Mi Pex

Chegou mais uma edição do mipex. Chega sempre aqui ao burgo com fanfarra e cortejo nupcial.

O mipex coloca-nos a sonhar. Podemos estar num honroso primeiro lugar no índice dos países  mais desiguais da Europa (e em lugares cimeiros quando se trata do mundo); ter os níveis de pobreza infantil mais elevados entre os Estados Membros; possuirmos um nível de desemprego de fazer inveja aos mais reformistas dos países norte-europeus; e termos uma emigração que subiu de rompante nos últimos quatro anos a alcançar valores superiores a toda a emigração da década de sessenta. Mas quando chega o mipex nada disso importa – cabe-nos um honroso segundo lugar no índice das políticas de imigração! Só atrás da Suécia, esse país em que o estado-providência é uma miragem.

Uma das dimensões do índice deixa-me sempre particularmente cismado: o anti-racismo. Que bom é ver Portugal a ombrear com a Inglaterra e a Suécia em matéria de anti-racismo. Pouco interessa que não haja um estudo sobre discriminação racial em nenhuma das tradicionais áreas de investigação deste fenómeno: educação, mercado de trabalho e habitacional, violência policial… Nada. Nunca foi feito, desconhece-se quem o queira fazer, e tão-pouco existem instrumentos para tal. Mas o mipex afiança que igual a nós só mesmo a Inglaterra e a Suécia. Até poderia ser, não se desse o caso de esses dois últimos países recolherem informação sobre o fenómeno há décadas; de a trabalharem, escrutinarem e publicarem análises dos seus efeitos, em matéria de segregação residencial, de códigos de conduta, de paridade laboral, etc. Por isso, a única razão que pode explicar a entrada no pódio de Portugal é a falta de comparência. Suspeito que o método mipex se paute pela fórmula “em dúvida, o valor médio”.

Agora convenhamos, e perdoem o prosaísmo da provocação, mas como é que com leis tão boas (e supõe-se por inerência lógica, condições ainda melhores) os imigrantes estão todos a cavar? Os portugueses cavam em proporções ainda maiores… Não há empregos? Aqueles que ainda subsistem exploram os trabalhadores até ao tutano? Os fluxos tradicionais de imigrantes encontram-se, apenas com a excepção dos romenos (censos de 2011) em queda? E ainda assim o mipex insiste ano após ano em atribuir a coroa de glória a Portugal.

De duas uma, ou o índice mede políticas sem qualquer consideração pelas suas consequências (ou falta delas), ou o país está óptimo e nós é que não alcançamos aquilo que o índice na sua sabedoria nos devolve.

Dia da nação

A Nação é um conceito preguiçoso. No mesmo amplexo patriótico vivem a Dona Celeste e a Dona Gertrudes. A Dona Celeste, cruzei-me com ela nas finanças pela tardinha, tem tempo para arejar os pés (assim como eu) e dar respaldo aos negócios. Então Dona Celeste, está por cá?, perguntou-lhe a Brasileira. Olhe vim cá a negócios, respondeu-lhe a Dona Celeste. Ah, sim?, inquiriu a Brasileira – E que negócios? Olhe, comprámos uma moradia na primeira linha da Marginal, e dois prédios! Não me diga…, esbugalha os olhos de espanto a Brasileira. Agora é renovar e pôr a vender pr´ós turistas, atalha a Celeste. Apressa-se a Brasileira, Conheço um americano que é capaz de estar interessado na moradia… Diga-lhe para falar comigo, que vai estar decorada ao gosto do cliente,  remata triunfante a Celeste.

Dona Gertrudes tem dupla jornada. Entre às 7.00 na escola da Abrunheira, onde é vigilante; repega no Pingo Doce às 17.00 onde trabalha como caixa. Por lá fica, por vezes, até às 23.00. Não tem carro próprio, por isso desloca-se nas vimecas, cada vez mais intermitentes e vazias. Quando chega a casa é quase meia-noite. Os putos, um rapaz e uma rapariga, são crescidinhos o suficiente para desenrascarem o jantar. Gertrudes pouco os vê ultimamente. Para pagar o empréstimo ao banco e mais as despesas dos miúdos precisa de dois empregos. Se a isso somarmos o tempo nas paragens da vimeca, faça chuva ou sol abrasador, então a sua vida esvai-se na correria.

