Skip to content

O que vem por aí

Julho 3, 2015

No final do Heart of Darkness – toda gente sabe isto, mas nunca é demais repeti-lo – Kurtz exclama, The horror, the horror, antes de oferecer a alma ao criador. Não quer dizer que eu vá oferecer a alma ao criador (mas afinal quem sabe: um carro vem em excesso de velocidade, não nos vê na passadeira, e zás, auf wiederseheen!), mas estou assolado pela mesma sensação: the horror, the horror!

Deve-se isto ao facto de ter assistido ao Social Innovation World Forum. Quem aqui (ousar) entrar deposite lá fora todas as suas esperanças – lia-se num cartaz luminoso a encimar a porta da sala de congressos. Sejamos claros: social innovation é uma forma de mercadorizar o sector social. Mas isto é dizer pouco. O que fascina na cavalgada de glória deste novo conceito, campo, horizonte (e ele é a jóia da coroa do Horizonte 2020) é que ele anuncia a vitória total do neoliberalismo e dos seus avatares ideológicos.

Primeiro a novilíngua: co-criation, co-innovation, co-construction, value criation, social innovation ecosystems, impact investment… What the fuck!!!???? Isto para dizer que os sectores sociais não lucrativos deixaram de ser interessantes para o Big business; e como os estados são actualmente governados pelo big business, por implicação, deixaram de ser interessantes para os estados.

Diz Nick Hurd, parafraseando Cameron, o seu patrão na loira Albion: Social sector equals innovation. Ou, dito de outra forma, no innovation, no Money. Por isso, oh arautos da boa-nova!, dai a possibilidade aos empregados de se erguerem pelo seu próprio pé! Aos doentes, de se curarem imaginativamente! Aos sem-abrigo de apresentarem soluções inovadoras para construir telhados! Não veem que este mundo está mesmo ao virar da esquina? O governo, essa versão plástica da representatividade, não pode acorrer a todos. E ouvimos a Internacional em pano de fundo, De pé ó vítimas do desemprego e do despejo – Mas pelo próprio pé, que diabo!

O script está montado. Portugal imita bem as estratégias e manigâncias dos oxfordianos de Cameron. E vai daí, importa ipsis verbis a cartilha da sociedade civil autónoma e suas ramificações marketizadas. Porra, que Cameron é tão preocupado com a desgraça alheia que até tem um ministro da sociedade civil! E que faz esse ministro? Social innovation. Uma ideia esplendorosa passou pelo firmamento qual cometa haley: pegar nas contas dormentes dos fundos estatais e investir em empreendedorismo social. Claro que estes milhões poderiam ter sido utilizados para aumentar o subsídio de desemprego; ou para reforçar a segurança social. Para quê? O mundo está repleto de empreendedores sociais com os dentinhos de fora à espera do seu pigy bank que há-de surgir em forma de uma ideia! Vivemos portanto numa ideocracia – sem ideias morre-se. A primeira ideia de todas é auto-sustentação. É esta que orienta todos os processos co-criativos ecosistémicos inovadores. Tornar o sector social num negócio, libertando-o do mesmo passo das grilhetas do Estado é certamente aliciante. Sobretudo porque instila nesse mesmo sector as mesmas regras concorrenciais dos sistemas de mercado. Obriga por conseguinte a seguir as mesmas estratégias: diversificação, concorrência, marketing, posição de mercado e eventualmente monopolização. Numa fórmula simples, cria ganhadores e perdedores. Ora o sector social instituiu-se para fazer face aos problemas de desintegração que os perdedores do mercado sofriam. Os equilíbrios, perturbados justamente pela ineficácia distributiva do mercado, seriam restaurados através não apenas de entidades exteriores a esse mesmo sistema, mas por regras e lógicas qualitativamente diferentes. Suficientemente diferentes para que a lógica de perdedores e ganhadores dos sistemas concorrenciais não fosse o seu sustentáculo.

A experiência da inovação social faz transitar essa lógica para dentro do sector social, recriando nele a fractura radical que separa vencedores de perdedores. Retirando-se a entidade externa que serve de reequilibrador (o Estado na maioria das vezes) qual será o mecanismo que irá acautelar os perdedores dos ecossistemas inovativos do sector social? Nenhum. Nesse sentido, falar de um sector social será um abuso de linguagem na medida que só existirão mercados. Uns mais lucrativos, outros menos – mas mercados.

Anúncios
No comments yet

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: