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O que vejo e me faz cismar

Julho 6, 2015

Há um espectro que assola o mundo. O espectro da compaixão, da caridade, do “fazer o bem sem olhar a quem”. É nessa linha que se integra o novo livro de Catarina Furtado “O que vejo e não esqueço”. Uma linha editorial – posto que alcançou autoridade para assim se firmar – que mostra o lado humano dos famosos e ricos.

Um dos desportos favoritos dos famosos e ricos é tornarem-se beneméritos de projectos que envolvam situações de privação absoluta. Normalmente em países africanos ou asiáticos, alguns da América Latina, onde situações de escassez aguda nos mais elementares aspectos da vida coexistem com riqueza opulenta. É frequente vermos os bilionários das startups, inundados em consciência social, desviarem uns dinheiros para tais projectos. Catarina Furtado não se encontra no grupo dos bilionários, mas faz parte dos ricos num país como Portugal. A sua acção junto de comunidades carenciadas como embaixadora das nações unidas faz parte desta filantropia global. Esta tem características especiais. Pessoaliza a acção, porque uma vertigem propagandística segue as acções de caridade dos famosos. Banaliza a desgraça alheia, posto que se há uma Catarina televisiva a cuidar dos famintos da terra é porque tudo se encontra no seu lugar, e o peso correctivo da caridade colmata o espaço esvaziado dos mecanismos redistributivos.

Mas a produção do próprio livro fala mais do que mil palavras. Primeiro, a fotografia de capa. Uma Catarina em pose de diva do cinema dos anos sessenta, fotografia que poderia figurar em qualquer revista de moda feminina. É preciso vender a autora, e a esta vem associada uma imagem que carece preservar. Por isso, é espantoso como é que um livro que descreve as experiências de Catarina em alguns infernos terrestres se apresenta com a capa de um anúncio a cremes de beleza. Caprichos da edição, sem dúvida.

Segundo, a lógica subjacente à construção de uma tal narrativa. A contradição preside a todos os passos destes projectos. Há qualquer coisa de escandaloso na forma como o elemento apresentado enquanto abnegação – afinal Catarina podia estar numa quinta do douro vinhateiro a apanhar banhos de sol – atravessa os episódios do livro e se cola como verdade à personalidade da autora. Mas a máquina que faz Catarina ganhar 40, 50, 60 mil euros mensais é a mesma que produz situações de miséria extrema. Torna-se necessário articular estes dois momentos do movimento caritativo mundial. O mesmo, e ainda mais intensificado, para os bilionários que se comprazem em sustentar filantropicamente tantos destes projectos. A máquina que lhes permite alcançar fortunas astronómicas é a mesma que destrói países, aos quais posteriormente prestarão ajuda às populações esfaimadas através da filantropia. A máquina que faz com que as suas pequenas startups passem, de um dia para o outro, a valer biliões nos mercados de acções é a mesma que esbulha em dívidas especulativas estes países dos quais eles depois surgem como beneméritos. Catarina, para todos os efeitos, não está no mercado dos futuros e opções na ordem dos investimentos bilionários (estará quase de certeza num qualquer mercado de futuros e opções). Mas o princípio é o mesmo. A máquina que ganha milhões em publicidade global da qual Catarina garante o seu quinhão funcional é a mesma que faz disparar bolsas dando 1,2 biliões de euros a ganhar à pt de Zeinal Bava. Make no mistake, enquanto esta funcionar sem freios, os pretinhos que se enredam na saia de Catarina numa tabanca ensolarada continuarão a mostrar os seus umbigos inchados pela fome e desnutrição.

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