Skip to content

A quadratura do círculo

Julho 6, 2015

A vitória da democracia grega tem qualquer coisa de clássico, no sentido do zoon politikon de Aristóteles, do exercício da política enquanto factor diferenciador de uma humanidade específica. E tem por isso recolhido trocadilhos e dichotes nessa mesma direcção. Fosse outro o país e o efeito catártico de uma tal vitória não teria associação rápida à própria história da democracia. Como são usuais os remoques ou as laudatórias recorrendo à cultural clássica, nada tenho a acrescentar a esse surtido de florilégios – até por minha própria ignorância.

Contudo, não resisto. E passando o lado priápico da festa da vitória, pensando as bacantes que desmembram os donos da Europa em eufórica cerimónia, e roubando Édipo o segredo à esfinge do eurogrupo, há uma novidade saída do oráculo de delfos que é dada como verdade certa. Nos jornais norte-americanos, e até na coluna do inteligentíssimo Krugman, é certo que o destino grego será o drachma. O rotundo não mostrado aos credores terá como consequência assumida uma grexit – assim pensam consensualmente os cérebros da economia.

Ora isto seria de somenos caso se se tratasse de lentilhas. Porém, e aqui nem o próprio Édipo evitaria ser devorado pela Esfinge, os gregos não querem sair do euro. E se é verdade que Tsypras sai reforçado pelo plebiscito grego, também é certo que lhe deram uma missão impossível para cumprir: 61% não quer as medidas dos credores; 70 % quer permanecer no euro.

O mundo do futebol pode ensinar-nos qualquer coisa dos meandros políticos actuais. Nele o que aprendemos é que tudo tem uma medida diferente daquela que seria expectável. Por exemplo, num dia Quaresma diz que o Porto é o clube do seu coração; e no outro está de saída. O que impressiona nestes rapazes do futebol é que logo em tenra idade aprendem a ser insinceros com tudo o que os rodeia. Aprendem a falar em sound bits vazios de conteúdo para encher as paragonas jornalísticas; aprendem a nunca mostrar o que verdadeiramente pensam sobre quem os comanda, dirige, ou cobiça. Assim a política da União (mas eu arriscaria qualquer política). Depois da campanha de terror, bulling e intimidação movida contra os gregos, podíamos dizer que a Europa levou uma lição de honestidade democrática. Ingenuidade. A Europa, esta Europa, não aprende nem quer aprender, porque como no futebol nada é o que parece. Por isso, a reacção ao referendo grego é esperar pelas propostas de Tsypras. Forma capciosa de negociação. Aposto um dedo e um cabelo (velho provérbio grego) em como a Europa, o eurogrupo, vai rejeitar qualquer proposta grega. É como se convidassem os gregos a mostrarem ao mundo que por mais que queiram fazer a democracia funcionar há muito que esta foi sequestrada pelo dinheiro. Por isso, a reacção eurogrupal será quase de certeza um também rotundo não às propostas gregas.

Os americanos como Krugman perceberam que o espaço de manobra grego estreitou-se mais do que anteriormente. Isto não é pessimismo – chama-se poder. O Spiegel explica: “o tempo é agora de mostrar unidade contra Atenas”. A narrativa de que a Alemanha fez “tudo o que estava ao seu alcance” – os tropos idiotas e vazios, lá como cá, fazem o seu caminho: e eis o mundo do futebol! – é acolhida com contemplativo assentimento. Esta democracia chamada europeia é de uma chatice relapsa sobretudo quando funciona. Quando sai do bafio tecnocrático das comitologias, estraga tudo; e quando assim é, a unidade dos deuses olímpicos, sentados agora fora do horizonte da Hélade, fica ameaçada. O primeiro “não” a seguir ao “não” grego foi o de Merkel, rejeitando a proposta de Tsypras de reabrir as negociações em 48 horas. Abram vocês o vosso jogo, parece dizer Merkel, que nós cá estamos para vos destrunfar.  Não nos esqueçamos de uma coisa, quanto mais cresce o apoio a Tsypras na Grécia, mais Shauble ganha em popularidade na Alemanha. E nisto de contrários se encontrarem não fica apenas por curiosidades da opinião pública. Enquanto a Grécia era sangrada por transferências bilionárias dos muito ricos a salvarem as suas fortunas, esfregava a Alemanha as mãos de contente, porque era para lá que o grosso do dinheiro se encaminhava.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: