Skip to content

O país dos turistas

Agosto 13, 2015

Os telejornais parecem prospectos turísticos, vá pra fora cá dentro, com o seu cortejo de feiras gastronómicas, medievais, ornamentais, e outras que tais. Os rankings de lugares mais procurados, amados, desejados e fantasiados sucedem-se vertiginosamente nos dois canais privados; justapostos com uma precisão de minutos, segundos, nanosegundos… Feira da sardinha, da petinga, da lambejinha, das papas de sarrabulho. Pessoas anafadas e bem sentadas são entrevistadas em cadeirões rústicos de paisagens ecoturísticas: piscinas biológicas, parques naturais, esotérico-naturais, biológico-esotéricos, extraordinário-megalómanos. Praias artificiais, gargantuescas, fluviais, experienciais! – De tudo este pequeno Portugal oferece.

Dir-se-ia que metade da população vive do lazer da outra metade. E se só de lazer vive o país, de que vive a metade que alimenta a outra através do seu lazer? Pois não se sabe. O que se sabe é que o país é um úbere de ofertas turísticas. Os capitalistas fecham as suas pequenas e médias e empresas e empandeiram tudo num monte alentejano. Dali há de sair ecoturismo. Tomate chucha, pepino biológico, ovos de galinhas campestres e sadias – disto se alimenta a nova aristocracia. De seguida chegam os estrangeiros. Ainda mal aterraram e já as câmaras de televisão ávidas do elogio fácil exigem o cardápio de lugares comuns: – Oh, lovely! Extremely romantic! Very beautiful! Intense!

Jovem, se pretendes estudar, ilustrar-te, ter um canudo… esquece lá isso. Abre um restaurante num lugar à beira-mar e as tuas chatices acabaram para sempre. Se fores de famílias abastadas e herdares um prédio, então é hotel que deves construir. Se por acaso te cair no colo um belo terreno nas faldas de uma montanha então é semear chalets, com cães piolhosos a coçarem-se pelos cantos e uma fábrica de doces tradicionais. E eu até acho que tudo isto tem a sua beleza. Por exemplo, o ex-presidente da Câmara de Óbidos montou um resort de luxo de ecoturismo. Não me perguntem como é que um presidente da Câmara tem dinheiro para montar um resort de luxo. Facto é que assim o fez, e em fazendo-o juntou-se à grande mobilização de empreendedores turísticos que dá a seiva a esta nação. As casas em Óbidos caem de podre à espera que alguma empreendedor as recupere para restaurante gourmet. Enquanto isso os habitantes das pequenas aldeias, cidades e vilórias são os comensais dos restaurantes gourmet e das pousadas de Portugal. Chegará o dia em que apenas os cozinheiros e os empregados de balcão lá habitarão ansiosos para servirem as levas de turistas mal abra o verão.

Houve um país que em tempos apostou nesta estratégia. Qual foi? A Grécia, pois foi!

Vai-se o verão e ficamos cá sozinhos, uns com os outros. O que será destas terras quando as nuvens cinzentas e frias do inverno pairarem sobre esta euforia?

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: