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Stand-up

Março 20, 2015

 Rábula de Gervais “The Bible”

No circuito norte-americano da stand-up comedy existe uma repetição a cujo cânone os comediantes têm que se agarrar. Por isso não é raro ver as mesmas piadas repetidas, com ligeiras modificações, mas as mesmas situações, puns e efeitos, ora em torno da masturbação, ora da droga e do álcool, ou das namoradas e mulheres. Estes três grandes temas cobrem prety much o circuito das superstar de stand-up actual: Louis C.K., Chris Rock e Asis Anzari, por esta ordem. Desapareceram de cena a piada política, económica  – para além das sistemáticas alusões a estar falido, embora ganhem milhões – ou nacionalista, ou seja, fazer pouco do país onde se nasceu, obtendo o efeito de chamar a atenção para essa mesma ligação, e finalmente, o gozo com a religião que catapultou gente como os Monty Python para o sucesso universal. A este propósito há uma excepção que brilha no firmamento da comédia: Ricky Gervais. A ascensão meteórica de Gervais no mundo assassino do circuito norte-americano é notória a diversos títulos. Primeiro, porque por diversas vezes lhe vaticinaram o fim depois de piadas ao cristianismo que exibem o seu ateísmo com uma desfaçatez numa América do In God we trust, que dir-se-ia que apesar da sua arte funambular se despenharia a qualquer altura. Segundo, porque Gervais ataque as vacas sagradas impiedosamente, não recorrendo a tipos vagos que ocupam o humor da maioria – o bêbado, o pedófilo, o gordo – mas chamando nomes aos bois e fazendo-os berrar como na matança do porco. Contudo, é também notória a plasmação constante dos motivos mais habituais da comédia norte-americana nas piadas de Gervais. Se há algo que surge repetido nos três grandes nomeados atrás, procurando um efeito garantido – que o tem – é o simular uma felação. Ora Gervais não o fazia anteriormente, nem durante o Office, nem nas suas aparições no circuito britânico; não quer dizer que não fizesse piadas em torno do assunto. Fazia. Mas a simulação em palco de uma felação é algo que surge reiteradamente em Ansari, Louis C.K, e Rock… e agora em Gervais. Ficará para análises futuras do humor perceber por que razão a felação ocupa um tal lugar no panorama actual da stand-up? Curiosamente, são os homens que a simulam, e nunca as mulheres; embora não exista uma única mulher de vulto no meio. Mas o gesto preenche bem uns trinta por cento do material, se estendermos o critério não apenas à sua simulação gestual, mas também a alusões ao acto no texto de cada um dos episódios relatados.

Gervais destaca-se ainda por outra razão. Ao gozar literalmente com várias vacas sagradas é o que mais se aproxima de um bobo da corte. Aliás, a sua relação com o firmamento de Holliwood é praticamente decalcada da relação do bobo com Lear, na peça de Shakespeare. O Knave da corte de Lear é na maioria dos casos a voz dissonante, e nesse sentido também a mais honesta. Mas isso era função comum dos bobos; a especificidade shakesperiana é que Lear parece apenas guardar reais sentimentos pelo seu bobo, mesmo que por vezes ameaça dar-lhe com o chicote. Gervais funciona como o fiel knave de Lear; de facto, o amor que holliwood lhe prodigalizou, apesar de Gervais lhe mostrar os podres e os gozar (ou por causa disso), cumpre de facto a função do bobo da corte. E se observarmos bem o comportamento de Gervais, ao aplicar-se com denodo em pertencer a todas os círculos importantes, ao marcar presença nos shows mais emblemáticos da televisão norte-americana, ao aparecer junto das figuras mais conhecidas, ao representar instituições que marcam os códigos do show business, tal como a holliwood press association e semelhantes, mostra bem o trabalho que Gervais tem feito para existir no meio da aristocracia norte-americana contemporânea – que deixou o eixo de Filadélfia para povoar massivamente a costa oeste – funcionando no entanto como o ente marginal que pode criticar de fora, porque o humor isso lhe permite.

Se é verdade que, como sustentaram Bergson e Freud, o humor cumpre uma função social, então a psicologização humorística da stand-up actual encontra-se entre o escândalo e a crueldade. Lembremos a subtileza com que Seinefeld classificou a palavra fuck chamando-lhe “o corvete da stand-up comedy”. Seria preciso a intervenção clarificadora de Chris Rock para nos revelar que para Seinfeld o corvete é um carro de merda. Assim a ironia fica exposta e nós percebemos a inteligência do comentário. Contudo, os três grandes actuais – Gervais, Louis e Ansari – usam e abusam da expressão – e têm piada. Contrariamente ao humor videirinho que anda muito por aí, as suas piadas podem ser profundamente cruéis, bem para além das simples inversões do politicamente correcto; cruéis no sentido de não respeitaram a sacralidade da pessoa humana, como a definiu Joas. Mas o humor sempre sustentou um tal mergulho na mais absoluta das crueldades. Para Bergson, o humor tem apenas um lado negro, e a crueldade que ele inflige é um elemento disciplinador. Não creio que a stand-up actual vise repor uma qualquer ordem pela causalidade estabelecida entre o ridículo e a crueldade. E os elementos presentes no humor actual são cruéis, mas apenas ridicularizam quem se sente com força para os criticar. É nesse sentido que a liberdade absoluta que é explorada por Gervais e Louis C.K. – menos em Ansari, o menos inteligente dos três – funciona paradoxalmente como a delimitação do permissível. Ou seja, a invocação de certos termos só deve e pode ser usada quando em contexto de derrisão e mutilação de sentido previamente assinalado. Todavia, estaríamos enganados se aqui quiséssemos ver um círculos delimitadores dos territórios da espontaneidade versus espaços de rotina e obrigatoriedade. Por detrás da aparência do espontâneo total encontra-se a reiteração deliberada de expressões, gestos, treinados exaustivamente, experimentados e burilados, deixados aqui e ali como outros tantos teasers que fazem com os espectáculos destes humoristas nunca termine. Precisamos apenas lembrar-nos como Robin Williams levava para as entrevistas o seu repertório, como o lançava em fragmentos numa alucinação experimental de teasers avulsos que mais tarde apareceriam limados nos seus grandes espectáculos. Profissionais da máscara e da sua reprodução, treinados na encenação e na busca de efeitos experimentados, a genialidade está em criar a ilusão de que tudo aquilo é espontâneo, assim como a publicidade cria a ilusão de que as pessoas estão genuinamente a viver a paleta de sentimentos que foram previamente instruídas para sentir. No meio disto, destaca-se o mais inteligente e original dos humoristas, Ricardo Araújo Pereira. Com uma imaginação prodigiosa, mesmo que se sustente em tipos modelares e repetidos, como o labrego, o choninhas, etc, alimenta-os no entanto sempre de conteúdos diversos. Não sendo um animal de palco como Gervais ou Louis C.K., é no entanto o mais versátil deles todos; e o seu humor abre possibilidades combinatórias que não necessitam de recair nas mesmas fórmulas testadas e bem-sucedidas. Não quer dizer, contudo, que seja o mais engraçado. Afinal de contas, o riso é ele próprio, na sua dimensão física, repetitivo e regular.

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