A derrota do Labour e algumas possíveis lições para o PS

É extremamente importante retirar ilações dos contornos da derrota de Miliband para Portugal. Se o contentamento da coligação anunciada no 25 de Abril perante a vitória retumbante dos Tories na Inglaterra era indisfarçável, a preocupação por parte do PS é mais que justificável. Mas não deve António Costa ficar paralisado a cismar na hipótese brutal de uma derrota senão idêntica, simbolicamente equivalente, dado que perder contra o PSD e o CDS nesta altura significa a mesma coisa.

A lição mais importante a retirar da devastadora derrota do Labour britânico é a ausência de um projecto mobilizador. O PS de António Costa faz bem em cogitar rapidamente um projecto mobilizador que não se reduza a criticar a austeridade trazida pela coligação. Seria um erro crasso se António Costa não revelasse ao eleitorado uma frase mobilizadora que enunciasse um projecto. Temos que nos deixar de ilusões, os eleitorados actualmente movem-se mediante os mesmos mecanismos dos grandes reality shows. É uma tristeza e é provavelmente o fim da política como arte nobre, mas é isso que acontece e é com isso que temos de contar.

A primeira coisa a notar é que o PSD e CDS estão a reduzir as suas aparições às duas principais figuras partidárias. Com o apoio das cadeias de televisão e da comunicação social em geral, desapareceram ministros e secretários de estado, e os únicos que recolhem a atenção dos holofotes são Passos Coelho – cada vez menos Paulo Portas – e Maria Luís Albuquerque. Isto não é distracção. É estratégia. Ninguém se lembra mais da cara da ministra da agricultura ou da ministra da administração interna. E não lembra porque a estratégia eleitoral da coligação é concentrar as atenções em Passos Coelho. Maria Luís Albuquerque tem aparecido num festival de benesses, arremedo de boda aos pobres, em que o governo apostou nesta recta final. Por isso, Costa faria bem em aparecer mais. Não é estratégia inteligente confiar no natural desgaste do governo. Até porque este povo tem memória curta, e um bom último ano a abrir os cordões à bolsa pode ser o suficiente. O próprio Seguro aparecia mais, suscitava mais o interesse dos media; e no fundo, mexia-se mais, se tal for uma categoria apropriada para a análise política. Quem não se mexe, na política decalcada do star system televisivo, cai no esquecimento. Por isso, não basta participar em grandes comícios e conferências; é preciso fazer périplos nacionais, envergar a camisola do paulinho das feiras, e chegar mesmo a visitar queijarias.

É certo que esta primeira ilação não se deduz directamente do descalabro do Labour, na medida em que as campanhas eleitorais são diferentes nos dois contextos. Todavia, parece ser consensual depois do soul searching efectuado no seio dos quadros do Labour que um projecto mobilizador faltou a Miliband. Julgo que o PS ainda se encontra num patamar inferior: falta projecto mobilizador e figura carismática. O carisma actual não é aquele que Weber admirava: não se trata mais de uma qualidade quasi-transcendente que apenas os escolhidos possuem. Basta olhar para Passos – haverá alguém menos carismático? Mas a aura de salvador da pátria é laboriosamente construída. Por exemplo, seria muito improvável há um ano atrás termos Pires de Lima o ministro da economia a dizer aos jornalistas que não lê os relatórios do FMI porque tem outras prioridades, como o fez há dois dias. Para um governo que invocou o programa da troika como um muçulmano o Alcorão, esta displicência afigura-se cínica. Indicia ela a estratégia de demarcação do governo de um programa que abraçou como se fosse o seu. António Costa faria bem em interpretar uma tal hipocrisia e trazê-la aos olhos de todos.

Um outro aspecto que começa a ser entorpecedor para mentes arejadas é a forma como o governo antecipa propostas do PS. Hoje foi anunciada a contratação de 400 médicos de família na reforma quando o PS apresenta o seu programa para o sector da saúde… onde se prevê um aumento dos médicos. Isto não pode ser coincidência e alguém anda particularmente preocupado em seguir os projectos do PS. António Costa faria bem em jogar na antecipação.

Nada disto é fácil num país onde os meios de comunicação estão hegemonicamente nas mãos dos partidos da actual coligação governamental, onde os comentadores televisivos são maioritariamente desses mesmos países; onde o cinismo e a complacência abundam na análise política. Mas não ter em atenção estes detalhes, que fazem na realidade toda a diferença, equivale à distância entre ganhar e perder eleições.