O americano que vem cá ver a moradia – linda moradia, vista para o mar, a três minutos da praia de Carcavelos a passo estugado – mal sabe que a América mora aqui ao lado. A terra prometida do duplo emprego, dos dois jobs para pagar o empréstimo para a casa, ou a mortgage como se diz por lá, e a reforma um dia se verá! Ter trabalhinho é benesse suficiente – não  se vão pôr agora com esquisitices.

A Dona Celeste está feliz com o andamento dos negócios. No país do turismo, cada talhão vendido a um americano, mais provavelmente alemão, ou quiçá chinês, faz várias crianças felizes. As da Dona Celeste que frequentam colégios com nomes monásticos, tais como Salazianos ou Maristas. As crianças da Dona Gertrudes não pedem dinheiro para o carro que iriam com certeza receber aos 18 anos caso fossem da Dona Celeste; essas castigam os pais com esse desígnio desde os quinze. A Dona Gertrudes dá dinheiro para os filhos comerem na cantina da escola, cuja qualidade se vai deteriorando, e já nem arroz doce surge na sobremesa. Enquanto os da dona Celeste pedem dinheiro para comer na pizzarela, onde a pizza é a vinte euros. A Dona Gertrudes está cansada, as rugas sulcam-lhe a pele das outrora faces rosadas; os pesadelos e o stress instalam-se nas olheiras pesadas; a cerviz sofre daquelas horas sentadas a empurrar embalagens de plástico. A Dona Celeste anda impante: comprou um carro novo, vejam lá, um Porche Panamera, só um pouco mais caro do que a totalidade do empréstimo da Dona Gertrudes. O marido cada vez mete mais dinheiro em casa dos negócios em Angola, e as transações em imobiliário de luxo vão de vento em popa. A Dona Gertrudes tem medo que o seu segundo emprego vá por água abaixo, por causa das reestruturações, dizem eles, não se pode pagar tanto de irc, dizem eles, e não há dinheiro que chegue para pagar os ordenados a todos, dizem eles. E Gertrudes fica a cismar: se perde aquele não consegue pagar a casa só com o que ganha da escola. Há ainda uma lista aprumada de disponíveis, e se ainda conseguir esse prémio, pode ser que vá tudo viver para a rua. Na Canção de Lisboa era assim: uma beatífica felicidade por ser despejado.

Cavaco, o esfíngico, diz não ceder a pessimismos ou desistências. Falará ele para a Dona Celeste ou para a Dona Gertrudes?

Bandalheira

Porquê espantarmo-nos com a corrupção na FIFA? Por que achamos nós que Blatter é o único mafioso; ou que a entourage de Blatter são os exemplares malandros do mundo do futebol? Não estamos fartos de certos olores que advém desse belo universo nos fazerem uma tal confusão à pituitária que quase nos levam ao vómito?

Quando Luís Figo aparece com aquele ar padreca a dizer que quer o futebol mais transparente, teremos que interpretar como querendo o futebol mais transparente para ele. Quando as cascavéis não abocanham todas pela mesma medida, começam a atacar-se umas às outras, e essa foi porventura a razão da queda do império Blatter.

Isto fede que tresanda. E não é com certeza difícil imaginar que tais práticas contaminam generalizadamente o mundo do futebol. Há muito que se conhece a promiscuidade entre política e futebol – os grandes estádios a coincidirem com ciclos eleitoralistas ou com legislaturas, as negociatas entre construtoras e presidentes de clubes, etc. Agora, com grande espavento, publicita-se a política do futebol: o suborno, a corrupção, a moscambilha, etc. A propósito da última, vem a transferência de Jesus a talhe de foice. Num mundo impoluto, tal coisa seria impossível. As pessoas pautam-se por valores, esses valores regulam condutas, e estas por sua vez implicam expectativas. Isto num mundo impoluto, logo previsível dentro do razoável. Mas na bandalheira, é fácil ser bandalho. Não há lealdades; a fidelidade é uma palavra rasurada pelos cifrões; a promessa uma coisa quase tão volátil como os recursos humanos. E bem, esta até pode levar à contradição: afinal Jesus estava comprometido com um destino ao ter prometido ao seu velho pai que um dia seria treinador dos Leões. Bollocks! Se lhe tivessem acenado com um contrato do Arsenal ou do Manchester, o Jesus dava corda às sapatilhas e ala que me vou!

