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Falem mal ou bem de mim – mas falem, porra!

Junho 2, 2015

O estudo sensação do momento é sobre o Hospital de Santa Maria e foi encomendado pela Fundação Manuel dos Santos. O exame efectuado ao hospital foi enquadrado numa comparação com outras instituições, tais como a EDP, a Bolsa de Lisboa, a ASAE e a Autoridade Tributária. Tomando o bulício que se gerou em torno do estudo que visa a instituição de saúde dir-se-ia que os outros estariam isentos de crítica. Não sei, nem quero saber, porque não tenciono ler nenhum. Todavia duas coisas devem ser ditas a respeito das críticas apontadas ao estudo de Sónia Pires ao hospital de Santa Maria.

Primeiro, quanto aos aspectos metodológicos. O purismo científico que alguns esgrimam contra o estudo embateria contra uma muralha de silêncio se tivéssemos em conta os milhares de trabalhos em sociologia, antropologia e por vezes em psicologia que se baseiam em números aproximados de trinta entrevistas. Estudos qualitativos como estes não procuram representatividade, mas devolvem elementos a que técnicas extensivas não acedem. Como sejam por exemplo as estratégias dos actores visados, os seus sistemas de significado, os seus quadros valorativos. Elementos que dificilmente são colhidos em inquéritos extensivos do estilo tick box and check list. O problema é que a autora não se coibiu de usar uma linguagem que roça o sensacionalismo quando a natureza da própria técnica recomendava a prudência. Por isso, o uso de afirmações bombásticas que mais parecem buriladas para o recorte jornalístico posterior deveria ter sido escrupulosamente evitado.

Por outro lado, as razões que presidiram à selecção daquelas instituições afiguram-se – pelo menos a quem apenas leu os artigos de jornal – obscuras. O que poderá justificar a comparação entre a Bolsa de Lisboa e o Hospital de Santa Maria? Percebe-se uma intenção subjacente em aquilatar diferenças entre público e privado; mas fazer tabula rasa de diferenças de especialização e de orientação do serviço, é desavisado. Difícil apagar a sensação que a escolha foi guiada por uma deliberada vontade em mostrar distâncias incomensuráveis.

Segundo, quanto ao conteúdo do estudo. As revelações que este traz à luz não convidam a qualquer surpresa nem ao burburinho de hecatombe institucional que a difusão jornalística se fez acompanhar. Visto bem, os processos ali descritos deveriam suscitar reflexão se não se prestassem imediatamente à mofa das conspirações secretas. A Opus? A maçonaria? E por que não os Illuminati? Ou a Mossad? Perdeu-se assim uma boa oportunidade de escrutinar processos duvidosos, e generalizados, nas instituições portuguesas. A singularização do Santa Maria neste estudo exige de imediato perguntar o que o torna assim tão singular. Até porque os processos descritos pela socióloga sugerem práticas bem mais comuns, e de maneira nenhuma podem ser acantonados a uma qualquer “originalidade” do hospital em causa. Ficamos onde então? O Santa Maria carrega consigo o estigma de amalgamar todos os vícios da corrupção dos bons hábitos? Certamente que não. É bem verdade que assimilar corrupção apenas aos crimes de colarinho branco embrulhados em nomes altissonantes como “Marquês” e quejandos, priva-nos de um olhar microscópico sobre o que laboriosamente se corrompe no quotidiano. No entanto, concursos cujo resultado é ditado pelo compadrio, está-se mesmo a ver que só acontecem no Santa Maria! Listas de espera tripudiadas? Prática que só reconhecemos do Santa Maria!

É nisto que o estudo se afunda; e é pena que assim seja. Ao querer ser mais papista que o Papa perdeu uma perspectiva mais abrangente: aquela que poderia mostrar a arbitrariedade dos procedimentos enquanto mecanismo institucional, as relações estruturais enviesadas por pressões externas à instituição (como as ligações com a Faculdade de Medicina relevados no relatório), e em última análise os métodos de açambarcamento de oportunidades (tradução livre de opportunity hoarding) generalizados nos campos organizacionais. Este conjunto de factores merecia ser de facto analisado e as suas causas (bem assim como as causas para a sua disseminação tão sem inércia) investigadas. Sem cair nas mistificações dos tentáculos de sociedades secretas e interesses partidários.

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