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Cameronised

A vitória de Cameron no Reino Unido é um mau prenúncio para o resto da Europa. Depois das esperança depositadas na revolução grega operada pelo Syriza (revolução abortada à nascença, claro está) o renascer das esperanças do sector conservador neoliberal recebe a mais perfeita caução na maioria absoluta dos tories liderados por Cameron. Não é apenas o falhanço de Miliband, a desestruturação do labour – se não ganham a Cameron, quando irão ganhar? – a implosão dos liberais de Clegg. É mais do que isso. É sobretudo um sinal muito assertivo para as facções conservadoras  dos restantes Estados Membros de que é possível ganhar, e bem, apesar de uma política extremamente penalizadora para as populações. Por conseguinte, não espanta a satisfação quase perversa que podíamos identificar nos rostos de membros do psd e do cds aquando da revelação dos resultados eleitorais no UK.

A reeleição de Cameron torna, a outro nível, o caminho da Grécia mais penoso. Poder-se-á argumentar que o Reino Unido é na realidade um outsider europeu e que o que se passa na ilha a ela fica confinado sem ondas de choque que repercutam em Bruxelas. Mas é falso. Se Miliband tivesse ganho, os gregos sabiam que o retorno de um certo centro mais social poderia estar de regresso. O que os britânicos plebiscitaram foi a recusa, em boa verdade, a renúncia absoluta desse retorno. E fizeram-no de forma especiosa: dando plenos poderes a Cameron. Como se dissessem, Ainda não aprofundaste bem o teu programa, por isso vamos dar-te espaço de manobra para nem sequer necessitares de uma coligação. Aquilo que parecia ser o regresso de uma certa esquerda ao centro da Europa das decisões foi decisivamente amputado com a vitória de Cameron.

Houve quem se preocupasse especialmente com uma potencial saída da Inglaterra do espaço comum europeu. Quem vaticinasse que o sector mais nacionalista dos conservadores exigisse agora uma atitude secessionista condicente. Penso que cometem um grave erro de análise. Primeiro, a Inglaterra nunca quis sair da Europa – não quer é a ingerência da Europa, o que é uma coisa diferente. Segundo, essa possibilidade não assusta minimamente os grandes poderes europeus dada a benesse que lhes foi concedida de terem um dos maiores países a sufragar a austeridade. No jogo de percepções políticas era importante para estes últimos terem uma Grécia perdedora e um Cameron ganhador. No espelho das ideologias, a derrota dum é a afirmação da justeza do outro. A hora de uma mudança timidamente anunciada pelas eleições gregas e pela subida do Podemos em Espanha, extingue-se lentamente. E entre as hostes conservadoras europeias vai um grande regozijo perante o descalabro de projectos alternativos. Na Europa é enganador pensar que os países possuem uma autonomia política individualizada; que os efeitos dos resultados num não são aproveitados pelos outros para vindicarem soluções idênticas. A Europa é uma caixa de ressonância, sistemicamente articulada em que mexer num dos elementos implica reequilíbrios de poder ao centro.

Mas a vitória de Cameron é ainda negativa a nível de política externa. Enfraquece a posição europeia contra a Rússia de Putin, dado que a City, o conglomerado financeiro que sustenta Cameron desde sempre, é movida a dinheiro Russo. A tíbia reacção da Inglaterra perante os atropelos russos ao direito internacional no caso da Crimeia, a isso se deve: o óleo da City são os biliões russos que lubrificam a economia britânica. Sem eles, a Inglaterra não teria a riqueza que tem.

Photomaton & Vox

Relendo o Photomaton & Vox como se impõe em tempos de posteridades e legados, é impossível ficar indiferente à beleza cortante daquela prosa. Não era apenas na poesia que Herberto Helder excedia tudo e todos; na prosa, uma prosa lapidar e mirabolante, cheia de acrobacias e de piruetas, mas sempre purificada com um pensamento lancinante final, uma justificação modelar, um pensamento escorreito… essa prosa, está a léguas de distância do muito que hoje em dia se faz. E comparem-se os escritos de Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia, Valter Hugo Mãe – qualquer deles excelentes escritores – com aquela prosa. Não os desmerece (ou talvez sim), porque é difícil – senão impossível – chegar ao nível de apuramento de Herberto Helder. Mas cotejando os dois registos, não podemos deixar de notar a infantilização que essa ditirâmbica relação com palavra que Helder carregava como um feitiço, sofreu, e continua a sofrer nas mãos de uma nova geração. A justeza de cada frase, a beleza das combinações e a suprema inteligência das ideias, não conhecem paralelo actual. Não se trata apenas de infantilização; é antes um peso presunçoso que se arrasta e perpassa por certos escritos e que Helder sabia evitar, embora prolixo escritor como ele seja raro, e por isso mesmo sujeito sempre à acusação de obscurantismo. Mas Helder ainda é de um tempo em que Artaud se ouvia; Rimbaud fazia parte dos compêndios revolucionários do quotidiano; e … No fundo o que faz Helder senão continuar essa batalha imorredoira com a escrita? Com o exercício da escrita? A angústia que assolava Artaud, o sofrimento de não poder explodir o sentido em direcções para sempre indefinidas, onde nenhuma categoria se mantivesse à tona num mar de selvajaria conceptual.

