A quadratura do círculo

A vitória da democracia grega tem qualquer coisa de clássico, no sentido do zoon politikon de Aristóteles, do exercício da política enquanto factor diferenciador de uma humanidade específica. E tem por isso recolhido trocadilhos e dichotes nessa mesma direcção. Fosse outro o país e o efeito catártico de uma tal vitória não teria associação rápida à própria história da democracia. Como são usuais os remoques ou as laudatórias recorrendo à cultural clássica, nada tenho a acrescentar a esse surtido de florilégios – até por minha própria ignorância.

Contudo, não resisto. E passando o lado priápico da festa da vitória, pensando as bacantes que desmembram os donos da Europa em eufórica cerimónia, e roubando Édipo o segredo à esfinge do eurogrupo, há uma novidade saída do oráculo de delfos que é dada como verdade certa. Nos jornais norte-americanos, e até na coluna do inteligentíssimo Krugman, é certo que o destino grego será o drachma. O rotundo não mostrado aos credores terá como consequência assumida uma grexit – assim pensam consensualmente os cérebros da economia.

Ora isto seria de somenos caso se se tratasse de lentilhas. Porém, e aqui nem o próprio Édipo evitaria ser devorado pela Esfinge, os gregos não querem sair do euro. E se é verdade que Tsypras sai reforçado pelo plebiscito grego, também é certo que lhe deram uma missão impossível para cumprir: 61% não quer as medidas dos credores; 70 % quer permanecer no euro.

O mundo do futebol pode ensinar-nos qualquer coisa dos meandros políticos actuais. Nele o que aprendemos é que tudo tem uma medida diferente daquela que seria expectável. Por exemplo, num dia Quaresma diz que o Porto é o clube do seu coração; e no outro está de saída. O que impressiona nestes rapazes do futebol é que logo em tenra idade aprendem a ser insinceros com tudo o que os rodeia. Aprendem a falar em sound bits vazios de conteúdo para encher as paragonas jornalísticas; aprendem a nunca mostrar o que verdadeiramente pensam sobre quem os comanda, dirige, ou cobiça. Assim a política da União (mas eu arriscaria qualquer política). Depois da campanha de terror, bulling e intimidação movida contra os gregos, podíamos dizer que a Europa levou uma lição de honestidade democrática. Ingenuidade. A Europa, esta Europa, não aprende nem quer aprender, porque como no futebol nada é o que parece. Por isso, a reacção ao referendo grego é esperar pelas propostas de Tsypras. Forma capciosa de negociação. Aposto um dedo e um cabelo (velho provérbio grego) em como a Europa, o eurogrupo, vai rejeitar qualquer proposta grega. É como se convidassem os gregos a mostrarem ao mundo que por mais que queiram fazer a democracia funcionar há muito que esta foi sequestrada pelo dinheiro. Por isso, a reacção eurogrupal será quase de certeza um também rotundo não às propostas gregas.

Os americanos como Krugman perceberam que o espaço de manobra grego estreitou-se mais do que anteriormente. Isto não é pessimismo – chama-se poder. O Spiegel explica: “o tempo é agora de mostrar unidade contra Atenas”. A narrativa de que a Alemanha fez “tudo o que estava ao seu alcance” – os tropos idiotas e vazios, lá como cá, fazem o seu caminho: e eis o mundo do futebol! – é acolhida com contemplativo assentimento. Esta democracia chamada europeia é de uma chatice relapsa sobretudo quando funciona. Quando sai do bafio tecnocrático das comitologias, estraga tudo; e quando assim é, a unidade dos deuses olímpicos, sentados agora fora do horizonte da Hélade, fica ameaçada. O primeiro “não” a seguir ao “não” grego foi o de Merkel, rejeitando a proposta de Tsypras de reabrir as negociações em 48 horas. Abram vocês o vosso jogo, parece dizer Merkel, que nós cá estamos para vos destrunfar.  Não nos esqueçamos de uma coisa, quanto mais cresce o apoio a Tsypras na Grécia, mais Shauble ganha em popularidade na Alemanha. E nisto de contrários se encontrarem não fica apenas por curiosidades da opinião pública. Enquanto a Grécia era sangrada por transferências bilionárias dos muito ricos a salvarem as suas fortunas, esfregava a Alemanha as mãos de contente, porque era para lá que o grosso do dinheiro se encaminhava.

