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Da Europa com amor

Abril 20, 2015

Numa notória ambiguidade, encontramos interpretações idênticas entre especialistas de imigração, deputados e políticos governamentais. Sobre a desgraça do barco que se afundou a 200 kms da costa italiana e onde se prevê que a contagem dos mortos por afogamento ascenda a mais de novecentas pessoas, houve uma “esclarecida” unanimidade no diagnóstico da situação. Ouvimos hoje de manhã, quer o “especialista” em imigração internacional José Carlos Marques quer o deputado europeu Paulo Rangel dizerem desassombradamente que o problema era de deslocar meios de salvamento para aquela zona marítima. O problema, meus senhores iluminados, é que para imigrantes clandestinos os barcos de salvamento confundem-se estranhamente com as embarcações de controlo. Para os imigrantes clandestinos, balsas que os salvem podem facilmente transformar-se em balsas que os recambiam para os seus países de origem, aqueles donde fugiram e cujo receio do regresso é tão grande que arriscam travessias suicidas. Talvez o facto de os mais de 900 imigrantes se terem acumulado num dos lados do navio que os transportava fazendo com que este se virasse não seja suficientemente elucidativo – chama-se medo, a essa reacção de pânico perante a aproximação de um navio português comercial. Quem assim arrisca a vida, clandestinamente, sabe também que muitos são os barcos que controlam a zona marítima no intuito de os apanhar. Por isso o problema não está em deslocar meios de salvamento para evitar as tragédias – está na clandestinidade. Numa inversão cínica, disse Renzi, no que é secundado pelos nossos “especialistas” que é preciso lutar contra as redes que empurram estas pessoas para situações limite. Quando na realidade, a situação limite é fabricada pela condição de clandestino. Com uma Europa cada vez mais preocupada em não ter aquilo que considera serem free riders do seu welfare, os controlos multiplicaram-se e Lampedusa não é propriamente um hotel de cinco estrelas onde os imigrantes resgatados estagiam antes de serem recebidos de braços abertos pela Europa. Lampedusa é um centro de detenção, onde aqueles que passam a apertada rede de controlo fronteiriço aguardam ordens de extradição que os atirarão inexoravelmente para os conflitos, a fome, a miséria, a violência donde procuraram fugir em primeira instância.

Não, senhores especialistas, não se trata de deslocar meios nem de uma Europa com consciência pesada por causa das tragédias que caem na sopa dos europeus. Trata-se de a tragédia quotidiana de Lampedusa não impressionar ninguém; mas quando ela vem com mortos à deriva já toda gente sente impulsos humanitários a subirem à garganta.

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