No entanto, não é possível afastar este sentimento de orfandade que a partida de Jesus deixa. Sou daqueles que não acredita que o Benfica jogará à Jesus com outro treinador. Sou daqueles que duvida da auto-sustentação da estrutura. Sou daqueles que acha que os tridentes de ataque latino-americanos não crescem nas árvores e que a mão de Jesus ali estava para espalhar a sua magia. Enfim, Jesus fez esta sacanisse porque no mundo porco do futebol ela passa por “opções de carreira”. Bandear-se para equipa rival com o conhecimento interno daquela que deixa não é “carreira” é filha da putice, seja ela declinada em qualquer área. Mourinho fez a mesma coisa. Mas o tempo que passou no Benfica não foi de molde a causar traumas. Parece que a sacanisse, a pulhice, tem prémio no futebol.

Por isso, por quê admirarmo-nos com o vendaval que atinge a FIFA? Blatter e o seu séquito são a imagem escarrada do futebol. Não há “pior” em Blatter por relação a Figo ou Plattini. Come tudo na mesma gamela. Conhecem todos os podres uns dos outros. E a razão é simples: provêm todos do mesmo mundo de lixo e podridão. O que é que o futebol tem a ver com isto? Na realidade nada. Devíamos exigir que este regressasse a uma qualquer condição pristina de desporto rei que há muito perdeu.

Falem mal ou bem de mim – mas falem, porra!

O estudo sensação do momento é sobre o Hospital de Santa Maria e foi encomendado pela Fundação Manuel dos Santos. O exame efectuado ao hospital foi enquadrado numa comparação com outras instituições, tais como a EDP, a Bolsa de Lisboa, a ASAE e a Autoridade Tributária. Tomando o bulício que se gerou em torno do estudo que visa a instituição de saúde dir-se-ia que os outros estariam isentos de crítica. Não sei, nem quero saber, porque não tenciono ler nenhum. Todavia duas coisas devem ser ditas a respeito das críticas apontadas ao estudo de Sónia Pires ao hospital de Santa Maria.

Primeiro, quanto aos aspectos metodológicos. O purismo científico que alguns esgrimam contra o estudo embateria contra uma muralha de silêncio se tivéssemos em conta os milhares de trabalhos em sociologia, antropologia e por vezes em psicologia que se baseiam em números aproximados de trinta entrevistas. Estudos qualitativos como estes não procuram representatividade, mas devolvem elementos a que técnicas extensivas não acedem. Como sejam por exemplo as estratégias dos actores visados, os seus sistemas de significado, os seus quadros valorativos. Elementos que dificilmente são colhidos em inquéritos extensivos do estilo tick box and check list. O problema é que a autora não se coibiu de usar uma linguagem que roça o sensacionalismo quando a natureza da própria técnica recomendava a prudência. Por isso, o uso de afirmações bombásticas que mais parecem buriladas para o recorte jornalístico posterior deveria ter sido escrupulosamente evitado.

Por outro lado, as razões que presidiram à selecção daquelas instituições afiguram-se – pelo menos a quem apenas leu os artigos de jornal – obscuras. O que poderá justificar a comparação entre a Bolsa de Lisboa e o Hospital de Santa Maria? Percebe-se uma intenção subjacente em aquilatar diferenças entre público e privado; mas fazer tabula rasa de diferenças de especialização e de orientação do serviço, é desavisado. Difícil apagar a sensação que a escolha foi guiada por uma deliberada vontade em mostrar distâncias incomensuráveis.

Segundo, quanto ao conteúdo do estudo. As revelações que este traz à luz não convidam a qualquer surpresa nem ao burburinho de hecatombe institucional que a difusão jornalística se fez acompanhar. Visto bem, os processos ali descritos deveriam suscitar reflexão se não se prestassem imediatamente à mofa das conspirações secretas. A Opus? A maçonaria? E por que não os Illuminati? Ou a Mossad? Perdeu-se assim uma boa oportunidade de escrutinar processos duvidosos, e generalizados, nas instituições portuguesas. A singularização do Santa Maria neste estudo exige de imediato perguntar o que o torna assim tão singular. Até porque os processos descritos pela socióloga sugerem práticas bem mais comuns, e de maneira nenhuma podem ser acantonados a uma qualquer “originalidade” do hospital em causa. Ficamos onde então? O Santa Maria carrega consigo o estigma de amalgamar todos os vícios da corrupção dos bons hábitos? Certamente que não. É bem verdade que assimilar corrupção apenas aos crimes de colarinho branco embrulhados em nomes altissonantes como “Marquês” e quejandos, priva-nos de um olhar microscópico sobre o que laboriosamente se corrompe no quotidiano. No entanto, concursos cujo resultado é ditado pelo compadrio, está-se mesmo a ver que só acontecem no Santa Maria! Listas de espera tripudiadas? Prática que só reconhecemos do Santa Maria!

