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Mi Pex

Junho 12, 2015

Chegou mais uma edição do mipex. Chega sempre aqui ao burgo com fanfarra e cortejo nupcial.

O mipex coloca-nos a sonhar. Podemos estar num honroso primeiro lugar no índice dos países  mais desiguais da Europa (e em lugares cimeiros quando se trata do mundo); ter os níveis de pobreza infantil mais elevados entre os Estados Membros; possuirmos um nível de desemprego de fazer inveja aos mais reformistas dos países norte-europeus; e termos uma emigração que subiu de rompante nos últimos quatro anos a alcançar valores superiores a toda a emigração da década de sessenta. Mas quando chega o mipex nada disso importa – cabe-nos um honroso segundo lugar no índice das políticas de imigração! Só atrás da Suécia, esse país em que o estado-providência é uma miragem.

Uma das dimensões do índice deixa-me sempre particularmente cismado: o anti-racismo. Que bom é ver Portugal a ombrear com a Inglaterra e a Suécia em matéria de anti-racismo. Pouco interessa que não haja um estudo sobre discriminação racial em nenhuma das tradicionais áreas de investigação deste fenómeno: educação, mercado de trabalho e habitacional, violência policial… Nada. Nunca foi feito, desconhece-se quem o queira fazer, e tão-pouco existem instrumentos para tal. Mas o mipex afiança que igual a nós só mesmo a Inglaterra e a Suécia. Até poderia ser, não se desse o caso de esses dois últimos países recolherem informação sobre o fenómeno há décadas; de a trabalharem, escrutinarem e publicarem análises dos seus efeitos, em matéria de segregação residencial, de códigos de conduta, de paridade laboral, etc. Por isso, a única razão que pode explicar a entrada no pódio de Portugal é a falta de comparência. Suspeito que o método mipex se paute pela fórmula “em dúvida, o valor médio”.

Agora convenhamos, e perdoem o prosaísmo da provocação, mas como é que com leis tão boas (e supõe-se por inerência lógica, condições ainda melhores) os imigrantes estão todos a cavar? Os portugueses cavam em proporções ainda maiores… Não há empregos? Aqueles que ainda subsistem exploram os trabalhadores até ao tutano? Os fluxos tradicionais de imigrantes encontram-se, apenas com a excepção dos romenos (censos de 2011) em queda? E ainda assim o mipex insiste ano após ano em atribuir a coroa de glória a Portugal.

De duas uma, ou o índice mede políticas sem qualquer consideração pelas suas consequências (ou falta delas), ou o país está óptimo e nós é que não alcançamos aquilo que o índice na sua sabedoria nos devolve.

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One Comment leave one →
  1. Junho 12, 2015 6:49 pm

    Cor leon?! esse indicador científico – tão fidedigno – afinal não gera confiança cognitiva? 🙂

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