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A320

Março 27, 2015

No filme Relatos Selvajes de Dámian Szifron, a primeira história da tapeçaria de episódios é sobre um homem que se suicida num avião, ao tomar à força os comandos do mesmo, levando consigo para o sono derradeiro os passageiros. Neste caso o efeito é cómico, porque Gabriel Pasternack, o músico falhado, consegue atrair todos aqueles a quem odeia para dentro da infortunada aeronave e despenhar-se com eles. No caminho, mata os pais com quem mantém uma relação mal resolvida, dirigindo o avião para o lar de terceira idade onde estes se encontram sentados pacatamente no jardim.

Que o episódio possa ser utilizado como motivo de humor negro, não retira um grão à tragédia dos Alpes. Mas as semelhanças são assinaláveis. Também Gabriel, o personagem, sofre de uma depressão da qual se anda a tratar com um psiquiatra que ele também atraiu para o avião no intuito de o matar. Agora que os contornos da sinistra história do A320 que se despenhou nos Alpes começam a ser desvendados, surge a uma claridade desnuda a foco da investigação. Respiram os RPs da gigante Lufthansa que afinal não foi falha técnica. Bem sei, isto é demasiado cínico para ser proferido assim perante a enormidade da tragédia – uma profanidade. Contudo, ainda ontem assisti a alguém defender que a tese do suicídio tinha sido avançada demasiado depressa e que por trás da pressurosa revelação do procurador francês estaria a mão enorme da imponente Airbus. Polémicas, enfim. Mas quem o disse não era um velho roto e bêbado, mas um abalizado homem da indústria da aviação. Por mim, fico pela tese do suicídio. Sempre é uma explicação. E para o que não tem explicação, teremos que arranjar deuses.

Antecedentes de casos assim, existem. E os jornais que gostam de esmiuçar o miolo do horror, depressa alinhavaram listas compendiadas de semelhantes exercícios suicidários: em Moçambique, no Egipto, etc. Diz-me alguém, perante a pergunta, Mas porque não se matou ele sozinho, que a morte solitária é difícil. Não é que a pessoa que o disse alguma vez tenha experimentado a morte, nem acompanhada nem solitária. Pensa ela que Lubitz se comportou como uma criança grande, e como uma criança que insiste que os adultos lhe dêem atenção, também este quis mergulhar no precipício sabendo-se acompanhado da família. Estranha reflexão. Talvez tenha razão; pelo menos assevera que acompanha espíritos e que gosta de os ver partir em sossego.

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