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O que vejo e me faz cismar

Há um espectro que assola o mundo. O espectro da compaixão, da caridade, do “fazer o bem sem olhar a quem”. É nessa linha que se integra o novo livro de Catarina Furtado “O que vejo e não esqueço”. Uma linha editorial – posto que alcançou autoridade para assim se firmar – que mostra o lado humano dos famosos e ricos.

Um dos desportos favoritos dos famosos e ricos é tornarem-se beneméritos de projectos que envolvam situações de privação absoluta. Normalmente em países africanos ou asiáticos, alguns da América Latina, onde situações de escassez aguda nos mais elementares aspectos da vida coexistem com riqueza opulenta. É frequente vermos os bilionários das startups, inundados em consciência social, desviarem uns dinheiros para tais projectos. Catarina Furtado não se encontra no grupo dos bilionários, mas faz parte dos ricos num país como Portugal. A sua acção junto de comunidades carenciadas como embaixadora das nações unidas faz parte desta filantropia global. Esta tem características especiais. Pessoaliza a acção, porque uma vertigem propagandística segue as acções de caridade dos famosos. Banaliza a desgraça alheia, posto que se há uma Catarina televisiva a cuidar dos famintos da terra é porque tudo se encontra no seu lugar, e o peso correctivo da caridade colmata o espaço esvaziado dos mecanismos redistributivos.

Mas a produção do próprio livro fala mais do que mil palavras. Primeiro, a fotografia de capa. Uma Catarina em pose de diva do cinema dos anos sessenta, fotografia que poderia figurar em qualquer revista de moda feminina. É preciso vender a autora, e a esta vem associada uma imagem que carece preservar. Por isso, é espantoso como é que um livro que descreve as experiências de Catarina em alguns infernos terrestres se apresenta com a capa de um anúncio a cremes de beleza. Caprichos da edição, sem dúvida.

Segundo, a lógica subjacente à construção de uma tal narrativa. A contradição preside a todos os passos destes projectos. Há qualquer coisa de escandaloso na forma como o elemento apresentado enquanto abnegação – afinal Catarina podia estar numa quinta do douro vinhateiro a apanhar banhos de sol – atravessa os episódios do livro e se cola como verdade à personalidade da autora. Mas a máquina que faz Catarina ganhar 40, 50, 60 mil euros mensais é a mesma que produz situações de miséria extrema. Torna-se necessário articular estes dois momentos do movimento caritativo mundial. O mesmo, e ainda mais intensificado, para os bilionários que se comprazem em sustentar filantropicamente tantos destes projectos. A máquina que lhes permite alcançar fortunas astronómicas é a mesma que destrói países, aos quais posteriormente prestarão ajuda às populações esfaimadas através da filantropia. A máquina que faz com que as suas pequenas startups passem, de um dia para o outro, a valer biliões nos mercados de acções é a mesma que esbulha em dívidas especulativas estes países dos quais eles depois surgem como beneméritos. Catarina, para todos os efeitos, não está no mercado dos futuros e opções na ordem dos investimentos bilionários (estará quase de certeza num qualquer mercado de futuros e opções). Mas o princípio é o mesmo. A máquina que ganha milhões em publicidade global da qual Catarina garante o seu quinhão funcional é a mesma que faz disparar bolsas dando 1,2 biliões de euros a ganhar à pt de Zeinal Bava. Make no mistake, enquanto esta funcionar sem freios, os pretinhos que se enredam na saia de Catarina numa tabanca ensolarada continuarão a mostrar os seus umbigos inchados pela fome e desnutrição.

O que vem por aí

No final do Heart of Darkness – toda gente sabe isto, mas nunca é demais repeti-lo – Kurtz exclama, The horror, the horror, antes de oferecer a alma ao criador. Não quer dizer que eu vá oferecer a alma ao criador (mas afinal quem sabe: um carro vem em excesso de velocidade, não nos vê na passadeira, e zás, auf wiederseheen!), mas estou assolado pela mesma sensação: the horror, the horror!