In the eye of the beholder?

garland shooting

foto retirada do The Guardian

Não devemos confundir os acontecimentos de Dallas com o atentado ao Charlie Hebdo. Não, não devemos. Sobretudo, devemos distinguir rigorosamente o espírito de Charlie Hebdo da fundamentalista, sionista e islamofóbica, Pamela Geller, a mulher que organizou o concurso de caricaturas de Maomé. Charlie Hebdo segue uma tradição de derisão política, de zombaria contra o poder e os poderosos. Pamela Geller e a sua organização de direita radical pretensamente coberta por um acrónico de legitimação e defesa da liberdade de expressão, provém do mais conservador fundamentalismo religioso – judeu e católico -, da direita norte-americana mais básica e radical. Para não falar da simples constatação da estupidez e ignorância de Pamela Geller (leia-se o seu blog).

Por isso, embora os resultados sejam os mesmos – o que mostra como os muçulmanos não estão a ser muito inteligentes ao perpetrarem tais actos – os fundamentos são incomensuráveis. Ao contrário do que diz o Expresso, não se tratava de nenhuma “conferência sobre Maomé”. Se assim fosse, o mínimo exigível seria convidar os próprios representantes da comunidade islâmica, e Geller afirma que o local foi escolhido justamente para contrastar com uma conferência anti-islamofobia realizada no mês anterior. O concurso de Dallas era uma provocação gratuita, que nunca seria feita aos judeus, ou aos católicos, na medida em que Geller é uma fervorosa defensora do Likud e de Netanyahu e, mais abertamente ainda, da extrema-direita israelita. A comparação que ela efectua num dos seus artigos entre a juventude apoiante do Likud e a sua congénere apoiante de Obama, é sobejamente ilustrativa. Para Geller, os jovens do Likud não se deixaram embevecer pelas “mentiras esquerdistas” ou pelos “fascistas esquerdistas hippies” como os imprevidentes jovens “da esquerda radical” apoiantes de Obama. Para Geller, Obama não compreendeu que os Estados Unidos estão em guerra contra o Islão e que isso custará, a menor prazo do que esse rebanho de sórdidos esquerdistas pensa, uma islamização da América. Ao convidar Geert Wilders, o homem do partido da extrema-direita Holandesa, para ser o anfitrião do concurso, Geller não está a defender a liberdade de expressão contra o radicalismo da sharia – está simplesmente a provocar gratuitamente (ou nem tanto) uma comunidade. O facto é que o seu blog vomita sionismo, anti-esquerdismo; regurgita ódio a Obama e ao seu gabinete. E naquilo que é um salutar exemplo de liberdade de expressão, acusa Obama de ser um muçulmano encapotado. Um mimo, portanto.

Como estas coisas geralmente surgem articuladas, não se trata apenas de uma guerra de valores, à maneira do West vs the rest the Huntington. Geller está escandalizada com o facto de Obama ter “nacionalizado a saúde de forma obrigatória, pela qual toda gente é obrigada a pagar”. Pobre Obamacare, que é uma tentativa tão tímida de um sistema nacional de saúde. Mas não é isso que interessa discutir. Interessa sim que qualquer leitor atento conhece de antemão donde provêm estes comentários e que nada têm a ver com a liberdade de expressão, mas sim com a direita conservadora, moralista e fanática norte-americana. No seu livro de Post-American Presidency, Geller acusa Obama de ter minado os verdadeiros valores da nação. Refere-se, porventura, àqueles que suscitaram a reunião no centro de congressos em Dallas onde numa atitude gratuita se organizou um concurso de caricaturas de Maomé com direito a prémio monetário recebido das mãos do próprio Geert Wilders. O atentado foi o melhor que podia ter acontecido a Geller e à sua máquina de propaganda. Não fez vítimas para além dos próprios perpetradores e serviu de bandeja a causa anti-islâmica de Geller e Wilders. Como estes dois devem estar a preparar os festejos para mais logo.