É nisto que o estudo se afunda; e é pena que assim seja. Ao querer ser mais papista que o Papa perdeu uma perspectiva mais abrangente: aquela que poderia mostrar a arbitrariedade dos procedimentos enquanto mecanismo institucional, as relações estruturais enviesadas por pressões externas à instituição (como as ligações com a Faculdade de Medicina relevados no relatório), e em última análise os métodos de açambarcamento de oportunidades (tradução livre de opportunity hoarding) generalizados nos campos organizacionais. Este conjunto de factores merecia ser de facto analisado e as suas causas (bem assim como as causas para a sua disseminação tão sem inércia) investigadas. Sem cair nas mistificações dos tentáculos de sociedades secretas e interesses partidários.

As virtudes dos bancos alimentares

Poucas dúvidas restam quanto à necessidade de uma distribuição alternativa de recursos (neste caso alimentares) numa altura em que o Estado se demite de assegurar o bem-estar dos seus cidadãos. E como referia Nicolau Santos na sua crónica desta manhã, existem aspectos positivos e negativos na avaliação da expansão da rede dos bancos alimentares. A progressão deste alargamento é, quanto mim, sempre de criticar. Ninguém pode ficar muito satisfeito com a multiplicação de tais instituições porque isso significa apenas que cada vez há mais pessoas que não conseguem assegurar um mínimo para o seu sustento. Se tivermos em conta que em 2002 havia um banco alimentar contra a fome (BACF) em Lisboa e que actualmente existem 21 espalhados pelo país, a primeira pergunta a fazer é qual é o significado deste crescimento exponencial? A primeira ilação é de que se trata de uma deslocação objectiva de recursos do Estado distribuídos pela segurança social, ou pela estrutura do Estado de bem-estar, para subestruturas sociais na sua maioria ligadas à igreja católica. Nesta transição, com o seu quê de abrupto dado o curto período em que foi efectuada, existe uma transação social particular que é recuperada: a caridade.

As declarações dos responsáveis e voluntários dos BACF são a este título ilustrativas. Frases respigadas neste universo sobre como é bom “dar” e como “fazer o bem não custa”, constituem representações mais amplas sobre o papel dos mecanismos de solidariedade e redistribuição de uma sociedade. Mais exemplificativo ainda é o discurso de Isabel Jonet onde pontua um regozijo estranho perante o alargar da miséria que o incremento de tais instituições indicia. Mas o que se afigura mais redolente de significados contorcidos, é como não há uma palavra sobre essa mesma situação calamitosa da parte de Jonet. Parece que vivendo no melhor dos mundos possíveis, é uma bênção ter tantos e tão eficazes bancos alimentares. É como se alguém se alegrasse por ver as antigas mitras recuperarem o lugar de rede de entreajuda, ou a sopa dos pobres regressar como instituição onde se misturam em doses iguais a má consciência dos ricos aliviada pela caridade com os pobrezinhos mas honrados de antanho. Em verdade, não andamos muito longe disso, basta auscultar esses mesmos significados na insidiosa frase de Passos “é preciso empobrecer primeiro” – nela se esconde a honradez da poupança com as virtudes da pobreza… para os pobres.

Há um momento particularmente especioso nesta concepção: quando Jonet diz que não é preciso dar muito, e mesmo os que têm pouco podem contribuir. Aqui encerra-se toda uma doutrina de elogio da pobreza. Porque Jonet nunca assinala o escândalo que é tantos terem tanto e contribuírem tão pouco; menos ainda a parece escandalizar que seja o seu banco alimentar a suprir as necessidades que deveriam ser satisfeitas através de ordenados e apoios universais. Nada. Existe uma beleza transcendental no acto da dádiva. Um Portugal salvo pela boa vontade das boas almas é um Portugal santificado perante o olhar atento do senhor. Porquê deixar nas mãos do Estado o que pode ser deixado em mãos divinas?