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A morte e o mestre

Março 24, 2015

Morreu o Herberto Helder. Um nome tão aliterado, só poderia albergar um homem único. Morreu o maior poeta ainda ontem vivo. Não apenas o maior poeta português ainda ontem vivo – o maior poeta, ponto, ainda ontem vivo.

Reproduzo aqui um post que publiquei pela ocasião da Morte sem mestre, o livro que já lhe adivinhava a morte.

A morte sem mestre é o livro mais seco de Herberto Helder. Entenda-se aqui seco como esquemático, em esqueleto, e não com qualquer conotação afectiva. É também um testamento de alguém desiludido com o passar do tempo; do seu e do país. Olhar desencantado sobre a idade e a vida do poeta, onde nem a poesia, por mais conscientemente bela que seja, resgata o aproximar da morte. Foi tudo em vão? – perguntar-se-á Herberto Helder em vários momentos deste seu livro. Nós sabemos que não. Mas o poeta (o maior dos vivos) insiste em colocar uma cáustica dúvida sobre um sentido benigno que a criação – a única passível desse nome: a da nomeação poética – pudesse ter atribuído à sua vida. Um testamento suicidário por vezes. Mas esta morte possui uma beleza da economia poética que roça o trágico. Estamos afastados da carga por vezes vertiginosa de atributos, de prolixas modelações poéticas que faziam por vezes o verso ajoujar perante uma saciedade nunca adquirida. Agora tudo é directo: não tenho dinheiro para comprar mais gás – que cara que está a morte. Retrato de um país, também, que se confunde com a degenerescência do poeta; retrato de um país onde a morte se tornou excessivamente cara. E com a morte, ou a sua proximidade, vem o declínio sexual (ou será a inversa?). Perante a côna (assim mesmo escrita, com o acento que lhe dá o declive de raiva perante a sua, agora, inacessibilidade) são as mulheres de Herberto, outrora sempre chamas vivas e alojadas na casa do amor, que são destituídas do seu lugar intemporal. Porém, que beleza sôfrega alberga este cenário de desolação. Se a morte o espera, aguarda-a também Herberto Helder, prestando-lhe esta (quiçá última!) homenagem ao incluí-la, quase domesticada, na sua fala. Que venha a morte – diz-nos Herberto Helder. – Que venha, porque eu já a escrevi.

Deixemos antes Herberto Helder falar de outros tempos em que se sonhava eterno:

Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
– E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.

Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
– Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. – Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.

Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
– Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.

Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.

Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
– não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.

E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.

Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito

nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. – E é uma pedra celeste.

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno

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