Deve-se isto ao facto de ter assistido ao Social Innovation World Forum. Quem aqui (ousar) entrar deposite lá fora todas as suas esperanças – lia-se num cartaz luminoso a encimar a porta da sala de congressos. Sejamos claros: social innovation é uma forma de mercadorizar o sector social. Mas isto é dizer pouco. O que fascina na cavalgada de glória deste novo conceito, campo, horizonte (e ele é a jóia da coroa do Horizonte 2020) é que ele anuncia a vitória total do neoliberalismo e dos seus avatares ideológicos.

Primeiro a novilíngua: co-criation, co-innovation, co-construction, value criation, social innovation ecosystems, impact investment… What the fuck!!!???? Isto para dizer que os sectores sociais não lucrativos deixaram de ser interessantes para o Big business; e como os estados são actualmente governados pelo big business, por implicação, deixaram de ser interessantes para os estados.

Diz Nick Hurd, parafraseando Cameron, o seu patrão na loira Albion: Social sector equals innovation. Ou, dito de outra forma, no innovation, no Money. Por isso, oh arautos da boa-nova!, dai a possibilidade aos empregados de se erguerem pelo seu próprio pé! Aos doentes, de se curarem imaginativamente! Aos sem-abrigo de apresentarem soluções inovadoras para construir telhados! Não veem que este mundo está mesmo ao virar da esquina? O governo, essa versão plástica da representatividade, não pode acorrer a todos. E ouvimos a Internacional em pano de fundo, De pé ó vítimas do desemprego e do despejo – Mas pelo próprio pé, que diabo!

O script está montado. Portugal imita bem as estratégias e manigâncias dos oxfordianos de Cameron. E vai daí, importa ipsis verbis a cartilha da sociedade civil autónoma e suas ramificações marketizadas. Porra, que Cameron é tão preocupado com a desgraça alheia que até tem um ministro da sociedade civil! E que faz esse ministro? Social innovation. Uma ideia esplendorosa passou pelo firmamento qual cometa haley: pegar nas contas dormentes dos fundos estatais e investir em empreendedorismo social. Claro que estes milhões poderiam ter sido utilizados para aumentar o subsídio de desemprego; ou para reforçar a segurança social. Para quê? O mundo está repleto de empreendedores sociais com os dentinhos de fora à espera do seu pigy bank que há-de surgir em forma de uma ideia! Vivemos portanto numa ideocracia – sem ideias morre-se. A primeira ideia de todas é auto-sustentação. É esta que orienta todos os processos co-criativos ecosistémicos inovadores. Tornar o sector social num negócio, libertando-o do mesmo passo das grilhetas do Estado é certamente aliciante. Sobretudo porque instila nesse mesmo sector as mesmas regras concorrenciais dos sistemas de mercado. Obriga por conseguinte a seguir as mesmas estratégias: diversificação, concorrência, marketing, posição de mercado e eventualmente monopolização. Numa fórmula simples, cria ganhadores e perdedores. Ora o sector social instituiu-se para fazer face aos problemas de desintegração que os perdedores do mercado sofriam. Os equilíbrios, perturbados justamente pela ineficácia distributiva do mercado, seriam restaurados através não apenas de entidades exteriores a esse mesmo sistema, mas por regras e lógicas qualitativamente diferentes. Suficientemente diferentes para que a lógica de perdedores e ganhadores dos sistemas concorrenciais não fosse o seu sustentáculo.

A experiência da inovação social faz transitar essa lógica para dentro do sector social, recriando nele a fractura radical que separa vencedores de perdedores. Retirando-se a entidade externa que serve de reequilibrador (o Estado na maioria das vezes) qual será o mecanismo que irá acautelar os perdedores dos ecossistemas inovativos do sector social? Nenhum. Nesse sentido, falar de um sector social será um abuso de linguagem na medida que só existirão mercados. Uns mais lucrativos, outros menos – mas mercados.