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Baltimore

Abril 29, 2015

Quando se passa de comboio em Baltimore vindo de Washington DC, deparamos com uma imensidão de miséria americana dos subúrbios. Aqui a urban sprawl não originou belos subúrbios como os de Filadélfia, com as suas casas de classe média-alta, enfeitadas com jardins fronteiros, para onde os jornais matutinos são diligentemente atirados pelos ardinas que se deslocam de bicicleta. Não, a mancha em torno de Baltimore é um mar de casas deterioradas, janelas e portas partidas, buracos nas paredes cobertos com plásticos da construção civil, ruas clandestinas, carros abandonados ao delapidar da ferrugem e do abandono, e sobretudo espectros cambaleantes que se deslocam nestas ruas como se de um cenário pós-apocalíptico se tratasse. A curiosidade, se mais fosse preciso para chamar a atenção para este cenário de desolação, é que esses vultos aparentemente sem destino, são todos negros. Homens, mulheres e crianças – negros, todos eles. Aqui nem sequer há lugar para a ambiguidade induzida pela música de Caetano – “malandros todos negros/ todos brancos, todos pobres…”. Aqui, a pobreza é negra.

A mancha de desolação urbana estende-se a perder de vista: são quilómetros e quilómetros que se arrastam à velocidade do comboio que vai aligeirando o passo ao atravessar as zonas urbanas. Nem nas maiores favelas do Rio de Janeiro tamanha extensão se vê. É certo que não se trata de barracas, mas sim casas de madeira e alvenaria, com dois andares na maior parte das vezes. Mas isso é indiferente. A lugubridade das habitações, o desarranjo do espaço público, a insalubridade das ruas, apontam cada uma na mesma direcção de pobreza e segregação.

Num trabalho que se tornou um clássico da segregação urbana da autoria de Massey e Denton, cidades americanas como a Chicago dos anos noventa são comparadas às principais cidades sul-africanas dos tempos do apartheid… e estas últimas saem a ganhar dado que apresentavam níveis inferiores de segregação.

À medida que vamos atravessando este imenso terreno de abandono e que as torres magníficas do centro de Baltimore vão ganhando em espessura, percebemos que aquilo que está actualmente a acontecer é o resultado natural da diferença norte-americana. As cidades estão em ebulição. E observando como linhas urbanas definidas imprimem na materialidade dos espaços, assimetrias económicas e sociais pronunciadas, compreende-se igualmente que a revolta é qualquer coisa de endémico a estes territórios.

É injusto concentrar o sentimento de frustração na irrelevância de um Obama ultrapassado pelos acontecimentos e obrigado a reconhecer perante John Stewart que “Yes, we can, but…”. A América não mudou substancialmente após a eleição do primeiro presidente negro. Seguramente que a nível da representatividade de uma classe política que era fundamentalmente branca, é uma enorme conquista. Porém, os efeitos reais disso na distribuição económica, no nível de vida, na equidade, são ínfimos. Para todos os efeitos, a América continua a ser a América do Tea Party. E essa está de acordo com a mancha de miséria que circunda Baltimore. Não apenas está de acordo, como considera que é o resultado directo de uma sociedade onde o mérito individual deve imperar. Níveis de desemprego acima dos 60%, como os detectados por Wacquant nos hiperguetos – esse território em que a guetização serve apenas para excluir e não mais para proteger os seus – não são combatidos apenas pelo simples facto de um presidente negro ser eleito. Baltimore é apenas um exemplo, entre os múltiplos que os Estados Unidos têm para oferecer. A constante estrutural que se encontra subjacente à reprodução dos territórios esquecidos como a orla de Baltimore é o aumento persistente da desigualdade na sociedade norte-americana. Especificamente, esta tem linhas de justaposição muito concretas com diferenças raciais. Uma resposta do presidente Obama aborda estes pontos e coloca a tónica no problema social em vez de incidir exclusivamente na questão da lei e ordem, como é apanágio dos republicanos. Contudo, não basta um conjunto de boas intenções como inventar role models para que os filhos da pobreza possam um dia almejar uma entrada na Universidade. Aquilo é a América. A América da riqueza sumptuosa de Holliwood boulevard só existe porque a mais crassa pobreza em Baltimore e Detroit persistem. É falso o mantra tatcheriano segundo o qual quanto mais ricos forem os ricos, mais rica será a sociedade em geral. A América é a prova cabal que assim não acontece. Onde o desemprego impera, a ilegalidade é a única forma de assegurar a sobrevivência. Onde a desindustrialização esvaziou as oportunidades de uma carreira, a marginalidade é um substituto funcional e rápido. Os motins de Baltimore não são protestos políticos, são gritos de raiva pela exiguidade de vidas sem horizonte. Roubar e destruir são reacções automáticas de pessoas que vivem em zonas onde tudo foi roubado e destruído.

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