga-se em sua defesa que os críticos com que se vai confrontando a isso o obrigam frequentemente. Discutir com criacionistas impenitentes que tomam o Génesis pela verdade das coisas é seguramente desesperante. Não se segue que se possa negar a importância dos livros sagrados (quer monoteístas quer politeístas) para tantas e tão variadas esferas da vida. Entre elas a literatura, por exemplo. Seria possível um Tolstoi sem a bíblia? Não creio. Um Dom Quixote sem a figura de Jesus? Julgo que não. E outros tantos exemplos que seria fastidioso enumerar.

Entre a crítica de um Dawkins e a de um Gervais vai uma distância incomensurável. Enquanto o primeiro é um cientista que pretende desfazer as convicções religiosas a golpes de cientificidade, o segundo é um humorista que goza com as convicções – e bem – dos outros. Mas ambos se encontram nessa patetice que é a de não aceitar a necessidade de um sentido para a vida para além de nós mesmos. A ambos lhes parece despicienda a questão ontológica. Em Dawkins isto é mais grave. Porque justamente sendo um intelectual e um cientista deveria saber que as tradições religiosas e filosóficas surgem praticamente enquanto descrições indissociáveis do mesmo fenómeno: qual o sentido para vida. No sentido mais histórico, elas são igualmente indissociáveis naquilo que se nutrem uma da outra, em como se fortalecem reciprocamente, e como contribuem, em diálogo para o seu crescimento mútuo. A que apelam estas tradições? O que dizem elas? Que o homem possui uma relação com o mundo única no reino animal. Era essa a convicção mais profunda de Karl Jaspers quando baptizou a época de emergência destas interpretações como a era axial.

Dawkins não pode varrer toda esta configuração única como se fosse lixo histórico para debaixo do tapete da arrogância cientificista.